John Ratcliffe foi a Moscou para transmitir um alerta ao Kremlin em meio a avaliações de inteligência sobre possíveis ações russas contra países da aliança, segundo fontes ouvidas pela imprensa americana
Uma visita sigilosa do diretor da CIA, John Ratcliffe, a Moscou ganhou novos contornos nesta quarta-feira (26), após informações indicarem que o chefe da inteligência americana foi à capital russa para advertir o governo de Vladimir Putin contra qualquer ataque a um país da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan).
A informação foi inicialmente publicada pelo The Wall Street Journal, com base em pessoas informadas sobre a missão. O relato foi posteriormente corroborado por veículos como CBS News e ABC News, que também citaram fontes familiarizadas com os encontros. A CIA não comentou oficialmente o objetivo da viagem.
O episódio ocorre em um momento de crescente preocupação em Washington e entre aliados europeus com a possibilidade de Moscou tentar testar a disposição da Otan de reagir a uma agressão que fique abaixo do limiar de uma guerra convencional.
Alerta em meio à guerra na Ucrânia
Segundo as informações divulgadas, as avaliações recentes da inteligência americana apontam para a possibilidade de que a Rússia considere ações limitadas contra integrantes da aliança, especialmente nos países bálticos — Estônia, Letônia e Lituânia.
O temor não se restringe a uma invasão convencional. Autoridades americanas avaliam que Moscou poderia recorrer a ataques cibernéticos, sabotagens, operações híbridas, incursões com drones ou ações militares de alcance limitado para medir a reação dos governos ocidentais sem necessariamente desencadear uma guerra aberta com toda a Otan.
A preocupação central, portanto, seria menos a preparação para uma ofensiva militar de grande escala e mais a possibilidade de uma operação calculada para explorar divisões dentro da aliança.
Um ataque contra qualquer integrante da Otan tem implicações especialmente sensíveis porque o tratado prevê o princípio da defesa coletiva. Uma agressão contra um membro pode levar os demais países aliados a considerar o episódio uma ameaça à segurança de toda a organização.
Encontro com a inteligência russa
Ratcliffe não se encontrou diretamente com Putin durante a passagem por Moscou. O Kremlin confirmou que o diretor da CIA manteve conversas com autoridades dos serviços de inteligência russos.
Sergei Naryshkin, chefe do Serviço de Inteligência Estrangeira da Rússia (SVR), afirmou nesta quinta-feira que teve uma reunião de trabalho com Ratcliffe. Segundo Naryshkin, os dois trataram de questões sensíveis, mas ele não revelou detalhes do conteúdo.
O porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, também confirmou os contatos e disse que Putin foi informado sobre o resultado das conversas, embora não tenha participado diretamente delas.
A manutenção desses canais entre os serviços de inteligência ganha importância justamente porque as relações diplomáticas entre Washington e Moscou continuam profundamente tensionadas pela guerra na Ucrânia.
Trump minimiza missão
A viagem também produziu uma divergência pública entre a versão apresentada pelo presidente Donald Trump e as informações atribuídas às fontes americanas.
Trump confirmou que Ratcliffe esteve em Moscou, mas classificou a viagem como “semi-rotineira” e afirmou que ela não estava relacionada a uma eventual ameaça russa contra a Otan. O presidente disse ainda que os Estados Unidos continuam tentando encontrar uma saída para a guerra entre Rússia e Ucrânia.
A posição oficial contrasta com a descrição feita por pessoas familiarizadas com a missão, segundo as quais a advertência contra um ataque a países da Otan esteve entre os principais assuntos discutidos.
A discrepância pode refletir uma tentativa da Casa Branca de evitar uma escalada pública com o Kremlin enquanto mantém canais de comunicação reservados.
Irã também entrou na pauta
A guerra na Ucrânia não foi o único tema sensível da viagem.
Segundo fontes ouvidas pela CBS News e pela ABC News, Ratcliffe também abordou a relação entre Rússia e Irã. Os dois países mantêm uma parceria estratégica e militar, enquanto Washington vem pressionando Teerã e seus aliados por meio de sanções e outras medidas.
A reunião, portanto, parece ter servido a dois objetivos simultâneos: transmitir uma mensagem de dissuasão sobre a segurança europeia e tratar da cooperação russa com o Irã.
Uma viagem que lembra 2021
A passagem de Ratcliffe por Moscou também chama atenção pelo precedente histórico.
Em 2021, o então diretor da CIA, William Burns, viajou à Rússia e se reuniu com Putin para transmitir uma mensagem de Washington sobre os riscos de uma invasão da Ucrânia. Meses depois, em fevereiro de 2022, as forças russas iniciaram a invasão em larga escala do território ucraniano.
A comparação aumenta o peso político da atual missão. Desta vez, porém, a preocupação americana não está limitada à Ucrânia: a mensagem teria sido para evitar que o conflito se espalhe para o território de países protegidos pelo tratado da Otan.
O que a viagem revela
A missão de Ratcliffe mostra que, apesar do discurso público de normalização de alguns contatos entre Washington e Moscou, os Estados Unidos continuam tratando a Rússia como uma fonte relevante de risco estratégico.
Também evidencia a importância dos canais de inteligência em períodos de crise. Enquanto negociações diplomáticas podem permanecer travadas, serviços de inteligência mantêm contatos capazes de transmitir advertências diretamente às autoridades responsáveis por decisões militares e de segurança.
Por enquanto, não há confirmação pública de que o Kremlin esteja planejando um ataque contra qualquer integrante da Otan. A advertência atribuída a Ratcliffe, segundo as fontes, representa uma medida de dissuasão baseada em avaliações de inteligência — e não uma confirmação de que uma ofensiva russa seja iminente.
O episódio, contudo, sinaliza que Washington considera suficientemente sério o risco de uma provocação russa contra a aliança para enviar o próprio diretor da CIA a Moscou. E, ao escolher um canal reservado entre os serviços de inteligência, o governo americano parece ter buscado transmitir a mensagem com máxima clareza, mas sem transformar o alerta em uma crise diplomática pública.
Fonte: wsj.com















