Anapu, no sudoeste do Pará, amanheceu chocada nesta sexta-feira com a confirmação de que aqueles que deveriam proteger vidas são suspeitos de tirá-las. Três sargentos da Polícia Militar foram presos por envolvimento direto no brutal assassinato de um casal, crime que expôs uma face sombria da violência institucional e aprofundou a comoção em um município já marcado pelo medo e pela impunidade.
A Polícia Civil do Pará deflagrou, na manhã desta sexta-feira, a segunda fase da operação Quinto Mandamento, que investiga um duplo homicídio ocorrido em novembro de 2025, no município de Anapu. A ação resultou na prisão temporária de três sargentos da Polícia Militar, apontados pelas investigações como participantes na morte de Arionildo Cavalcante Ferreira, conhecido como Boiadeiro, e de sua esposa, Seli Silva Ferreira.
Até o momento, os militares foram identificados apenas como Cruz, Luciano e Elton. Dois foram presos em Anapu e um na região de Belo Monte. Eles também teriam agido, após os assassinatos, para intimidar testemunhas, segundo a polícia.
A operação mobilizou cerca de 25 policiais civis da Delegacia de Anapu, da Delegacia de Homicídios e do Núcleo de Apoio à Investigação (NAI) de Altamira. Os mandados judiciais de prisão temporária e de busca e apreensão foram cumpridos em Anapu e na região de Belo Monte. Após as prisões, os três agentes públicos foram conduzidos para a Delegacia de Altamira, onde permanecem à disposição da Justiça.
Segundo a Polícia Civil, as investigações indicam que os policiais militares tiveram participação tanto na execução do crime quanto no apoio logístico para a fuga de um dos principais investigados, apontado como suposto mandante do duplo homicídio, que segue foragido. A apuração revelou a atuação de agentes públicos não apenas no momento da prática criminosa, mas também em etapas posteriores, o que reforçou o pedido de prisões e buscas, posteriormente deferido pelo Poder Judiciário.
Durante o cumprimento dos mandados de busca e apreensão, foram recolhidos aparelhos celulares, CPU de computador e outros objetos que podem ter relação direta com o crime. Todo o material apreendido será submetido à perícia técnica, que deverá produzir laudos capazes de robustecer o inquérito, esclarecer a motivação do assassinato e apontar a eventual participação de outros envolvidos.
Mortes sob encomenda
O crime ocorreu na noite de 25 para 26 de novembro de 2025 e teve início na área rural de Anapu. De acordo com a polícia, o casal chegava do trabalho quando foi surpreendido em frente à própria residência, localizada em uma vicinal. Seli teria descido do veículo para abrir a porteira da propriedade quando homens armados, escondidos, anunciaram o assalto. As vítimas foram rendidas e obrigadas a entrar novamente no carro da família.
Uma das filhas do casal, que estava dentro da casa, ouviu os gritos de desespero da mãe e alertou parentes. Ainda durante a madrugada, um irmão de Arionildo registrou o desaparecimento na Delegacia de Anapu. Na manhã do dia 26, os corpos foram encontrados em um terreno baldio, a cerca de um quilômetro do centro da cidade.
Ambos apresentavam sinais de extrema violência, com marcas de agressão e perfurações provocadas por arma de fogo, indicando que foram torturados antes de serem executados. O veículo usado no sequestro foi localizado abandonado em outra vicinal da região.
Desde então, a Polícia Civil iniciou uma investigação intensiva, que apontou para a hipótese de crime de mando, praticado por motivo torpe. Pela própria dinâmica do assassinato, os executores não teriam relação direta com as vítimas. A complexidade do caso exigiu o aprofundamento em provas telemáticas e telefônicas, agora ampliadas com a análise dos equipamentos eletrônicos apreendidos, trabalho que conta com o apoio técnico do Núcleo de Apoio à Investigação.
A Polícia Civil afirma que as diligências continuam e que novos desdobramentos podem ocorrer nos próximos dias. O objetivo, segundo os investigadores, é apresentar uma resposta efetiva à família das vítimas e à sociedade, abalada pela revelação de que policiais militares — agentes do Estado incumbidos de garantir a segurança e a vida da população — são suspeitos de envolvimento em um crime de tamanha brutalidade.
Após serem ouvidos pela delegada Larissa e concluídas as formalidades legais na Superintendência, os três sargentos serão encaminhados à Corregedoria da Polícia Militar, onde permanecerão à disposição do órgão para o cumprimento das prisões determinadas pela magistrada.
O caso aprofunda a indignação em Anapu e reforça a cobrança por justiça, transparência e responsabilização exemplar, especialmente quando a violência parte de dentro das próprias instituições encarregadas de combatê-la.
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