Existe o mau professor, o mau médico, o mau policial. O policial erra, temos uma injustiça. O médico errou, perdemos uma vida. O professor dá aulas bem ruins, perdemos uma geração. Mas agora, inusitadamente, temos o mau pedinte de busão. Mas esse mau, é mau mesmo – ou pelo menos faz bem o papel -, tipo boladão, malacão, destemido, Alanzinho Maniçoba.
A tática já é manjada, mas absurdamente dá certo, pois consiste em pedir dizendo que faz isso para não roubar. Se na primeira investida não der certo, eles seguem com mais pressão, dizem que se ninguém os ajudam, então talvez fosse melhor voltar para vida do crime.
Mas aí está a grande sacada, eles falam de um jeito como se a volta fosse acontecer naquele momento, com aqueles passageiros, enfim, como se uma entidade da ladroagem estivesse prestes a visitar aquele corpo.
Na dúvida, muitas pessoas acabam dando por livre e espontânea pressão, principalmente mulheres e senhoras de idade. Quem não dá, ele olha como se a pessoa estivesse devendo algo. Já teve casos da pessoa não ter dinheiro e preferir descer do ônibus. Aliás, sempre tem alguém que diz que realmente já foi roubado por um desses. Eu acho que é lenda urbana e não passa de um truque que, infelizmente, dá certo.
Uma vez um desses subiu em São Brás. Ele começou com o olhar de malacagem, eu também joguei a minha. As mulheres todas catando moedinhas no fundo da bolsa por conta da intimidação, mas eu lá, o que ele quiser, eu quero em dobro (mentira). Até que ele recolheu as moedas, reclamou de uma que só deu 1 real (isso também é tática para ser mais valorizado) e desceu apressado do ônibus.
Foi só cruzar a porta que a feição dele mudou completamente. De rei do crime, mudou para Teletubbies. Ainda gritou: “eu nunca nem passei na frente de uma cadeia”. Ou seja, era tudo encenação. As novelas estão perdendo esses rapazes.
Nesse ramo as histórias são variadas, apesar do mesmo desfecho. Tem o ex-traficante, o ex-assaltante de banco, o ex-drogado, o corno. Quase sempre invocam uma palavra religiosa, mesmo aparentando estarem prestes a ser possuídos por algo fedorento do mal. Aterrorizam os ônibus de Belém. Certamente estarão no próximo Visagens & Assombrações da cidade. Até porque, vai que é o Boto e a Matinta tentando carreira em outro ramo do terror.
Reciclar-se é tudo!
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