Recorde de calor na Europa Ocidental, incêndios e secas marcam o período em que o Copernicus confirmou a maior temperatura média global já medida
Brasília – Agosto de 2026 entrou para a história como o mês mais quente já registrado no planeta, ao empatar tecnicamente com julho de 2023, com temperatura média global de 16,96°C, segundo o serviço de monitoramento climático Copernicus, ligado à União Europeia, que divulgou o boletim na quinta-feira (10).
O calor extremo, que colocou o aquecimento global 1,65°C acima do nível pré-industrial e levou as temperaturas da superfície dos oceanos a patamares nunca vistos, provocou um alerta direto das Nações Unidas, que classificaram a crise climática como uma emergência de segurança econômica em escala continental e apontaram a dependência dos combustíveis fósseis como a causa central da escalada.
O recorde e os números
Os dados do Copernicus mostram que a temperatura média do ar em agosto chegou a 16,96°C, o que representa 0,85°C acima da média de referência do período entre 1991 e 2020 e supera em apenas 0,01°C o recorde mensal anterior, registrado em julho de 2023, o que levou os cientistas a tratar os dois meses como empatados. O mês também marcou o retorno do aquecimento global para acima de 1,5°C em relação à era pré-industrial (1850-1900), fato que não ocorria desde novembro de 2025, segundo o observatório europeu.
Como o limite de 1,5°C, definido pelo Acordo de Paris como a linha de segurança para o clima, é medido pela média de duas décadas e não por meses isolados, cada ultrapassagem isolada funciona como um termômetro do que está por vir, e o boletim indica que o trimestre de junho a agosto de 2026 empatou com 2024 como o período mais quente já verificado no mundo.
As análises do Copernicus remontam a 1940, porém outras evidências, como núcleos de gelo, anéis de árvores e esqueletos de corais, permitem situar o momento atual em uma perspectiva muito mais ampla. Para Samantha Burgess, do Centro Europeu de Previsões Meteorológicas de Médio Prazo (ECMWF), que coordena o Copernicus, os humanos provavelmente não viram temperaturas tão elevadas quanto as atuais em pelo menos 100 mil anos, e as observações mostram como as mudanças climáticas estão provocando fenômenos extremos tanto na atmosfera quanto no oceano.
O alerta da ONU
A resposta das Nações Unidas veio na mesma manhã da divulgação do boletim, em audiência no Parlamento Europeu. O secretário-executivo da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre a Mudança do Clima, Simon Stiell, foi enfático ao afirmar que a crise climática é agora uma emergência de segurança econômica em escala continental, citando evacuações em massa, usinas de energia fechadas, rotas comerciais obstruídas, colheitas perdidas, queda na produtividade e preços dos alimentos em alta como consequências já concretas do calor extremo.
Segundo Stiell, as evidências são irrefutáveis e representam o preço em espiral da dependência da humanidade dos combustíveis fósseis e da crise climática global que ela está alimentando, de modo que o clima continuará na rota de níveis nunca observados até que o mundo abandone o carvão, o petróleo e o gás.
O posicionamento da ONU ganha contexto em um cenário de reconhecimento oficial da inevitabilidade do chamado “overshoot” termo usado na política climática para descrever a situação em que o planeta ultrapassa temporariamente um limite de aquecimento acordado — no caso, o teto de 1,5°C acima da era pré-industrial definido pelo Acordo de Paris, em 2015 — antes de voltar a ficar abaixo dele.
A superação temporária do limite de 1,5°C, que segundo projeções citadas por órgãos especializados deve ser consolidada antes do fim desta década na média anual. No ritmo atual de emissões, o mundo chegará ao fim deste século cerca de 2,8°C mais quente do que a média do período pré-industrial, enquanto as emissões de gases do efeito estufa, responsáveis pelo aquecimento, atingiram níveis históricos em 2025.
Os cientistas estimam que a atividade humana, em particular a queima de carvão, petróleo e gás, aqueceu o planeta em quase 1,4°C desde a era pré-industrial, o que aumenta a gravidade e a probabilidade de fenômenos meteorológicos extremos.
Oceanos em ebulição e o super El Niño
Além do ar à superfície, o boletim registrou recorde na temperatura média das águas oceânicas fora das regiões polares, que alcançaram 21,07°C em agosto, o maior patamar já observado para um mês desde o início da série histórica, empatado com março de 2024, e que se estende por um contexto de cerca de 125 mil anos de dados climáticos reconstruídos.
O recorde diário foi ainda maior, com 21,11°C em 22 de agosto, em um momento em que mais de 90% do excesso de calor retido pelas emissões de gases do efeito estufa foi absorvido pelos oceanos, com custo severo para a vida marinha, os recifes de coral e as comunidades costeiras. As temperaturas quebraram recordes em bacias como o Atlântico, o Mediterrâneo ocidental e o Pacífico tropical, onde o El Niño ganha força de forma acelerada.
O fenômeno cíclico, descrito pela Organização Meteorológica Mundial (OMM) como solidamente instalado e em dimensão excepcional, deve se intensificar nos próximos meses até atingir o pico por volta de dezembro de 2026, com permanência prevista até fevereiro de 2027, segundo a agência da ONU.
Projeções do Centro de Previsão Climática da NOAA, órgão meteorológico dos Estados Unidos, indicam probabilidade elevada de que o evento se torne um dos mais fortes já registrados na era moderna, possivelmente o mais intenso desde 1950, e estudos recentes apontam que a mudança climática intensifica a própria variabilidade do El Niño.
Com as águas do Pacífico incomumente quentes, aumenta a probabilidade de fenômenos climáticos extremos a milhares de quilômetros de distância, de inundações no Peru a secas na África e incêndios florestais na Austrália, enquanto o boletim do Copernicus registrou condições mais secas que o normal no trimestre em parte do Brasil, na região do Chifre da África, no Magrebe, na América do Norte central e no norte da Austrália.
O verão infernal de 1,3 bilhão de pessoas
O impacto humano da escalada de calor foi dimensionado em análise da agência de notícias AFP sobre os dados do Copernicus, que constatou que quase 1,3 bilhão de pessoas em todo o mundo viveram, entre junho e agosto, o verão mais quente já registrado no Hemisfério Norte.
Ao longo da estação, 52 países de todos os continentes superaram seus recordes de temperatura, e 11 nações da Europa Ocidental, entre elas Espanha e Itália, registraram as médias mais altas para o período, em um verão que o observatório europeu classificou como o mais quente da história da Europa Ocidental, superando a marca de 2003. Os termômetros espanhóis marcaram média de 24,5°C, a maior desde 1961, com 61 dias de onda de calor na estação, contra 41 em 2022, enquanto a Itália registrou 24,3°C, a maior marca em 75 anos.
As consequências foram sentidas de forma concreta em toda a Europa, onde ondas de calor consecutivas fecharam escolas, secaram rios e prepararam o terreno para incêndios florestais devastadores, como os que atingiram Bélgica, Grécia, Espanha, França e Portugal, alimentados pela combinação de calor intenso e baixa umidade e capazes de forçar a evacuação de cidades inteiras.
O custo humano foi elevado, pois levantamento da AFP contabiliza pelo menos 35 mil mortes relacionadas ao calor entre meados de junho e o fim de agosto, quando as temperaturas atingiram níveis praticamente impossíveis não fossem as mudanças climáticas, segundo a rede World Weather Attribution. Na Europa, a rede EuroMOMO, apoiada pelo Centro Europeu de Prevenção e Controle de Doenças e pela Organização Mundial da Saúde, estimou mais de 10 mil mortes em excesso no período, sendo mais de 9 mil delas entre pessoas com 65 anos ou mais, o grupo mais vulnerável a temperaturas extremas.
A rota dos recordes
Os cientistas esperam que os recordes continuem sendo quebrados nos próximos meses, à medida que o El Niño se aproxime de sua intensidade máxima por volta de dezembro, e projetam que 2027, e talvez até 2026, possa se tornar o ano mais quente já observado na história, em uma trajetória em que o calor extremo deixa de ser exceção e passa a ser a regra do clima global, conforme advertiu o Copernicus ao registrar que o ano completo de 2024 segue como o mais quente da série.
O agosto de 2026 fica, assim, registrado como um ponto de inflexão que não admite mais leituras atenuantes, pois termômetros, oceanos e o conjunto de evidências científicas apontam na mesma direção, a de que o custo da inação cresce a cada grau e a cada mês de recorde, tornando a transição energética menos uma escolha política e mais uma condição para a preservação de economias, comunidades e ecossistemas em escala planetária.
Val-André Mutran é repórter especial do Portal Ver-o-Fato e está sediado em Brasília.















