The Leftovers foi exibido entre 2014 e 2017. Suas três temporadas somam um total de 28 episódios. Uma série que ainda conseguirá encontrar o seu público com o passar do tempo. Foi (e ainda é) assim com o mundo delirante de Twin Peaks e com o humor frenético de Arrested Development, séries muito à frente do seu tempo, que precisaram de anos para serem reconhecidas e cultuadas.

A série se passa três anos após o mundo entrar em frangalhos, no dia 14 de outubro de 2011, onde140 milhões de pessoas desapareceram de forma inexplicável, o equivalente a 2% da população global, fenômeno que ficou conhecido como a “partida repentina”. Na cidade de Mapleton acompanhamos quatro personagens e a história de dor de cada um deles, com episódios independentes sobre suas jornadas pessoais, que dão um vislumbre da força que a história, como um todo, possui.
O foco central desse caos emocional é o atormentado Kevin Garvey (Justin Theroux), o chefe de polícia da cidade de Mapleton, que precisa controlar crises constantes, tanto na cidade, como em sua vida pessoal. Kevin parece estar sendo tragado por uma angústia existencial profunda, depois que sua família se desfez, mesmo sem um único membro dela ter “partido”.

Diferente de Kevin que não sofreu perdas como a Partida Repentina, Nora Durst (Carrie Coon) carrega consigo a dor avassaladora de ter perdido seus dois filhos e o marido (uma possibilidade de 128.000 em 1 como ela diz em certo momento).

Matt Jamison (Christopher Eccleston) é o reverendo da cidade, que após a Partida, se dedica a desmascarar os “heróis” desaparecidos, investigando o seu passado e espalhando-o em panfletos por toda a cidade, na tentativa de provar que não foi o Arrebatamento Divino (como passa a ser pregado por grupos religiosos) que ocorreu, pois existiam até pedófilos entre os desaparecidos.

Laurie Garvey (Amy Brenneman), a ex esposa de Kevin que se uniu a um misterioso culto onde todos usam branco, não dizem uma única palavra e fumam de forma compulsiva.
A série desafia seu público ao não seguir com escolhas fáceis. Não tenta responder o que aconteceu, evita floreios visuais, não mostra um mundo tão diferente do nosso, nem busca um olhar esperançoso sobre a reconstrução da vida após o desastre. No lugar disso, a série mostra as sombras da alma de cada personagem mergulhado na sua própria dor.
Leftovers é baseada no livro homônimo de Tom Perrota (que também é produtor e roteirista da série). Apesar disso, série e livro tem tons diferentes: o livro está envolto pelos detalhes cotidianos de uma pequena comunidade urbana; já na adaptação do livro para a TV, Damon Lindelof, o conhecido co-criador de “Lost”, impulsiona uma carga de mistério à história, com visões apocalípticas, tensão e estranhamento.
Se em sua primeira temporada a série usa material do livro como inspiração e as questões metafisicas passam pela série de forma ambígua, na segunda chega repleta de mudanças, com quase todo o elenco, assim como Mapleton sendo “deixado para trás”.O cenário muda para Jarden, no Texas, que passou a ser conhecida como Miracle por ser a única cidade onde ninguém desapareceu no dia da Partida Repentina.
O primeiro episódio evidencia com mais força essa mudança, ao nos mostrar um personagem conhecido da primeira temporada somente após 30 minutos de episódio. Há também uma mudança bastante significativa na abertura e música tema da série que ostenta a atmosfera de mistério que agora orienta os rumos da história.

A crise que permeia os personagens é uma versão amplificada de dilemas do cotidiano, a força arbitraria da morte e o impacto que a perda nos causa, que na verdade, é o foco central. A cada nova temporada a série acumula o sofrimento esmagador desses personagens e cria uma experiência como poucas vezes vista em séries de TV, onde o arrebatamento é pessoal.

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