A COP30, sob a presidência brasileira, prometia ser um marco para a agenda climática global, com foco na preservação da Amazônia. No entanto, desde o início, o evento tem sido marcado por protestos indígenas que expõem as contradições do governo Lula: um discurso retórico de defesa da floresta e dos povos originários, contrastando com práticas que priorizam megaprojetos de infraestrutura, vistos como devastadores.
Nesta manhã de sexta-feira, 14, os Munduruku, acuaram a conferência ao bloquear acessos por horas, forçando delegações a contornos improvisados. Esses atos não só revelam a revolta indígena contra políticas “verdes” de fachada, mas também colocam o Planalto em xeque, gerando atrasos, reforço de segurança e promessas de diálogo que, até o momento, soam insuficientes.
Cerca de 90 indígenas Munduruku, organizados pelo Movimento Ipereg Ayu, ocuparam a entrada principal da Zona Azul (área restrita de negociações da COP30), no Hangar Convention Center, bloqueando o acesso das 5h30 às 9h30 aproximadamente. Com faixas, arcos e flechas simbólicos, e gritos de “ninguém entra, ninguém sai”, eles impediram a chegada de delegações internacionais, jornalistas e negociadores, forçando o uso de uma entrada lateral precária.
Isso gerou filas quilométricas e confusão logística, afetando diretamente o quinto dia da conferência, que contava com 56 mil inscritos. O protesto foi o segundo em 48 horas. Na terça-feira (11), um grupo misto (indígenas e ativistas do Coletivo Juntos, ligado ao PSOL) tentou invadir a Zona Azul, resultando em ferimentos em seguranças e danos a portas.
Os Munduruku, que habitam a bacia do rio Tapajós (PA), visavam uma audiência direta com o presidente Lula. Suas demandas centrais: revogação do Decreto 12.600/2025, que institui o Plano Nacional de Hidrovias e prioriza os rios Tapajós, Madeira e Tocantins para navegação de cargas; suspensão do projeto Ferrogrão (ferrovia que cortaria a floresta para escoar soja); aceleração da demarcação de terras indígenas; e fim de projetos de créditos de carbono, chamados por eles de “venda da floresta”.
Esses projetos, argumentam, abrem precedentes para dragagens, destruição de pedrais sagrados e expansão de portos privados, sem consulta prévia às comunidades, violando a Convenção 169 da OIT.
Fontes como a Reuters e o G1 confirmam o impacto da manifestação: delegados de países como EUA e União Europeia foram obrigados a desviar, e o secretário-geral da ONU para o Clima, Simon Stiell, havia cobrado melhorias na segurança e infraestrutura apenas um dia antes. No X, posts de usuários destacam o simbolismo: “Indígenas bloqueiam COP30 e exigem presença de Lula”, com vídeos mostrando a ocupação e críticas ao uso da imagem indígena para “maquiar” a sustentabilidade do evento.
Governo Lula contra a parede, o neocolonialismo
Aqui reside o cerne crítico: o governo Lula, que se apresentou na COP30 como guardião da Amazônia – com promessas de zero desmatamento até 2030 e US$ 20 bilhões em financiamento climático –, enfrenta acusações de hipocrisia. Enquanto Lula discursa sobre “justiça climática” e parcerias indígenas, políticas concretas avançam em projetos que os povos originários veem como neocolonialismo disfarçado de desenvolvimento.
O Plano de Hidrovias, por exemplo, é criticado por ONGs e indígenas como uma “porta aberta” para a mercantilização da floresta, acelerando a exportação de commodities agrícolas em detrimento de ecossistemas frágeis. A Ferrogrão, judicializada mas não cancelada, ameaça territórios demarcados e não demarcados, incluindo os Munduruku.
O cacique Raoni Metuktire, ícone kayapó, foi veemente na COP30: “Esses projetos destroem rios e terras e estão continuando […] haverá muitas consequências”. Críticos, como o Ministério Público Federal e ONGs como Greenpeace, apontam contradições semelhantes na exploração de petróleo na Foz do Amazonas, onde leilões prosseguem apesar de alertas ambientais.
Essa discrepância revolta os indígenas: o que era visto como esperança no retorno de Lula (após o bolsonarismo) virou frustração. Como bem resume a Agência Brasil, os protestos “reforçam acusações de ameaças ambientais em territórios tradicionais”, expondo um governo que prioriza “qualidade técnica” em licenças ambientais, mas ignora consultas livres, prévias e informadas. É uma “parede” dupla: interna (revolta indígena) e externa (críticas internacionais, como de Stiell, que questiona a infraestrutura brasileira).
Consequências: tensões latentes
Os protestos tiveram impactos imediatos e de médio prazo, ampliando o escrutínio sobre a COP30 e o Brasil como anfitrião:
Atrasos logísticos e operacionais: Algumas coordenações foram adiadas ou incompletas, com “grupos ausentes”, conforme apurado pelo Estadão. O bloqueio desta sexta-feira afetou o fluxo de 10 mil participantes diários, e o incidente de terça-feira feriu quatro pessoas, danificando estruturas.
Reforço de segurança: Ao menos 20 viaturas da PM, bombeiros e Força Nacional foram mobilizadas, elevando custos e tensão. A ONU pressionou por “melhorias no esquema de segurança”, e o Ministério da Casa Civil prometeu “providências”, mas sem detalhes concretos.
Diálogos insuficientes: Após o bloqueio, o presidente da COP30, André Corrêa do Lago, e ministras Marina Silva (Meio Ambiente) e Sônia Guajajara (Povos Indígenas) reuniram-se com as lideranças. Promessas incluem nova fiscalização do Ibama no território Munduruku, encaminhamento de denúncias aos Ministérios de Minas e Energia/Transportes, e avanço em demarcações até o fim de 2025.
Corrêa do Lago chamou as demandas de “legítimas” e prometeu “levar adiante as preocupações”. No entanto, a líder Alessandra Munduruku saiu insatisfeita: “A gente quer falar com o presidente Lula”. Guajajara diferenciou o protesto “pacífico” do “destrutivo” de terça, mas isso soou como tentativa de dividir o movimento.
Efeitos políticos e midiáticos: Os atos ganharam visibilidade global (Reuters, UN News), pressionando Lula a equilibrar agenda climática com bases eleitorais indígenas. No X, viralizaram vídeos com milhares de views, misturando apoio (de esquerda) e ironia (de direita, como “Índios eleitores do Lula barrando a COP30”). A longo prazo, há risco de mais bloqueios – Raoni alertou para “consequências” –, e ONGs preveem judicialização acelerada de projetos como a Ferrogrão.
Em síntese, esses protestos são um grito de alerta contra a “dupla face” do lulismo amazônico. Enquanto a COP30 avança em metas abstratas, os indígenas cobram ações concretas, expondo que a verdadeira “crise climática” começa na falta de respeito aos guardiões da floresta.
Sem revogações e consultas reais, o governo arrisca não só a credibilidade na conferência, mas a coesão social na Amazônia.
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