Bento Oliveira – um paraense autocrítico
O presidente Jair Bolsonaro elegeu a Noruega e a Alemanha como culpadas por delitos ambientais na Amazônia para justificar a perda de uns 400 milhões que esses países iriam repassar ao Fundo Amazônia ainda este ano. Na verdade, para quem conhece o assunto, fica claro que o presidente perdeu os recursos não por querer esnobar, e sim mais pela quantidade de idiotices em série proferidas em profusão inacreditável, descreditando a maturidade do nosso país como capaz de gerir o patrimônio inestimável da Amazônia.
A partir daí, a máquina de fake news sua e de seus seguidores passou a difundir que os crimes praticados em Barcarena, no Pará, na Amazônia brasileira, pela multinacional Norsk Hydro seriam imputáveis ao Estado da Noruega, proprietário de 34% das ações da mineradora, esta por sua vez dona das plantas industriais da Hydro Alunorte e da Albrás onde há a maior produção de alumínio do mundo.
Só mesmo a hipocrisia ambiental que habita em cada brasileiro, e em especial nós paraenses, pode aceitar a afirmação de que o país nórdico é culpado pelos crimes da Norsk Hydro e que isso justificaria “deixar pra lá” os preciosos recursos fundamentais à continuidade dos projetos do Fundo Amazônia.
Ninguém é mais conivente e muito mais culpado que a Noruega pelos males causados pela Norsk Hydro no Pará senão que nós mesmos, os paraenses.
A Norks Hydro não se instalou aqui no Pará por ocupação militar das Forças Armadas da Noruega, mas sim com todos as autorizações que o Estado pôde conceder-lhe, como as imprescindíveis licenças ambientais, mais ainda benesses como os incentivos fiscais de 7,5 bilhões do governo Jatene e do governo anterior da petista Ana Júlia.
Não foi o governo da Noruega que concedeu os alvarás municipais (os quais aliás, “buiaram” na CPI da Alepa após o escândalo de 2018, sem que o prefeito Antonio Carlos Vilaça conseguisse explicar essa mágica). Não foi o Estado da Noruega que aprovou as vistorias fraudulentas do Corpo de Bombeiros do Pará, onde as comunidades do entorno não possuíam qualquer salvaguarda em caso de rompimento das barragens.
Não foi o Estado da Noruega que determinou a omissão lamentável dos Ministérios Públicos, com a sua subserviência histórica aos crimes da Albrás/Alunorte, e que só agiram após o grande levante popular capitaneado pela Cainquiama a partir de novembro de 2017. Não foi o Estado da Noruega, e sim o desembargador Luiz Neto do Tribunal de Justiça do Pará quem concedeu liminar para impedir que o Instituto Evandro Chagas faça exames em pessoas contaminadas que vivem nas comunidades do entorno da Hydro Alunorte.
A Norsk Hydro foi premiada com toda essa subserviência sem qualquer contrapartida de ou talvez entregando mesmo míseros recursos oficiais ao poder público. É certo que o grupo Norsk Hydro fez evidentes trocas de favores: contratou empresas estratégicas (inclusive escritório de advocacia de ex-procuradores-gerais do Estado, com especiais relações dentro da Procuradoria Geral do Estado), contratou empresas da família do prefeito de Barcarena, Antonio Carlos Vilaça.
O Estado da Noruega não é menos culpado que pelos crimes da Norsk Hydro aqui no Pará e, em especial, por que conta com a omissão da cidadania do povo paraense, em especial a do povo da Grande Belém, da qual faz parte da região metropolitana o município de Barcarena.
O paraense de Belém é tão alienado, e tão omisso nesse mundo apartado onde vive que “sente pena do povo de Barcarena”, sem imaginar correr os mesmos riscos de contaminação do pólo industrial de Barcarena.
Portanto, perder, e ainda pior usar isso como discurso de resistência, os recursos do Fundo Amazônia aportados pelo Estado da Noruega – de longe o maior doador, com cerca de 4 bilhões de reais – não é apenas uma tolice inqualificável, não é apenas desconhecimento, não apenas hipocrisia, não apenas chovinismo caricato bolsonarista.
É, antes de tudo, a confirmação de que nós continuaremos culpados pelos crimes não apenas da Norks Hydro, mas também por todos aqueles que apenas vem estabelecer estruturas exploratórias e predatórias na Amazônia, contando com a nossa total falta de cidadania.
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