O polêmico prefeito de Parauapebas, Aurélio Goiano (Avante) fez duras críticas à mineradora Vale durante um painel sobre cidades sustentáveis na COP30, em Belém, na última quarta-feira (12). Em discurso inflamado, ele acusou a mineradora de “sonegar impostos, acumular dívidas bilionárias com o município e negligenciar as populações locais”.
“A Vale é uma mentira. Só visa o lucro, não as pessoas”, afirmou o prefeito, ao defender que Parauapebas “sofre as consequências ambientais e sociais” da atividade mineradora sem retorno proporcional em investimentos públicos. Aurélio afirmou ainda que tenta há nove meses uma reunião com representantes da empresa.
“Estou esperando uma conversa com a Vale há nove meses. E eu não ia perder essa oportunidade de dizer isso ao mundo”, declarrou.
Durante o discurso, ele afirmou que nos últimos anos, “R$ 19,4 bilhões foram jogados fora do município” e que a Vale teria uma dívida superior a R$ 10 bilhões com Parauapebas. O prefeito também disse que o município perde cerca de R$ 40 milhões por mês em receitas e que a mineradora seria “a maior sonegadora de impostos do planeta”.
“Meu município tem apenas 12% de saneamento básico. Em nove meses, consegui colocar água em 14 bairros. Mas aqui na COP30, a Vale aparece linda, dizendo que cuida dos povos indígenas. É mentira”, declarou o prefeito. “A Vale só visa o lucro. Não está preocupada com o que está acontecendo”, afirmou.
Contexto: economia da mineração e desigualdade
Parauapebas é o maior produtor de minério de ferro do país, abrigando parte do Complexo de Carajás, principal operação da Vale. Com mais de 200 mil habitantes, o município figura entre os de maior PIB do Pará, impulsionado pela Compensação Financeira pela Exploração Mineral (CFEM). Apesar da riqueza, a cidade enfrenta índices sociais baixos.
Segundo o IBGE (2023), apenas 12% dos domicílios têm acesso à rede de esgoto e cerca de um terço da população vive em áreas sem infraestrutura básica.
A tensão entre a prefeitura e a Vale é antiga. Administrações anteriores já moveram ações judiciais cobrando diferenças de repasses da CFEM e discutindo sonegação de tributos municipais.
Em 2023, a empresa firmou acordos de compensação socioambiental em diversas regiões do Pará, mas Parauapebas, segundo Goiano, “não teria sido contemplada”.
Repercussão e “doido para lutar”
As declarações do prefeito repercutiram nas redes sociais e entre representantes políticos do Pará. Aliados elogiaram a postura “corajosa”, enquanto críticos apontaram “exagero” e “falta de base técnica” nas acusações. Goiano encerrou sua fala em tom desafiador:
“Se a Vale quiser contar comigo para o bem-estar das pessoas, estou pronto. Mas se não quiser, o ‘doido’, como me chamam, está pronto para lutar pelo meu povo até os últimos segundos da minha vida.”
Com a palavra, a Vale
Em nota, a Vale negou as acusações do prefeito, afirmou cumprir rigorosamente suas obrigações fiscais e apresentou informações que atestam o pagamento de tributos e investimentos locais.
“A Vale paga regularmente os tributos relacionados às suas operações, de acordo com a legislação vigente. Todos os processos tributários e de recolhimento de CFEM são conduzidos de forma transparente e discutidos nas esferas legais e administrativas cabíveis”, diz a nota.
A mineradora sustenta que de 2020 até agosto de 2025 recolheu cerca de R$ 6 bilhões em ISS e CFEM apenas em Parauapebas — valor que, segundo a empresa, reforça seu compromisso com o desenvolvimento regional.
Além disso, ela destacou que mantém mais de 30 mil postos de trabalho diretos e indiretos no município e que somente no primeiro semestre de 2025 movimentou R$ 4,5 bilhões em compras locais de fornecedores sediados na cidade.
A empresa também listou iniciativas sociais e culturais que, segundo ela, mostram o vínculo com a comunidade local — entre elas o Centro Mulheres de Barro e os festivais Bufalo’s Gourmet, Toca Carajás e Orquestra Vai à Praça.
“Nos últimos cinco anos, a Vale afirma ter investido R$ 72 milhões em projetos sociais, além de repasses via leis de incentivo, como R$ 4,4 milhões ao Conselho do Idoso (2021) e R$ 4,4 milhões ao Fundo da Infância (2021–2024)”, resumiu.
Sobre a declaração do prefeito, quanto à ausência de diálogo com a mineradora após nove meses de tentativas, a Vale diz que “mantém abertos os canais institucionais de comunicação”. E informa que, em setembro passado, assinou, “durante evento público, um termo de compromisso com a prefeitura no valor de R$ 100 milhões para investimentos em áreas como saúde, infraestrutura e diversificação econômica”.
Acusação de agressão
A polêmica foi abafada na sexta-feira (14), após Aurélio Goiano ser acusado de agredir fisicamente o jornalista Wesley Costa, da Rádio Liberal FM, com um tapa no rosto na Blue Zone, conforme noticiou o Portal Ver-o-Fato. Neste sábado (15), o prefeito perdeu a credencial para seguir participando dos eventos da COP30.
Nas redes sociais, o prefeito se manifestou em tom de deboche, dizendo que “tudo inventam para nos queimar”. Wesley Costa fez exame de corpo de delito, que deverá ficar pronto em até 15 dias para ajudar nas investigações.
A Polícia Civil disse que o caso é de responsabilidade da ONU. Já o Sindicato dos Jornalistas disse, em nota, que “repudia a agressão ocorrida dentro de um evento internacional da ONU” e “prestará todo o apoio ao jornalista”. O Sinjor também disse que vai cobrar apuração rigorosa dos órgãos de segurança.
A equipe de reportagem do Portal Ver-o-Fato tentou contato com Aurélio Goiano para saber se o prefeito deseja uma tréplica após a nota da Vale, mas não obtivemos sucesso. O espaço segue aberto para manifestações.















