Embate público entre a senadora e o líder religioso expõe nomes de entidades e indivíduos sob escrutínio da CPMI
Brasília – Um intenso embate público entre a senadora Damares Alves (Republicanos-DF) e o pastor Silas Malafaia, líder da Assembleia de Deus Vitória em Cristo, marcou a discussão sobre as investigações de fraudes em benefícios do INSS. A controvérsia culminou nesta sexta-feria (16), na divulgação, por parte da senadora, de uma lista de igrejas e líderes religiosos que são alvo de requerimentos no âmbito da Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) do INSS.
A ação de Damares ocorreu após ser veementemente cobrada por Malafaia, que a questionou sobre a falta de nomes ao denunciar o envolvimento de religiosos em tais esquemas.
A polêmica teve início com declarações de Damares Alves, que afirmou haver ligações entre grandes igrejas e líderes religiosos e o esquema de fraudes contra aposentados. Na ocasião, a senadora mencionou ter sido orientada a não divulgar os nomes dos envolvidos, alegando que “os fiéis ficariam muito tristes”.
A partir daí, uma intensa cobrança veio em resposta. O pastor Silas Malafaia publicou um vídeo na rede social X (confira a postagem abaixo) classificando a fala de Damares como uma “acusação gravíssima”. Ele exigiu a apresentação de provas e a divulgação dos nomes, afirmando que, caso contrário, a senadora seria apenas uma “leviana linguaruda”.
Malafaia argumentou que a omissão prejudica a própria liderança evangélica, e em tom exaltado, declarou: “Ou a senhora dá os nomes dos grandes líderes evangélicos e das grandes igrejas envolvidas na roubalheira dos aposentados do INSS, ou é uma leviana linguaruda. Diga também quem pediu para a senhora calar a boca”.
O pastor ainda reforçou a necessidade de transparência, dizendo que, se Damares não tivesse provas “cale a boca. Se tem, denuncie pelo bem da igreja. A liderança evangélica está indignada com essa postura que considero covarde e vergonhosa”, chegando a afirmar: “a senadora não é digna de ser chamada evangélica”.
Diante da cobrança, Damares Alves divulgou, por meio de nota à imprensa, uma lista detalhada de nomes e instituições religiosas que são objeto de requerimentos na CPMI do INSS.
Senadora responde e divulga lista
A senadora ressaltou ser a autora do pedido que resultou na criação da comissão parlamentar, instalada em 2025, e que atua como membro titular desde o início dos trabalhos.
Ela explicou que os requerimentos se baseiam em “indícios concretos identificados em documentos oficiais”, como Relatórios de Inteligência Financeira e informações da Receita Federal.
Entre os requerimentos apresentados, destacam-se pedidos de transferência de sigilo de igrejas e convites ou convocações de líderes religiosos para prestar depoimento à CPMI. A lista divulgada inclui:
Igrejas com pedido de transferência de sigilo:
○Adoração Church (REQ 2746/2025).
○Igreja Assembleia de Deus Ministério do Renovo (REQ 2745/2025).
○Ministério Deus é Fiel Church (SeteChurch) (REQ 2635/2025) e
○Igreja Evangélica Campo de Anatote (REQ 2640/2025).
Líderes religiosos convidados, convocados ou com pedido de sigilo:
○Cesar Belucci do Nascimento (convite – REQ 2636/2025).
○André Machado Valadão (convocação – REQs 2638/2025 e 2734/2025; transferência de sigilo – REQ 2728/2025).
○Péricles Albino Gonçalves (convite – REQ 2639/2025).
○Fabiano Campos Zettel (empresário e líder religioso, convite – REQ 2642/2025), dono de corretora e cunhado de Daniel Vorcaro, dono do Banco Master.
○André Fernandes (convite – REQ 2826/2025).
Após a publicação da nota de esclarecimento de Damares, Silas Malafaia voltou a se manifestar, acusando a senadora de contradição. Em nova postagem, ele afirmou que Damares teria feito acusações “infundadas” ao usar o plural para mencionar “grandes igrejas” e “líderes renomados” sem citar nomes específicos na entrevista original.
Para Malafaia, a acusação foi “leviana e denigre de maneira geral a Igreja Evangélica”.
A CPMI do INSS, presidida pelo senador Carlos Viana (Podemos-MG), continua ativa e com um trabalho abrangente. A comissão já realizou 28 reuniões e ouviu 26 testemunhas no ano passado, incluindo os ex-ministros da Previdência Carlos Lupi e Onyx Lorenzoni, este último em período no qual teriam começado os desvios. Para fevereiro de 2026, está previsto o “primeiro balanço” do relatório preliminar.
Embora o prazo de encerramento da CPMI esteja previsto para março, o senador Viana defende a prorrogação dos trabalhos por mais 60 dias. Segundo ele, a extensão é “absolutamente indispensável” para “aprofundar as apurações, rastrear patrimônio oculto, identificar todos os responsáveis e garantir justiça plena às vítimas”, dada a “dimensão nacional e da profundidade desse esquema”.
Resultados preliminares já indicam a análise de 4.800 documentos e a identificação de 108 empresas suspeitas. O presidente da CPMI também afirmou que solicitará ao Supremo Tribunal Federal (STF) a suspensão imediata de quase 2 milhões de contratos de empréstimo consignado considerados suspeitos de irregularidades.
O embate público entre Damares Alves e Silas Malafaia, ao tempo em que evidencia a tensão no meio evangélico, reforça a amplitude e a seriedade das investigações da CPMI do INSS.
A comissão, sob a liderança de Carlos Viana, prossegue com um trabalho que já desvendou indícios significativos e busca estender seu prazo para garantir uma apuração completa.
As repercussões dessas denúncias e do avanço das investigações prometem impactar tanto o cenário político quanto o panorama religioso, à medida que a comissão se aprofunda em suas descobertas sobre as fraudes previdenciárias.
* Reportagem: Val-André Mutran (Brasília-DF), especial para o Portal Ver-o-Fato.















