Sem empolgar os eleitores, Caiado, Zema, Cury, Renan e nanicos foram rebaixados à conveniência do voto útil; 2026 pode acabar com o ciclo e pulverizar Lula ou Flávio
Brasília – A 4 dias do primeiro turno da eleição, marcado para o próximo domingo (4), os candidatos da chamada terceira via à Presidência — Ronaldo Caiado (PSD), Romeu Zema (Novo), Renan Santos (Missão) e Augusto Cury (Avante) — seguem sem romper a polarização e acumulam perdas diante do apelo do voto útil, em uma disputa que permanece concentrada entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o senador Flávio Bolsonaro (PL), enquanto candidatos nanicos seguem como ilustres anônimos aos olhos dos eleitores.
Ao menos duas pesquisas divulgadas na segunda-feira (28), indicam que a pressão sobre os postulantes de fora do eixo Lula–Bolsonaro só aumentou na reta final, enquanto cientistas políticos apontam a cristalização do eleitorado, o excesso de candidatos e a incapacidade de formular um discurso alternativo como os principais motivos para o fracasso do campo, pelo terceiro pleito consecutivo, em cenário agravado pela desesperança e preocupação do eleitor com o seu futuro.
As campanhas, rigorosamente não abordaram um programada de governo: nada. Foram ataques virulentos entre os dois líderes das pesquisas, cujos elevados índices de rejeição são assustadores. Houve promessas vazias, nada concreto, o que assombra ainda mais o brasileiro que, pelo visto, terá um 2027 rico em desagradáveis surpresas no campo econômico, num país que está na beira do campo de uma perversa recessão econômica em formação.
O levantamento do instituto Quaest, encomendado pela Globo e pelo jornal O Globo, mostra Lula com 39% das intenções de voto no cenário estimulado de primeiro turno, seguido por Flávio Bolsonaro, com 34%, em uma diferença de cinco pontos percentuais, fora da margem de erro de dois pontos.
Na sequência aparecem Augusto Cury, com 4%, Ronaldo Caiado, também com 4%, Renan Santos, com 3%, e Romeu Zema, com 1%. O quadro repete, em linhas gerais, o cenário registrado na mesma altura da disputa de 2022, quando a Quaest apontava vantagem de 27 pontos percentuais do segundo colocado sobre o terceiro colocado.
A pesquisa ouviu 2.004 eleitores entre os dias 24 e 27 de setembro. No segundo turno, a simulação aponta empate técnico, com o senador do PL numericamente à frente do petista, enquanto o levantamento do BTG/Nexus indica Lula com 46% ante 44% de Flávio, cenário também classificado como empate técnico.
A decisão de voto nos líderes das pesquisas está muito mais cristalizada. Além da polarização, a vasta quantidade de nomes ligados à direita teria ajudado a pulverizar os votos entre candidatos como Augusto Cury, Ronaldo Caiado, Renan Santos e Romeu Zema. O problema, contudo, é mais complexo, na avaliação dos especialistas. “Há uma incapacidade dos demais postulantes de formular qualquer discurso alternativo. Se você olhar o que está aparecendo aí, é muito mais do mesmo, quase uma espécie de bolsonarismo do B”, afirmou o professor do Insper e cientista político Leandro Consentino.
Consentino defende que uma candidatura à direita que não fosse bolsonarista e não fosse radical poderia ter tido mais sucesso, desde que não flertasse com o bolsonarismo ao prometer, por exemplo, indultar o ex-presidente ou assumir suas pautas.
Na mesma linha, o cientista político Vinicius Lima sustenta que Jair Bolsonaro segue forte na mente do eleitorado, o que dificultou o caminho de nomes mais ligados à direita. “A presença de Flávio como candidato que representa o pai nessa corrida desfavorece o surgimento de novos arranjos competitivos à direita que não gravitem em torno do bolsonarismo.
Neste contexto, optar por outra candidatura de direita como alternativa ao antipetismo parece muito pouco provável nessa eleição”, apontou. O contexto ganha peso diante do fato de o ex-presidente Jair Bolsonaro estar condenado e preso por tentativa de golpe de Estado, o que transformou o senador no principal herdeiro político do bolsonarismo na disputa.
Ao contrário do que ocorre na direita, o campo da esquerda aparece esvaziado para Consentino, com Lula reunindo os principais partidos e apenas legendas menores lançando candidatos. Dos cinco nomes do campo que aparecem na disputa — Lula, Samara Martins, Rui Costa Pimenta, Edmilson Costa e Hertz Dias — apenas o candidato do PT ultrapassou a marca de 1% nas pesquisas. “O Lula soube, vamos dizer assim, esvaziar todos os postulantes que poderiam ser colocados ao seu redor. Ele tira o PSB da jogada, neutraliza a própria Rede, com a Marina Silva estando no seu bloco. Então, a esquerda não é tanto um problema. Ela está ali só se apresentando naquelas candidaturas nanicas de sempre: PSTU, PCO, PCB…”, completou o cientista político.
Terceira via rebaixada ao voto útil
Cada hora que avança no relógio é preciosa para uma investida de Flávio na busca, desesperada, do voto útil, sempre motivo de discussão. A tática aparece como elemento central de pressão sobre os candidatos fora da polarização e pode ser impulsionado pelos próprios líderes da corrida.
Como explica Vinicius Lima, o ambiente político atual é marcado pela “definição e o fortalecimento de um grupo impulsionados por uma lógica de oposição ao que se considera como pior adversário”. Nesse cenário, a percepção de que um dos principais candidatos representa o “pior cenário” pode levar o eleitor a se coordenar em torno de outro postulante com maior capacidade de enfrentá-lo.
“O eleitorado está novamente muito mais orientado pelas duas candidaturas polarizadoras, tanto à esquerda, com o Lula, quanto à direita, com o bolsonarismo”, afirmou Consentino. Os números reforçam a tese: o Datafolha, divulgado nesse fim de setembro, estimou que Flávio Bolsonaro atrai 43% dos votos somados de Zema, Renan, Caiado e Cury em um eventual segundo turno, enquanto Lula agregaria 30% desse contingente, evidenciando a migração dos eleitores da terceira via para os polos da disputa.
Os candidatos Augusto Cury, Ronaldo Caiado, Renan Santos e Romeu Zema se recusam a falar com os jornalistas sobre o tema, mas, fontes do Ver-o-Fato garantem que há conversas adiantadas que podem anunciar acordos de última hora.
O silêncio ao público vai além do segredo, é ativo de conversas que podem tratar de nacos de poder num futuro governo: um ministério, uma estatal. Isso contrasta com a urgência do momento, a menos de uma semana do pleito, e reforça a dificuldade do campo em pautar a agenda diante da força das imagens de Lula e Bolsonaro.
A disputa de 2026 pode definir não apenas o próximo presidente, mas também quais lideranças terão espaço na política brasileira nos anos seguintes. Nomes como Tarcísio de Freitas e Renan Santos são alguns dos cotados para a próxima disputa. Outros frequentemente citados, a depender do resultado que obtiverem na corrida deste ano, são o ex-prefeito do Rio de Janeiro, Eduardo Paes (PSD), que concorre ao Palácio Guanabara e lidera as pesquisas, e o ex-prefeito do Recife, João Campos, que trava disputa acirrada com a atual governadora, Raquel Lyra, em Pernambuco.
Fio da navalha
O fio da navalha penaliza erros de abordagem. Revoluções podem ocorrer e mudar radicalmente o cenário. Se nas próximas 72 horas, por exemplo, o candidato senador Cleitinho (Republicanos), fechar um acordo com Flávio, a eleição para governador em Minas Gerais pode ser definida no primeiro turno. Se isso se concretizar, Lula ficará sem palanque no segundo maior colégio eleitoral do país e corre o risco de perder a eleição com margem superior a 10 milhões de votos.
Em 2026 pode ser justamente o ponto de transição entre a atual polarização e uma nova configuração política em 2030. “O campo da esquerda não vai ter Lula novamente na cédula em 2030. Vencendo, não há possibilidade; perdendo, dificilmente ele concorreria, pensando nas eleições e na própria biografia.
No caso do Flávio, se ele vencer, tem mais quatro anos. Mas, se não vencer, se encerra também um ciclo importante no bolsonarismo. O bolsonarismo perde o seu monopólio na direita. Então, de toda forma, é improvável que essa polarização persista em 2030, para alegria geral de muitos que detestam Lula e Flávio.
A reta final da campanha, portanto, não apenas consolida a disputa entre Lula e Flávio Bolsonaro, mas também sepulta, ao menos neste ciclo, as pretensões da terceira via, cujos candidatos chegam ao primeiro turno sem empolgar o eleitorado, pressionados pelo voto útil e sem conseguir apresentar uma alternativa discursiva capaz de romper a lógica binária que domina o cenário político brasileiro desde 2018, deixando para 2030 a eventual recomposição do tabuleiro eleitoral.
Val-André Mutran é repórter especial do Portal Ver-o-Fato e está sediado em Brasília.














