Preso desde 2025, o dono do Banco Master montou rede com propinas, jatinhos e festas que atingiu políticos e ministros, e os implicados juram inocência
Brasília – Preso desde novembro de 2025 e investigado por fraudes bilionárias no Banco Master, o banqueiro Daniel Vorcaro construiu em Brasília uma rede de relações que atravessou os Três Poderes e os dois principais campos políticos do país, conforme mapeamento denominado Vorcarosfera pelo Estadão, novo verbete candidato a imortalização no triste Dicionário Nacional da Corrupção no Brasil.
A repercussão do caso ganhou nova dimensão nesta semana, quando o ministro André Mendonça, relator da investigação no Supremo Tribunal Federal (STF), tornou público um relatório de 218 páginas da Polícia Federal (PF) com mensagens trocadas entre Vorcaro e o ministro Alexandre de Moraes, que passou a ser cotado para integrar oficialmente o inquérito, em meio a uma crise interna sem precedentes na história Corte, criada em 24 de fevereiro de 1891 (com a promulgação da primeira Constituição republicana), portanto, há 135 anos.













A origem do caso e a escalada das investigações
O escândalo começou a tomar forma ainda em 2025, depois de duas tentativas frustradas de venda do banco despertarem a atenção de reguladores e investigadores. Em 17 de novembro de 2025, a PF deflagrou a Operação Compliance Zero e prendeu Vorcaro em Guarulhos, com mandados cumpridos em quatro estados e no Distrito Federal, após decisão na esfera do STF
O banqueiro chegou a ser solto ainda naquele mês, mas foi novamente detido em 4 de março de 2026, numa nova fase da operação que bloqueou R$ 22 bilhões em bens e foi a primeira autorizada pelo ministro André Mendonça, que assumira a relatoria do caso depois da saída de Dias Toffoli. As suspeitas reúnem corrupção, lavagem de dinheiro, obstrução de justiça e a venda de títulos de crédito falsos, em esquema que, segundo a PF, pode chegar a R$ 12 bilhões, e que terminou por levar o Master à liquidação, com dívida estimada em R$ 52 bilhões junto ao Fundo Garantidor de Créditos (FGC) e cerca de 12 milhões de clientes afetados.
O material tornado público pelo Estadão organiza a chamada “Vorcarosfera” em 88 conexões distribuídas por oito categorias, que vão de propina e negócios a encontros, voos em jatinhos, festas, degustações de whisky, charutos e vinhos, além de doações de campanha feitas por meio do cunhado do banqueiro, numa promiscuidade de causar inveja à Casas de Tolerância estabelecidas.
A tese central do levantamento é direta, pois Vorcaro, “sem preconceito com a ideologia partidária“, teria se cercado de políticos e autoridades para se blindar política e juridicamente enquanto cometia crimes e escalava os negócios do banco. Em 7 de abril de 2025, ainda antes da prisão, ele escreveu à então namorada, Martha Graeff, uma frase que sintetiza a operação, pois “esse negócio de banco sempre falei que é igual máfia“, como registrou a reportagem.
O Congresso e a ’emenda Master’
No Legislativo, o fio mais visível da trama conduz ao senador Ciro Nogueira (PP-PI), presidente nacional do Progressistas e ex-ministro da Casa Civil do governo Bolsonaro, que aparece no infográfico nas categorias de propina, negócios e atuação pró-Master.
Em 7 de maio de 2026, a PF cumpriu mandados de busca e apreensão contra o parlamentar, e relatórios posteriores indicam que ele recebia R$ 500 mil mensais de Vorcaro, além de vantagens como R$ 468 mil em viagens internacionais a Nova York, Paris e Courchevel, num contexto que os investigadores descrevem como “tratamento privilegiado” em troca de atuação parlamentar em favor do banco.
A suspeita mais simbólica é a chamada “emenda Master”, proposta que ampliaria de R$ 250 mil para R$ 1 milhão a cobertura do FGC, medida que, aprovada, reduziria o risco aparente das aplicações e permitiria ao banco captar ainda mais recursos de pequenos poupadores. A defesa de Nogueira nega irregularidades e afirma que ele colaborará com as investigações.
O presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), e deputados de diferentes legendas, como Claudio Cajado (PP-BA), Doutor Luizinho (PP-RJ), Filipe Barros (PL-PR), Guilherme Derrite (PP-SP) e Isnaldo Bulhões (MDB-AL), aparecem no mapeamento ligados à atuação em favor do Master, alguns também em voos e confraternizações. O caso também chegou à CPI do Crime Organizado, no Senado, onde o gestor de fundos Vladimir Timerman afirmou, em 18 de março, que Vorcaro seria “pau-mandado” de donos ocultos do banco, citando suspeitas que recaem sobre o empresário Nelson Tanure, suspeita até hoje em aberto.
O financiamento do filme Dark Horse e as doações via cunhado
O ponto mais explosivo da teia política, entretanto, liga o banqueiro ao senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), pré-candidato à Presidência. O congressista confirmou, em maio, ter pedido a Vorcaro que financiasse o filme “Dark Horse”, sobre a vida do ex-presidente Jair Bolsonaro, embora negue irregularidades e sustente que não ofereceu vantagens em troca. Reportagens apontam que Vorcaro teria repassado cerca de R$ 61 milhões à produção, valor que o infográfico do Estadão registra como R$ 69 milhões na categoria negócios, e áudios revelados pelo Intercept indicam que Flávio cobrava mais de R$ 130 milhões do banqueiro.
Em 1º de setembro, uma nova reportagem indicou que houve pelo menos mais um repasse, de US$ 1,6 milhão, após a data que o senador havia admitido como limite dos pagamentos, o que sugere que a relação financeira durou mais tempo do que o parlamentar declarou. A PF também passou a investigar o financiamento total de R$ 134 milhões do filme, incluindo a atuação de um publicitário, e Vorcaro já citou o caso “Dark Horse” nas propostas de delação que apresentou.
Na categoria de doações de campanha via cunhado, o levantamento relaciona o ex-presidente Jair Bolsonaro, com R$ 3 milhões, o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), com R$ 2 milhões, e o ex-deputado Lucas Gonzales (Novo), com R$ 10 mil, todos doados de forma indireta por meio de familiar do banqueiro. Num contraponto recorrente do debate público, o vínculo mais robusto com o campo governista apontado no infográfico é o do senador Jaques Wagner (PT-BA), citado na categoria propina com R$ 6 milhões, além de encontros com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva registrados no mapa de conexões.
O Executivo, o Banco Central e o caso BRB
O mapeamento indica ainda que Vorcaro contratou ex-ministros dos governos Lula e Bolsonaro para consultorias, entre eles Guido Mantega (PT), Henrique Meirelles (União Brasil), Fábio Faria (PP), Fábio Wajngarten (PL), Ronaldo Bento (Republicanos), Ricardo Lewandowski, ex-ministro da Justiça, e até Michel Temer (MDB), com cifras que variam de R$ 3,8 milhões a R$ 67,5 milhões nas relações registradas.
No Banco Central, aparecem o ex-presidente Roberto Campos Neto, em conexões de atuação pró-Master, e o atual presidente, Gabriel Galípolo, em encontros, enquanto dois ex-servidores da área de fiscalização, Belline Santana e Paulo Sérgio Neves de Souza, são apontados na categoria propina, com R$ 4 milhões e R$ 8 milhões, respectivamente, e o ex-governador do Distrito Federal Ibaneis Rocha (MDB) aparece em cinco das oito categorias, num movimento que, segundo a reportagem, buscava um banco estatal no DF para operar fraudes e sacramentar a venda do Master.
O braço mais concreto desse eixo está no BRB, pois o ex-presidente do banco Paulo Henrique Costa, citado com R$ 146 milhões na categoria propina, foi preso em abril na quarta fase da operação sob suspeita de favorecer o Master num aumento de capital que captou R$ 290 milhões de fundos ligados ao banco de Vorcaro. Auditoria produzida pelo próprio BRB indica que Costa teria direcionado os aportes, enquanto a defesa afirma que a operação foi examinada e aprovada pelo Banco Central.
O STF na mira e a crise de setembro
Judiciário se ‘lambuzou’
No Judiciário, o elemento que mais escalou a crise foi a divulgação, em 1º de setembro, do relatório de 218 páginas da PF com registros da relação entre Vorcaro e o ministro Alexandre de Moraes, que aparece no infográfico em negócios, com R$ 80 milhões, além de encontros, festas e voos. As mensagens, localizadas no celular do banqueiro, indicam que dois dias antes da prisão ele chegou a consultar Moraes sobre a possibilidade de fugir do país e que os dois teriam se encontrado na véspera da operação.
Reportagens da imprensa detalharam ainda diálogos em que Vorcaro pedia ajuda para reverter o quadro (“Não conseguimos reverter isso com Paulo ou Andrei?”, em referência ao procurador-geral da República, Paulo Gonet, e ao diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues), a cobrança intermediada pelo ex-ministro Fábio Faria (“O careca não pode atrasar”), cartões de crédito com limite de R$ 300 mil para filhos do ministro e um contrato milionário entre o banco e o escritório de advocacia de Viviane de Moraes, mulher do magistrado. Moraes afirma que as mensagens sobre o Master não eram dirigidas a ele e nega irregularidades, enquanto a PGR pediu a nulidade da investigação que o envolve e Mendonça sinalizou que avalia incluí-lo formalmente no inquérito, decisão que depende de autorização do plenário do STF, hoje dividido sobre o tema.
No mesmo período, ficou registrado que Vorcaro prestou depoimento no gabinete de Mendonça, sem a participação da PF, num episódio que ampliou as críticas à condução do caso. A teia alcança ainda o Tribunal de Contas da União, com o ministro Jhonatan de Jesus, e o Superior Tribunal de Justiça, com o ministro Benedito Gonçalves, ambos listados em conexões do levantamento.
Fundos de pensão e o dinheiro da aposentadoria
Entre as consequências mais dolorosas do esquema está a capilaridade do banco nos fundos de previdência, pois das 18 conexões da categoria, boa parte envolve institutos municipais e estaduais que aplicaram recursos de aposentados em papéis do Master. O caso de maior vulto é o do Rioprevidência, fundo dos servidores do Rio de Janeiro, que investiu cerca de R$ 960 milhões, aproximadamente 25% do patrimônio, e cujo ex-presidente Deivis Marcon Antunes foi preso em 3 de fevereiro; o infográfico registra R$ 970 milhões nessa relação. Na sequência, aparecem o Amapá Previdência, com R$ 400 milhões, a Maceió Previdência, com R$ 97 milhões, o instituto de Cajamar (SP), com R$ 87 milhões, e o de São Roque (SP), com R$ 93,15 milhões, num conjunto que soma cerca de R$ 1,9 bilhão apenas nos valores publicados e que já motivou ações do Ministério Público do Rio para apurar empréstimos e investimentos de R$ 100 milhões do Rioprevidência.
A delação que não decola
Enquanto a teia é escancarada, Vorcaro tenta negociar uma delação premiada com a PF e a PGR, mas até agora esbarrou na desconfiança dos investigadores, pois a primeira proposta foi formalmente rejeitada por ser considerada superficial e a segunda foi recusada pela PGR em 15 de junho, ainda que tenha sido a primeira a citar Ciro Nogueira e o filme “Dark Horse”. Em 28 de agosto, o banqueiro voltou a demonstrar disposição de colaborar, em depoimento por videoconferência feito da carceragem da Papudinha, em Brasília, na sua terceira tentativa de acordo. O ex-controlador do Master, contudo, resiste a entregar informações que vão além daquelas que os próprios celulares apreendidos já revelaram, o que mantém as negociações em compasso de espera.
As implicações do caso atravessam a política e a economia, pois a proximidade de Vorcaro com pré-candidatos, líderes partidários e ministros do STF contaminou o ambiente eleitoral de 2026, com o financiamento do “Dark Horse” transformado em cavalo de Troia da candidatura de Flávio Bolsonaro e a “emenda Master” erguida como símbolo da captura do Congresso pelo sistema financeiro.
No plano institucional, a divulgação das mensagens com Moraes colocou o Supremo sob pressão inédita, com o relator do caso e o próprio procurador-geral envolvidos em controvérsias, enquanto no plano social a liquidação do banco e o rombo nos fundos de pensão penalizam poupadores, aposentados e o FGC, que deverá desembolsar recursos para honrar garantias.
O desfecho da Vorcarosfera, por ora, depende de uma delação que ainda não convenceu, de uma Corte dividida sobre investigar um de seus próprios membros e de uma série de operações da PF que, a cada fase, revelam que o mapa de conexões do banqueiro pode ser ainda maior do que o infográfico registrou, pois a cada nome citado novos tentáculos da trama emergem em Brasília.
Val-André Mutran é repórter especial para o PortalVer-o-Fatoe está sediado em Brasília.














