No começo desta semana, o Ver-o-Fato presenciou uma cena que é mais comum do que muitos imaginam aqui no Pará. Um jovem, com cara de ter 17 anos, saltitava entre os carros, no sinal de trânsito da Benjamin Constant com Nazaré, tendo ao lado uma senhora, provavelmente bisavó dele, que pedia “um trocado” para os motoristas. Poucos abriam o vidro de seus veículos para atender ao pedido da velhinha, para lá de seus 80 anos.
O que chamou a atenção do repórter do blog foi a insistência com que o jovem dava ordens à senhora para que ela fosse mais ágil no pedido e insistisse para que fosse atendida, batendo no vidro dos veículos. Enquanto o sinal estava fechado, deu para perceber que o pouco dinheiro que a velhinha arrecadava não ficava com ela, mas com o rapaz, que parecia exercer completo domínio da situação.
O fato é uma constatação de que, socialmente, além da exploração do idoso por familiares, o Pará continua no rabo da fila na geração de oportunidades de emprego e renda para os jovens, mesmo àqueles sem qualificação profissional. As políticas assistencialistas do Estado e dos Municípios não satisfazem às necessidades básicas de quem, sem absorção pelo mercado de trabalho, acaba refém de traficantes de drogas e do crime organizado para sobreviver praticando pequenos delitos, ou como “laranjas” de crimes maiores.
Se os jovens não têm emprego, nem renda, suas famílias são sustentadas pelas aposentadorias daqueles que ajudaram o país a crescer, mas hoje recebem proventos que beiram à imoralidade financeira. No Pará, o número de idosos que são provedores de suas famílias é algo que impressiona.
Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), neste ano de 2015, cerca de 484 mil famílias paraenses têm um idoso como provedor da casa, ou seja, aquele de quem todos dependem. Numa população de 8,2 milhões habitantes, isto representa 19,98% de lares sustentados por um aposentado. Os dados do IBGE revelam que, em 2001 – 14 anos atrás -, o número de famílias que tinham um idoso como principal referência financeira era 167 mil, naquela ocasião um percentual de 14% com relação à população do Estado. Hoje, de cada cinco famílias no Pará, uma depende do idoso.
Como a aposentadoria paga pelo INSS e pelo Estado se situa na faixa de um salário mínimo – o que exige controle total de gastos e consumo para o dinheiro render até o final do mês, o que é quase impossível – muitos idosos, mesmo os aposentados, continuam no mercado de trabalho para operar o milagre da sobrevivência. Em 2015, ainda de acordo com o IBGE, são 231 mil. No ano passado, eram 201 mil.
Se a velhinha explorada pelo bisneto, no sinal de trânsito da Benjamin com Nazaré, recebe alguma aposentadoria ou o chamado “benefício de prestação continuada” do INSS – pago àquela pessoa adulta que não tem nenhum rendimento para se sustentar – não se sabe.
O que se sabe é que, bem ou mal, esse dinheirinho coloca o alimento em quase 500 mil lares paraenses. Não fosse o aposentado, a situação estaria muito pior dentro dessas casas. O blog Ver-o_Fato já recebeu denúncias de que muitos aposentados têm seus rendimentos sequestrados por filhos, netos e bisnetos viciados em álcool e drogas.
Mas isto, como se vê, já é caso de polícia. E assunto para outra postagem.
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