Ministro ocultou que era sócio do resort de luxo no Paraná. Documento de 200 páginas enumera contatos e transações, pressionando ministro do STF por afastamento no escândalo do Banco Master
Brasília – A controvérsia em torno do ministro Dias Toffoli, do Supremo Tribunal Federal (STF), e do empresário Daniel Vorcaro, CEO do Banco Master, intensifica-se com a revelação de um relatório da Polícia Federal (PF) que detalha ligações entre ambos, levantando sérias questões sobre a imparcialidade do magistrado na relatoria do Caso Master. As informações, que incluem recebimentos de dinheiro por Toffoli de uma empresa associada a seus familiares e a transação desta com um cunhado de Vorcaro, colocam o ministro sob crescente pressão para se afastar do processo, com o presidente do STF, Edson Fachin, avaliando o material.
Paralelamente, a oposição quer o imediato afastamento de Dias Toffoli do processo, a abertura de um procedimento de impeachment no Senado, e caso seja afastado, que Toffoli responda por seus supostos crimes e se condenado, seja preso.
A revelação da PF é um escândalo explosivo envolvendo membro da Corte, que tem em suas decisões monocráticas escandalizado a comunidade jurídica. O cenário de questionamentos se aprofundou quando Toffoli veio a público admitir ser sócio da empresa Maridt — proprietária do resort Tayayá —, da qual, até então, presumia-se pertencer formalmente apenas a seus irmãos, José Carlos e José Eugênio.
Essa admissão ocorreu após a revelação de que dinheiro depositado pela Maridt entrava em sua conta corrente, transação que o ministro classifica como regular. Contudo, ficou em aberto se o percentual depositado corresponde à sua participação acionária, cujo nome não aparece nos dados cadastrais da Junta Comercial de São Paulo por se tratar de uma sociedade anônima.
Está em aberto se a transação entre a companhia dos Toffoli e o pastor Fabiano Zettel, cunhado de Vorcaro e considerado pelos investigadores como um de seus principais operadores, é um dos temas destacados no relatório da PF, sendo o resort do ministro um dos assuntos tratados entre eles. Toffoli, agora sabe-se, para se proteger, impôs o mais alto grau de sigilo no processo.
Em meio a este contexto, a Polícia Federal entregou um relatório de cerca de 200 páginas, descrito por integrantes do Supremo como “nitroglicerina pura”, ao presidente do STF, Edson Fachin, em 9 de dezembro de 2025.
O documento elenca uma série de achados do celular de Daniel Vorcaro que sugerem a impossibilidade de Toffoli permanecer à frente da relatoria e participar do julgamento do Caso Master.
Entre os itens, destacam-se telefonemas entre Toffoli e Vorcaro, o envio de um convite para a festa de aniversário do ministro e conversas de Vorcaro com outras pessoas sobre pagamentos relacionados ao Tayayá, resort da família do ministro.
Embora o relatório não peça expressamente a suspeição de Toffoli, seus achados são contundentes. Em nota oficial, Toffoli afirmou que o relatório da PF trata de “ilações” e argumentou que a corporação não tem legitimidade para pedir sua suspeição.
A condução do Caso Master por Toffoli tem sido marcada por decisões controversas desde que assumiu a relatoria no final de novembro de 2025. O magistrado aceitou o caso após um pedido da defesa de Vorcaro, que alegou a presença do nome do deputado João Carlos Bacelar (PL-BA), com foro privilegiado, entre os documentos apreendidos pela PF. Uma desculpa esfarrapada, uma vez que não houve a transação comercial citada.
As ações do ministro incluíram:
- Viagem e sigilo: Toffoli determinou o sigilo da investigação no mesmo dia em que viajou a Lima, Peru, em um jatinho com o advogado de um dos diretores do Master, para assistir à final da Libertadores de 2025. A aeronave pertencia ao empresário Luiz Pastore, que foi filmado visitando Toffoli no Tayayá ao lado do banqueiro André Esteves, do BTG Pactual, em vídeo de 2023.
- Custódia das provas: Ordenou que a custódia das provas apreendidas ficasse com o Supremo e que todas as oitivas ocorressem na Corte, e não na Polícia Federal.
- Acareação questionável: Às vésperas do Natal, o ministro determinou uma acareação entre Vorcaro, o ex-presidente do BRB Paulo Henrique Costa e o diretor de Fiscalização do Banco Central, Ailton de Aquino, para 30 de dezembro, antes de qualquer depoimento. Toffoli recuou posteriormente, autorizando que o trio depusesse a uma delegada da PF, mas elaborou uma extensa e incomum lista de perguntas. A inquirição de Vorcaro focou na decisão do BC de liquidar o Master, em vez das fraudes na venda de carteiras para o BRB.
- Críticas à PF: Em janeiro, o ministro acusou a PF de “inércia” e “falta de empenho” por ter atrasado em um dia a segunda fase da Operação Compliance Zero. A corporação, por sua vez, argumentou a necessidade de confirmar endereços dos alvos, ressaltando que as medidas já haviam sido solicitadas à Justiça em outubro de 2025.
- Restrição à investigação: Toffoli inicialmente barrou o acesso dos investigadores ao material apreendido na segunda etapa da operação, o que gerou críticas. Posteriormente, recuou e autorizou o acesso do Ministério Público Federal (MPF) ao material, mas liberou a perícia da PF de forma restrita a apenas quatro agentes indicados por ele.
- Prazos exíguos: Diminuiu de seis para dois dias o prazo para cumprimento de inquirições, período considerado exíguo por integrantes da corporação.
A análise cronológica dos fatos revela um padrão de decisões que geraram insatisfação dentro da Polícia Federal e levantaram suspeitas sobre a imparcialidade do ministro.
As interrogações sobre a relação de Toffoli com Daniel Vorcaro, sua parceria na Maridt, e suas decisões como relator do Caso Master, culminam em um chamado claro para seu afastamento imediato, sob pena de “desmoralização do STF”. A decisão final sobre o encaminhamento da suspeição contra o ministro Dias Toffoli agora está nas mãos do presidente do Supremo, Edson Fachin.
* Reportagem: Val-André Mutran (Brasília-DF), especial para o Portal Ver-o-Fato.















