Às vésperas da COP 30 — o evento global que o governo vende como a “COP da Floresta” — duas mulheres que realmente mantinham a floresta em pé foram brutalmente assassinadas em Novo Repartimento, sudeste do Pará. Enquanto Belém manda instalar tapetes, palcos e discursos sobre proteção ambiental, Antônia Ferreira dos Santos e Marly Viana Barroso foram encontradas mortas em uma área de babaçu, com cortes profundos no pescoço provocados possivelmente por arma branca.
Uma delas, parcialmente despida, pode ter sido vítima de violência sexual. Ao lado dos corpos, restou apenas um monte de frutos de babaçu — testemunho mudo de um trabalho interrompido pela violência.
O Ver-o-Fato apurou que a Polícia Civil instaurou inquérito para investigar o caso, inicialmente tratado como duplo homicídio. De acordo com informações colhidas com a polícia e com familiares, Antônia e Marly saíram de casa na manhã de segunda-feira (3) para coletar amêndoas de coco babaçu em uma área próxima da zona urbana.
Era o trabalho diário delas — quebrar coco, sustentar a família, gerar renda de forma sustentável, sem destruir nada. Quando não retornaram ao meio-dia, a família começou a se preocupar. No fim da tarde, o desespero virou apelos nas redes sociais para encontrá-las.
Por volta das 22h, a tragédia: as duas foram localizadas mortas em uma área rural, a cerca de dois quilômetros da estrada do Polo Pesqueiro, próximo ao matadouro municipal. Uma das vítimas, Antônia Ferreira, estava parcialmente despida, o que levanta a suspeita de violência sexual. Ambas apresentavam ferimentos no pescoço compatíveis com golpes de arma branca.
Entre as pernas de uma delas, um pedaço de madeira — ferramenta usada para quebrar o coco. O instrumento de trabalho virou cena de crime. A Polícia Científica de Tucuruí fez a perícia no local. Os corpos foram removidos ao Instituto Médico Legal (IML). Até a manhã desta terça-feira (4), ninguém havia sido preso.
“Mataram duas guardiãs da floresta”
O Movimento Interestadual das Quebradeiras de Coco Babaçu (MIQCB) divulgou nota pública: “Antônia e Marly trabalhavam honestamente, garantindo o sustento de suas famílias e defendendo a floresta. Esse crime atinge toda a luta das quebradeiras de babaçu: uma violência contra o corpo e a história de quem resiste.”
O movimento exige respostas imediatas: “Cobramos do governo do Pará, das Secretarias de Segurança Pública, da Mulher, da Igualdade Racial e dos Direitos Humanos, e do Ministério Público, a investigação urgente e punição dos responsáveis.”
E encerra com o grito que ecoa entre extrativistas de toda a Amazônia: “Nenhuma mulher deve morrer por buscar o sustento no babaçu.”
Não é tragédia isolada: é padrão de violência
Ano após ano, a Amazônia é vendida ao mundo como capital verde da esperança global. Mas, longe das câmeras, a realidade é outra: mulheres extrativistas trabalham sozinhas, sem proteção; conflitos por terra e por recursos se intensificam; assassinatos de guardiões e guardiãs da floresta seguem impunes.
Antônia e Marly eram aquilo que os discursos oficiais chamam de “protagonistas da bioeconomia”. Mas, quando essas mulheres são assassinadas, o poder público silencia.
O marketing ambiental do governo federal diz: “a floresta está salva”. A realidade diz: a floresta enterra suas mulheres.
Perguntas que precisam ser respondidas
Antes de discursos na COP 30, antes dos anúncios de financiamento climático, antes das fotos com líderes globais, há uma pergunta simples: Como proteger o planeta se o Estado não consegue proteger duas mulheres que estavam quebrando coco? E quem praticou essa barbaridade?
Até o fechamento desta reportagem nenhuma autoridade se manifestou. O espaço permanece aberto. Enquanto isso, no Pará real… Belém se prepara para receber presidentes, bilionários e ONGs internacionais. Novo Repartimento prepara velórios.
Essa é a Amazônia que não aparece nas vitrines da COP.
Casos recentes contra as quebradeiras de babaçu
Assassinato de Maria José Rodrigues e seu filho, José do Carmo Corrêa Júnior: Em novembro de 2021, Maria José, uma quebradeira de coco, e seu filho foram assassinados no município de Penalva, no Maranhão, enquanto realizavam a coleta de coco. O crime ocorreu em uma propriedade privada onde, segundo denúncias do MIQCB e de outras entidades, a palmeira que eles estavam manejando teria sido derrubada intencionalmente por um trator a mando de um fazendeiro que pretendia usar a área para plantar capim.
Tentativa de Homicídio contra Francisca Nascimento: Em março de 2018, Francisca Nascimento, coordenadora geral do MIQCB na época, sofreu uma tentativa de homicídio no Piauí. Esse caso também ilustra os riscos pessoais que as líderes do movimento enfrentam devido à sua atuação na defesa do território.
Conflitos Agrários Generalizados: A violência está inserida no contexto da luta pelo “Babaçu Livre”, que busca garantir o livre acesso das comunidades tradicionais aos babaçuais em áreas públicas e privadas. Fazendeiros frequentemente cercam as áreas de palmeiras para pecuária ou outras monoculturas, impedindo a coleta e gerando conflitos que culminam em ameaças, agressões e, em casos extremos, mortes





