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Vieira, expulso do Gram-Pará, xinga: “Pátria do anti-Cristo”

Oswaldo Coimbra por Oswaldo Coimbra
09/08/2026
in Cultura
Vieira, expulso do Gram-Pará, xinga: “Pátria do anti-Cristo”
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O padre Antônio Vieira é visto pelos pesquisadores como uma figura gigantesca da História de Portugal, e, da História do Brasil.

Sua influência, dentro do império colonial português, deu-lhe destaque, tanto na corte, por ter sido pessoa de confiança do rei dom João IV, como no Gram-Pará, por sua condição de membro poderoso da ordem dos jesuítas. 

Além disto, Vieira se situa como autor fundamental, no processo histórico da formação da Língua e da Literatura Portuguesa, em milhares de ensaios e artigos universitários, postados atualmente no Google Acadêmico.

Apesar desta importância inegável dele, em campos tão diferentes, pouquíssimas pessoas sabem o que aconteceu com ele, quando a Companhia de Jesus o retirou de Portugal, transferindo-o para a Amazônia. 

Numa medida que visou preservar a sua vida religiosa, quando ela pareceu ameaçada pela amplidão da atuação política dele. 

Foi quando, no Estado do Maranhão/Gram-Pará, Vieira colocou seu prestígio junto ao rei, no cerne da disputa que seus irmãos de ordem travavam com os colonos pelo controle da abundante e valiosa  mão-de-obra indígena da região.

Num engajamento que envolveu-o em episódios constrangedores e perigosos, difíceis até de serem imaginados por alguém que só conhece os aspectos brilhantes da carreira dele. 

Em nosso texto anterior, reconstituimos os primeiros destes episódios. 

Agora, a seguir, os novos episódios desta saga desconhecida de Vieira.  

Episódio: irritação dos colonos

Em 1654, fazia um ano que Vieira tinha chegado a São Luís, no Maranhão.

Estava na iminência de fazer uma viagem de mergência a Portugal, quando provocou uma reação furiosa dos colonos, numa missa rezada por ele, durante as festividades de Santo Antônio.  

Porque, em seu sermão, ele criticou asperamente os vícios dos moradores de Belém.  

O relacionamento de Vieira com os colonos já vinha sendo conflituoso. 

A expulsão do religioso do Gram-Pará chegara a ser exigida aos vereadores da Câmara. 

E a maior autoridade do Estado, o capitão-mor Ignácio do Rego Barreto havia preparado uma armadilha para ele. 

Convidara-o para acompanhá-lo numa expedição de captura aos índios.

O governador tinha uma única intenção.

A de, no interior do sertão amazônico, dizer a Vieira que, ali, não tinham valor as leis favoráveis aos jesuítas, baixadas pelo rei, na disputa pela mão-de-obra dos índios.

Quando ouviu isto, Vieira abandonou imediatamente a expedição. 

Já em Belém, ele veio a saber que o Regimento das Missões, que tinha sido preparado sob sua influência, havia sido alterado para atender os moradores de Belém, na reivindicação que faziam de terem autorização para manter índios em cativeiro.

A pregação de Vieira no sermão que irritou os colonos ficou conhecida como o Sermão de Santo Antônio aos Peixes.

Em reação a ele, a Câmara confiscou documentos preparados por Vieira nos quais ele pedia que o rei voltasse a favorecer os religiosos nocontrole das aldeias dos índios.

Alguns poucos moradores tinham concordado em assinar aqueles documentos. 

Por isto, foram considerados traidores. 

O tabelião que os havia reconhecido foi preso.

Naquele ambiente hostil, Vieira começou se deslocar até Portugal, para tentar recuperar as regalias que o rei dom João IV, seu amigo, tinha anteriormente concedido à ordem dele.

Episódio: a viagem

A viagem, mais demorada do que costumava ser,  Victor Rui Ramalho Bettencourt Dores, ensaísta das Ilhas dos Açores, em Portugal, reconstituiu.

O padre embarcou num navio carregado de açucar, com dois companheiros. 

Após dois meses, a embarcação foi atingida por violento tempestade que arrancou sua vela, e, a fez adernar, quando já se aproximava das Ilhas dos Açores. 

Naquela iminência de serem vítimas de naufrágio, Vieira fez tripulantes e passageiros, prometerem à Nossa Senhora que, se salvos, rezariam um terço, todos os dias.

Por 15 minutos, o navio continuou adernado. Depois voltou à sua posição normal. 

Mas ficou à deriva. 

Outra embarcação, avistada por eles, não prestou socorro. 

À noite, contudo, retornou. 

Pertencia a um pirata neerlandês que recolheu  passageiros e tripulantes do navio de Vieira, com o objetivo de roubar todos os pertences deles.

Depois, os abandonou em Graciosa, uma ilha dos Açores. 

Vieira e companheiros conseguiram passar para a Ilha Terceira.

De onde outra embarcação, por fim, os levou a Lisboa, em novembro de 1654.

Episódio: Junta de Teólogos e Jesuítas

Na metrópole, Vieira foi informado que o rei, seu protetor, estava em Salvaterra. 

E que se encontrava gravemente enfermo. 

Dom João IV também soube da chegada de Vieira a Portugal.

E, mandou-o chamar. 

Vieira se dirigiu a Salvaterra, encontrando a rainha Luísa Maria Francisca em profunda dor, devido ao estado do rei.

A proximidade do padre com o rei fez dom João IV melhorar. 

Vieira aproveitou seu mérito nisto para defender, pessoalmente, na corte, os interesses dos jesuítas do Gram-Pará. 

Durante uma cerimônia na Capela Real, ele disse: 

“Tudo padeceram os semeadores evangélicos da missão do Maranhão, de doze anos a esta parte. 

Houve missionário afogados, porque uns se afogaram na boca do grande rio das Amazonas.

Houve missionários comidos, porque a outros comeram os bárbaro na ilha dos Aruans.

Houve missionários mirrados, porque tais tornaram os da jornada do Tocantins.

Mirrados de fome e de doença.

Onde tal houve quem, andando vinte e dois dias perdidos nas brenhas, matou somente a sede com o orvalho que lambia das folhas”.

O soberano português, então,  convocou uma Junta de Teólogos e Jesuítas, presidida pelo arcebispo de Braga, para orientá-lo na preparação de nova legislação sobre os índios, na Amazônia.

Vieira foi integrado à junta, como representante da Companhia de Jesus no Gram-Pará. 

Uma nova lei sobre o Resgate dos Índios foi publicada, em 9 de abril de 1655, para atender aos pedidos do padre. 

Sendo, em seguida, entregue ao recém-nomeado governador do Maranhão/Gram-Pará, André Vidal de Negreiros,  como um regimento que ele devia seguir.

Neste regimento, dom João IV ordenou: 

“Ao mesmo serviço de Deus e meu convém, como tenho resoluto, que os índios de todas as aldeias, assim das capitanias que me pertencem, das de donatários, sejam administrados por párocos regulares, razões que a isso obrigam.

E que esta seja da Companhia de Jesus, pela muita experiências que se tem de seu zelo, muita aplicação e indústria para a convenção das almas e pelo muito que estão aceitos aos índios deste Estado”.

Entretanto, dom João IV, impôs algumas restrições aos negócios dos religiosos, com a mão-de-obra indígena, as quais seriam ignoradas por eles: 

“A religião que houver de ter as missões não poderá lavrar com índios canaviais, tabacos, nem engenho de nenhuma madeira, em tempo algum, de que estareis advertido”. 

Episódio: 40.000 nheengaíbas

Os colonos do Gram-Pará reagiram com consternação, à nova legislação.

As outras ordens religiosas, com ciúmes. 

Para tentar contrabalançar os favores concedidos à Companhia de Jesus, o rei garantiu aos moradores de Belém os mesmos privilégios gozados pelos cidadãos da cidade do Porto. 

Quando dom João IV morreu, em 1656, Vieira ainda permanecia na luta em defesa dos interesses dos jesuítas do Gram-Pará. 

Na oração fúnebre dedicada ao rei, ele escreveu: 

“Devo à memória do Senhor Rei dom João IV maiores obrigações que as de rei, porque lhe devia muitas vezes nos olhos de Sua Majestade todas a piedade de pai”.

O herdeiro do trono, dom Afonso VI, filho do rei morto, não tinha ainda idade para assumi-lo. 

E, sua mãe, dona Luiza Francisco de Gusmão, tempo antes, havia perdido um outro filho.

Mas foi ela quem assumiu o trono. 

Vieira sentiu-se fortalecido porque tinha grande ascendência sobre a soberana. 

E, de um modo desconcertante, resolveu vingar-se, tardiamente, do fato de dom João IV ter alterado a lei que beneficiara, no passado, a Companhia de Jesus, em 1654, obrigando-o a se submeter àquele penoso e acidentado retorno a Portugal, de navio.  

Para atingir a rainha, ele escreveu ao jovem dom Afonso dizendo, com ingratidão e crueldade, que seu irmão e seu pai tinham morrido porcastigo de Deus devido à alteração naquela lei. 

O ritmo rocambolesco da vida do padre se mantinha alto.  

Como quando ele escreveu uma carta para os índios nheengaibas, da Ilha Grande de Joannes, no Marajó.

Identificando-se como quem conseguira obter novas leis extinguindo os cativeiros injustos.

Ele acrescentou que esperava convite dos nheengaibas para visita à tribo deles. 

Passaram-se várias semanas, sem quem os índios dessem algum sinal,em resposta a Vieira. 

No Dia das Cinzas, de 1659, contudo, para surpresa dos jesuítas, sete chefes nheengaibas, seguidos de muitos índios, entraram no colégio da ordem deles, em Belém. 

Foi, então, marcado o dia da visita de Vieira a tribo. 

Com aqueles contatos com Vieira, quase 40.000 nheengaibas passaram a ficar sob o controle dos jesuítas. 

Sem que eles concedessem permissão aos colonos para também se utilizarem da mão-de-obra deles.

Novas queixas dos moradores de Belém contra a Companhia de Jesus foram feitas à coroa portuguesa. 

Como os moradores não obtiveram resposta satisfatória, resolveram adotar outro procedimento. 

Uniram-se aos colonos de São Luiz.

E, juntos, encaminharam seus protestos para quem governava naquele momento o Gram-Pará/Maranhão, Pedro de Melo.

O governador, no entanto, era um político corrupto, que contava com a conivência interesseira da Companhia de Jesus. 

Assim, a iniciativa dos colonos resultou inútil. 

Episódio: “Fora urubus!”

Os colonos decidiram agir por conta própria, sem conter mais seus ressentimentos.

Se fosse necessário, agiriam com violência. 

Começaram intimando Vieira, através da Câmara, a comparecer diante dos vereadores.

O religioso tinha acabado de chegar das aldeias jesuítas do Alto Amazonas. 

Queriam que Vieira provasse estar oficialmente autorizado a realizar tarefas de natureza não-espirituais, relacionadas com a administração da mão-de-obra indígena, como as que ele tinha executado naquelas aldeias.  

Na intimação, os moradores disseram: 

“Vossa Paternidade, lembre-se da promessa que os missionários fizeram à Sua Majestade de que não havia de tirar lucro dos índios forros, nem com eles fabricar fazendas, nem canaviais”. 

Com sangue frio e desdenhosa indiferença, Vieira limitou-se a afirmar que nada tinha a dizer.

Os moradores voltaram a pressionar o governador, com nova representação contra os religiosos. 

A situação adquiriu maior gravidade quando moradores de São Luiz, mais agressivos que os de Belém, prenderam os jesuítas daquela cidade.

Diante da ação decidida dos maranhenses, o governador deu mostra de que iria abandonar à própria sorte seus aliados da Companhia de Jesus. 

Ao perceber isto, Vieira, que tinha iniciado uma viagem a São Luís, voltou para Belém onde pretendia se defender diante dos moradores da cidade. 

As hostilidades contra ele se tornaram-se incontroláveis, em Belém.

Porque tinham vindo a público cartas que ele endereçara a um amigo seu, o bispo do Japão, com a expectativa de que o prelado repassasse as informações contidas nelas à rainha de Portugal. 

Ocorreu que o navio no qual o bispo do Japão viajava para Portugal foi aprisionado por um pirata, como tinha acontecido com Vieira. 

E as cartas dele foram parar nas mãos de um religioso do Convento do Carmo que alimentava rancor contra os privilégios dos jesuítas. 

Nas cartas, Vieira denunciava pessoas que o tinham como amigo, em Belém. 

Surgiu o melhor  momento para os religiosos de outras ordens acertaremsuas contas com os jesuítas, exarcebando ainda mais os ânimos dos moradores contra a Companhia de Jesus. 

Aquele religioso carmelita aproveitou aquele momento e tornou públicas as cartas de Vieira que detinha em seu poder.

No dia 17 de julho de 1661, se concretizou a ameaça que pairava sobre a Companhia de Jesus, em Belém. 

Os colonos assaltaram o colégio dele e, como já tinham feito os moradores de São Luiz,  aprisionaram os jesuítas. 

Todos foram levados para uma prisão de religiosos existente no bairro da Cidade.

Menos Vieira, que foi trancado na humilde capela de São João. 

No caminho da prisão dele, alguns moradores o conduziram, outros gritavam: 

“Fora os urubus!”. 

Lá, o padre ficou ficou o padre confinado, sem poder sair, nem para aliviar suas necessidades fisiológicas.

Alimentava-se somente, de alguns ovos cozidos que uma índia, Mariana Pinto, conseguia passar para ele, quando burlava a vigilância dos seus guardiões. 

Já estava decidida pelos moradores a expulsão da ordem do Gram-Pará. 

Vieira foi retirado da precária capela.

E ao ser conduzido para o navio que o levaria até São Luís foi tratado com descortesia. 

Chegou até ser empurrado. 

Chegou a São Luiz, apenas para iniciar seu retorno definitivo a Portugal. 

Nunca mais pisaria nos chãos de Belém. 

O ódio dele contra os moradores da colônia veio à tona, no ano seguinte, durante seu Sermão da Epifania, pregado para a nobreza reunida, na Capela Real. 

Foi quando ele chamou Belém de “um rincão ou arrabalde da América”. 

E disse:

“Ali, há quatro choupanas que, com o nome de cidade, puderam ser a pátria do Anti-Cristo”. 

Jamais retornou à Amazônia.

(Ilustração: Jesuíta entre índios, na tela de Benedito Calixto)

original.

Vieira, Expelled from Gram-Pará, Curses 

It as the “Homeland of the Antichrist”

Father Antônio Vieira is regarded by researchers as a towering figure in the history of Portugal and in the history of Brazil.
His influence within the Portuguese colonial empire earned him prominence both at court, as a trusted confidant of King João IV, and in Gram-Pará, as a powerful member of the Jesuit order.
In addition, Vieira occupies a fundamental position in the historical development of the Portuguese language and literature, as evidenced by thousands of essays and academic articles currently posted on Google Scholar.
Despite his undeniable importance in such different fields, very few people know what happened to him when the Society of Jesus removed him from Portugal and transferred him to the Amazon.
It was a measure intended to preserve his religious life, when it appeared to be threatened by the breadth of his political activities.
It was then, in the State of Maranhão/Gram-Pará, that Vieira placed his prestige with the king at the heart of the dispute between his fellow Jesuits and the colonists over control of the region’s abundant and valuable indigenous labor force.
His involvement drew him into embarrassing and dangerous episodes, difficult even to imagine for someone who knows only the brilliant aspects of his career.
In our previous text, we reconstructed the first of these episodes.
Now, here are the new episodes in this little-known saga of Vieira.
Episode: The Colonists’ Irritation
In 1654, Vieira had been in São Luís, Maranhão, for a year.
He was on the verge of making an emergency journey to Portugal when he provoked a furious reaction from the colonists during a Mass he celebrated as part of the festivities of Saint Anthony.
In his sermon, he harshly criticized the vices of the inhabitants of Belém.
Vieira’s relationship with the colonists had already been conflict-ridden.
His expulsion from Gram-Pará had even been demanded of the members of the municipal council.
And the highest authority in the State, Captain-Major Ignácio do Rego Barreto, had prepared a trap for him.
He invited Vieira to accompany him on an expedition to capture Indians.
The governor had a single intention.
Deep in the Amazonian hinterland, he intended to tell Vieira that the laws favorable to the Jesuits, issued by the king in the dispute over the indigenous labor force, had no validity there.
When he heard this, Vieira immediately abandoned the expedition.
Once back in Belém, he learned that the Regimento das Missões, which had been prepared under his influence, had been altered to accommodate the inhabitants of Belém in their demand for authorization to keep Indians in captivity.
Vieira’s preaching in the sermon that angered the colonists became known as the Sermon of Saint Anthony to the Fish.
In response to it, the municipal council confiscated documents prepared by Vieira in which he asked the king to once again favor the religious orders in their control of the indigenous villages.
A few residents had agreed to sign those documents.
For this reason, they were regarded as traitors.
The notary who had authenticated the documents was arrested.
In that hostile environment, Vieira began making his way to Portugal in an attempt to recover the privileges that King João IV, his friend, had previously granted to his order.

Episode: The Journey
The journey, which took longer than usual, was reconstructed by Victor Rui Ramalho Bettencourt Dores, an essayist from the Azores Islands, Portugal.
The priest boarded a ship loaded with sugar, accompanied by two companions.
After two months, the vessel was struck by a violent storm that tore away its sail and caused it to list when it was already approaching the Azores Islands.
With shipwreck imminent, Vieira had the crew and passengers promise Our Lady that, if they were saved, they would pray the Rosary every day.
For 15 minutes, the ship remained listing. Then it returned to its normal position.
But it was left adrift.
Another vessel, which they spotted, did not come to their aid.
That night, however, it returned.
It belonged to a Dutch pirate who took aboard Vieira’s passengers and crew with the intention of stealing all their belongings.
He then abandoned them on Graciosa, one of the Azores Islands.
Vieira and his companions managed to reach Terceira Island.
From there, another vessel finally took them to Lisbon in November 1654.
Episode: The Council of Theologians and Jesuits
In the metropolis, Vieira was informed that the king, his protector, was in Salvaterra.
He was also told that the king was seriously ill.
King João IV also learned that Vieira had arrived in Portugal.
And he sent for him.
Vieira went to Salvaterra, where he found Queen Luísa Maria Francisca in profound distress because of the king’s condition.
The priest’s proximity to the king helped João IV recover.
Vieira took advantage of the credit he gained from this to personally defend the interests of the Jesuits of Gram-Pará at court.
During a ceremony in the Royal Chapel, he said:
“Everything has been suffered by the evangelical sowers of the Maranhão mission over the past twelve years.
There have been missionaries drowned, because some drowned at the mouth of the great River Amazonas.
There have been missionaries eaten, because others were eaten by the barbarians on the island of the Aruans.
There have been missionaries wasted away, because such was the condition of those who undertook the journey to the Tocantins.
Wasted away by hunger and disease.
For there was one who, after wandering lost in the wilderness for twenty-two days, quenched his thirst only with the dew he licked from the leaves.”
The Portuguese sovereign then convened a Council of Theologians and Jesuits, presided over by the Archbishop of Braga, to advise him in preparing new legislation concerning the Indians in the Amazon.
Vieira was appointed to the council as the representative of the Society of Jesus in Gram-Pará.
A new law concerning the Ransom of Indians was published on April 9, 1655, in response to the priest’s requests.
It was subsequently delivered to the newly appointed governor of Maranhão/Gram-Pará, André Vidal de Negreiros, as a set of regulations that he was required to follow.
In these regulations, João IV ordered:
“It is conducive to the service of God and to my own, as I have resolved, that the Indians of all the villages, both those in the captaincies belonging to me and those belonging to donatários, should be administered by regular clergy, for reasons that compel this arrangement.
And that this clergy should be from the Society of Jesus, because of the extensive experience of their zeal, dedication and resourcefulness in the conversion of souls, and because they are so highly regarded by the Indians of this State.”
However, João IV imposed certain restrictions on the religious orders’ dealings involving indigenous labor, restrictions that they would later ignore:
“The religious order entrusted with the missions shall not, at any time, cultivate sugarcane or tobacco with Indians, nor operate any mill using wood, and you are hereby so informed.”

Episode: 40,000 Nheengaibas
The colonists of Gram-Pará reacted with dismay to the new legislation.
The other religious orders reacted with jealousy.
In an attempt to counterbalance the favors granted to the Society of Jesus, the king granted the inhabitants of Belém the same privileges enjoyed by the citizens of the city of Porto.
When King João IV died in 1656, Vieira was still engaged in the struggle to defend the interests of the Jesuits of Gram-Pará.
In the funeral oration dedicated to the king, he wrote:
“I owe the memory of King João IV greater obligations than those owed to a king, because I often owed His Majesty, in his eyes, all the compassion of a father.”
The heir to the throne, Afonso VI, the deceased king’s son, was not yet old enough to assume it.
And his mother, Luiza Francisco de Gusmão, had lost another son some time earlier.
But it was she who assumed the throne.
Vieira felt strengthened because he wielded considerable influence over the queen.
And, in a disconcerting turn, he decided to take belated revenge for the fact that João IV had altered, in 1654, the law that had previously benefited the Society of Jesus, forcing him to undertake that arduous and eventful return to Portugal by ship.
To strike at the queen, he wrote to the young Afonso, saying, with ingratitude and cruelty, that his brother and his father had died as God’s punishment for the alteration of that law.
The astonishing pace of the priest’s life continued unabated.
One example was when he wrote a letter to the Nheengaiba Indians of Ilha Grande de Joannes, in Marajó.
In it, he presented himself as the man who had succeeded in obtaining new laws abolishing unjust enslavement.
He added that he hoped the Nheengaibas would invite him to visit their tribe.
Several weeks passed without the Indians giving Vieira any sign in response.
On Ash Wednesday in 1659, however, to the surprise of the Jesuits, seven Nheengaiba chiefs, followed by many Indians, entered the order’s college in Belém.
The date for Vieira’s visit to their tribe was then set.
Through those contacts with Vieira, nearly 40,000 Nheengaibas came under the control of the Jesuits.
The Jesuits did not allow the colonists to make use of their labor as well.
New complaints by the inhabitants of Belém against the Society of Jesus were submitted to the Portuguese Crown.
When the inhabitants failed to receive a satisfactory response, they decided to take another course of action.
They joined forces with the colonists of São Luís.
Together, they submitted their protests to Pedro de Melo, who was governing Gram-Pará/Maranhão at the time.
The governor, however, was a corrupt politician who enjoyed the self-interested complicity of the Society of Jesus.
Thus, the colonists’ initiative came to nothing.

Episode: “Out with the Vultures!”
The colonists decided to take matters into their own hands, no longer restraining their resentment.
If necessary, they would resort to violence.
They began by summoning Vieira, through the municipal council, to appear before the councilors.
The priest had just returned from the Jesuit villages of the Upper Amazon.
They wanted Vieira to prove that he was officially authorized to perform non-spiritual tasks related to the administration of indigenous labor, such as those he had carried out in those villages.
In the summons, the inhabitants said:
“Your Reverence, remember the promise the missionaries made to His Majesty that they would not profit from free Indians, nor use them to establish farms or sugarcane plantations.”
With coolness and disdainful indifference, Vieira merely stated that he had nothing to say.
The inhabitants once again pressured the governor, submitting a new petition against the religious orders.
The situation became more serious when inhabitants of São Luís, more aggressive than those of Belém, arrested the Jesuits of that city.
Faced with the determined action of the people of Maranhão, the governor gave signs that he was going to abandon his allies in the Society of Jesus to their fate.
Upon realizing this, Vieira, who had begun a journey to São Luís, returned to Belém, where he intended to defend himself before the inhabitants of the city.
The hostility toward him in Belém became uncontrollable.
This was because letters he had addressed to a friend, the Bishop of Japan, had become public, with the expectation that the prelate would pass the information contained in them on to the Queen of Portugal.
It happened that the ship on which the Bishop of Japan was traveling to Portugal was captured by a pirate, just as had happened to Vieira.
And his letters fell into the hands of a religious member of the Carmelite Convent who harbored resentment against the privileges enjoyed by the Jesuits.
In the letters, Vieira denounced people in Belém who considered themselves his friends.
The religious orders, therefore, found the perfect opportunity to settle their scores with the Jesuits, further inflaming the inhabitants’ hostility toward the Society of Jesus.
The Carmelite religious took advantage of the moment and made public the letters by Vieira that he had in his possession.
On July 17, 1661, the threat hanging over the Society of Jesus in Belém became a reality.
The colonists stormed the Jesuit college and, as the inhabitants of São Luís had already done, imprisoned the Jesuits.
They were all taken to a religious prison located in the Cidade neighborhood.
Except for Vieira, who was locked up in the humble Chapel of Saint John.
On the way to his place of imprisonment, some inhabitants escorted him while others shouted:
“Out with the vultures!”
There, the priest remained confined, unable to leave even to relieve himself.
He survived solely on a few boiled eggs that an Indigenous woman, Mariana Pinto, managed to pass to him whenever she evaded the vigilance of his guards.
The inhabitants had already decided to expel the order from Gram-Pará.
Vieira was removed from the precarious chapel.
And when he was taken to the ship that would carry him to São Luís, he was treated discourteously.
He was even shoved.
He arrived in São Luís only to begin his definitive return to Portugal.
He would never again set foot in Belém.
His hatred of the colonists came to light the following year, during his Sermon of the Epiphany, preached to the assembled nobility in the Royal Chapel.
That was when he called Belém “a remote corner or outlying district of America.”
And he said:
“There are four huts there which, under the name of a city, could have been the homeland of the Antichrist.”
He never returned to the Amazon.
(Illustration: Jesuit among Indians, in a painting by Benedito Calixto

Tags: colunaculturaDestaqueGram-ParáHistória
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Oswaldo Coimbra

Oswaldo Coimbra

Oswaldo Coimbra é escritor, jornalista e pesquisador.

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