Estudo de fase 3 contra melanoma, o tipo mais grave da doença, pode redefinir o tratamento oncológico
Brasília – A vacina experimental contra o câncer de pele desenvolvida pelas farmacêuticas Moderna e Merck alcançou resultados positivos em um estudo de fase 3, a etapa mais importante dos testes clínicos antes da análise dos órgãos reguladores, e a notícia foi recebida como um potencial marco para a oncologia, impulsionando as ações das empresas na Nasdaq — a Bolsa das empresas de tecnologia dos Estados Unidos — nesta quarta-feira (19).
A tecnologia, baseada em RNA mensageiro (mRNA), a mesma utilizada nas vacinas contra a Covid-19, foi desenhada para ajudar o organismo a combater um câncer já existente, o melanoma, considerado o tipo mais grave de câncer de pele. O anúncio chega em meio a um movimento mais amplo no Brasil, onde o governo sancionou em abril uma lei que dá prioridade a vacinas e tratamentos inovadores contra a doença no Sistema Único de Saúde (SUS).
O que diz o estudo e como a vacina funciona
Diferentemente das vacinas tradicionais, criadas para prevenir doenças antes que elas surjam, a versão das empresas foi desenvolvida para atuar sobre um tumor já instalado. A tecnologia de mRNA, em vez de ensinar o organismo a identificar um vírus, é elaborada a partir das características genéticas do tumor de cada paciente, para que o sistema imunológico reconheça e ataque as células cancerígenas. O primeiro passo do processo é a análise genética do tumor, momento em que os cientistas identificam mutações específicas presentes nas células cancerígenas e, a partir dessas informações, desenvolvem uma vacina personalizada.
A vacina, apelidada de mRNA-4157/V940, é aplicada em combinação com o Keytruda, um dos medicamentos oncológicos mais vendidos do mundo. Enquanto o Keytruda ajuda a retirar parte dos mecanismos que o câncer usa para escapar das defesas do organismo, a vacina busca direcionar e fortalecer a resposta imunológica contra o tumor. Segundo os cientistas, a abordagem é considerada uma das mais inovadoras da oncologia porque transforma informações genéticas do próprio câncer em um tratamento personalizado, o que significa que cada paciente recebe uma terapia desenhada especificamente para as características de sua doença.

Resultados, cautela científica e reação do mercado
Os resultados mais recentes mostraram que a combinação da vacina com o Keytruda prolongou o período sem recaídas e reduziu o risco de progressão do melanoma. Os dados foram divulgados pela Moderna e pela Merck em comunicado nesta quarta-feira (19). O estudo, porém, segue em andamento e ainda não foi publicado em periódico científico com revisão por pares, e as empresas também não revelaram, até o momento, os percentuais exatos de redução de risco observados na análise.
A verificação em fontes complementares ajuda a dimensionar o alcance do resultado. O ensaio recrutou 1.137 pacientes de alto risco com melanoma em estágios IIB a IV, que haviam sido submetidos à remoção cirúrgica dos tumores, e os participantes foram distribuídos aleatoriamente para receber até nove doses de Keytruda associadas à vacina personalizada ou apenas o imunoterápico, durante aproximadamente um ano.
As empresas informaram que nenhum novo padrão inesperado de efeitos adversos que levantasse preocupação de segurança foi identificado. Em janeiro, um ensaio de fase intermediária já havia indicado redução de 49% no risco de recorrência da doença ou morte após cinco anos, dado também destacado pelo Jornal da USP, que ouviu o imunologista e virologista Rúbens Alves, pesquisador do Instituto Pasteur de São Paulo da USP, para quem a combinação da vacina com a imunoterapia é essencial para a eficácia do tratamento, uma vez que o imunoterápico remove os freios do sistema imunológico que o tumor usa para se esconder no organismo.
Embora ainda sejam necessários novos acompanhamentos para confirmar os benefícios de longo prazo, especialistas veem o estudo como um marco para o desenvolvimento de vacinas terapêuticas contra o câncer. O potencial da tecnologia também se refletiu no mercado financeiro: após a divulgação dos resultados, as ações da Moderna registraram forte valorização, chegando a disparar mais de 153% na máxima no Nasdaq, em Nova York, enquanto os papéis da Merck avançaram cerca de 7%. Analistas do banco britânico Barclays projetam que o tratamento gere cerca de US$ 3 bilhões no combate ao melanoma até 2035, o que evidencia a dimensão econômica do avanço para além do impacto clínico.

O contexto brasileiro: prioridade no SUS e produção nacional
O anúncio das farmacêuticas ocorre em um cenário de movimentação institucional relevante no Brasil. Em 10 de abril, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva sancionou, sem vetos, a Lei 15.385, de 2026, publicada no Diário Oficial da União no dia 13, que estabelece novas diretrizes da Política Nacional de Prevenção e Controle do Câncer e estimula o desenvolvimento e a incorporação mais rápida de novas tecnologias no setor de saúde. Pela norma, as vacinas contra o câncer, os medicamentos e os produtos oncológicos de terapia avançada enquadram-se na categoria de precedência prioritária, com garantia de gratuidade e de acesso universal e igualitário no âmbito do SUS.
O texto tem origem no Projeto de Lei 126/2025, de autoria da senadora Dra. Eudócia (PSDB-AL), e foi relatado pelo senador Flávio Arns (PSB-PR) na Comissão de Assuntos Sociais (CAS), que integrou as diretrizes à política nacional já existente e à legislação sanitária. Para a senadora, o texto representa um avanço significativo no cuidado com os pacientes oncológicos, em um diagnóstico que, segundo ela, não atinge apenas o doente, mas toda a sua rede de apoio.
A lei também valoriza o desenvolvimento de tecnologias no Brasil, com financiamento do Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico, e lista princípios como a valorização da produção nacional para redução da dependência de importações, o estímulo a startups de biotecnologia, o fomento a formas alternativas de financiamento, o apoio à aplicação de inteligência artificial e o incentivo a parcerias público-privadas. A tramitação foi precedida pela aprovação, na Câmara dos Deputados, de projeto que obriga o SUS a oferecer acesso a terapias avançadas contra o câncer.
No plano da produção, o Instituto Butantan teve quatro projetos de Parcerias para o Desenvolvimento Produtivo (PDP) aprovados pelo governo federal para o desenvolvimento e a produção de medicamentos contra o câncer e esclerose múltipla, além de vacinas de VSR e mRNA, e firmou parceria com a farmacêutica MSD para fabricar no Brasil o pembrolizumabe, o princípio ativo do Keytruda, medicamento já aprovado pela Anvisa e indicado para quase 40 tipos da doença. Ainda assim, especialistas alertam que o intervalo entre a promessa de autonomia tecnológica e o impacto real para a população pode levar anos, o que impõe cautela quanto à velocidade de incorporação dessas terapias na rede pública.
A combinação de avanço científico, reação do mercado e resposta institucional brasileira desenha um quadro de múltiplas implicações. No campo da saúde pública, a perspectiva de vacinas terapêuticas personalizadas contra o melanoma representa uma mudança de paradigma, ao deslocar o tratamento de terapias agressivas e nem sempre eficazes para abordagens desenhadas conforme o perfil biológico de cada paciente.
No campo econômico, a valorização expressiva das ações da Moderna sinaliza a confiança do mercado no potencial comercial da tecnologia, mas também expõe a dependência de grandes conglomerados farmacêuticos, o que reforça a relevância da aposta brasileira em produção nacional e em marcos regulatórios que acelerem o acesso.
No campo político, a sanção da Lei 15.385, em um tema de forte apelo social, evidencia a convergência entre Executivo e Legislativo em torno da pauta oncológica, ainda que a efetividade da norma dependa de financiamento, de capacidade produtiva e de regulação ágil, fatores que permanecem como desafios concretos.
O desfecho da pauta, portanto, é de expectativa qualificada por cautela, pois o marco científico anunciado pela Moderna e pela Merck, embora promissor e capaz de animar investidores e pacientes, ainda depende de confirmação em revisão por pares, de acompanhamento de longo prazo e, no caso brasileiro, da tradução da prioridade legal em acesso real e tempestivo no SUS.
Reportagem: Val-André Mutran (Brasília-DF), especial para o Portal Ver-o-Fato.















