Em um desdobramento grave e de alto impacto, a Polícia Federal (PF) deflagrou na manhã desta terça-feira (16) a Operação Igapó, cumprindo 31 mandados de busca e apreensão no Pará e no Distrito Federal. O alvo principal é o deputado federal Antônio Leocádio dos Santos, o Antônio Doido (MDB-PA), investigado por suspeita de liderar um esquema de desvio de verbas públicas por meio de fraudes em licitações e contratos, incluindo apropriação de emendas parlamentares. Em Belém, um dos alvos, segundo apuração do Ver-o-Fato, seria o secretário estadual de Obras, Rui Cabral.
Os mandados, autorizados pelo ministro Flávio Dino do Supremo Tribunal Federal (STF), miram uma organização criminosa que, segundo a PF, pratica os delitos de corrupção eleitoral, corrupção ativa e passiva, crimes licitatórios, lavagem de dinheiro e organização criminosa. A gravidade dos fatos foi sublinhada por um ato de desespero do parlamentar: durante a busca em seu apartamento funcional em Brasília, policiais federais encontraram celulares jogados pela janela, uma tentativa frustrada de ocultar provas.
O histórico recente do deputado já era marcado por flagrantes de vultosas quantias em dinheiro vivo ligadas ao seu círculo Veja um breve resumo:
Janeiro de 2025: Um assessor de Antônio Doido foi preso em Belém com R$ 1,1 milhão em espécie e em posse de um carro blindado. A prisão ocorreu após o assessor receber o dinheiro de um representante comercial de uma empresa com contratos em prefeituras, levantando suspeitas de pagamento de propina a servidores públicos.
2024 (período eleitoral): Foram apreendidos R$ 4,9 milhões antes do primeiro turno das eleições com um policial militar ligado ao deputado, que havia sacado o dinheiro em uma agência do Banco do Brasil em Castanhal, a 70 km de Belém . O deputado é suspeito de ser o real proprietário dessa quantia.
Além disso, em agosto de 2025, o ministro Flávio Dino já havia determinado a abertura de um inquérito para investigar Antônio Doido por suspeita de desvio de dinheiro de contratos públicos do Governo do Pará, um deles relacionado a uma obra da COP30 em Belém.
A linha tênue entre mandato e crime
A reincidência de grandes apreensões de dinheiro em espécie com pessoas ligadas a Antônio Doido, somada à descoberta dos celulares jogados pela janela durante a operação de hoje, desenha um quadro extremamente preocupante e coeso para os investigadores:
Padrão de conduta: A insistência em movimentar milhões de reais em dinheiro vivo, fora dos canais bancários rastreáveis, é uma marca clássica de lavagem de dinheiro e corrupção. As apreensões anteriores não foram eventos isolados, mas sim indícios de um sistema.
Tentativa de obstrução: O ato de arremessar celulares pela janela é uma evidência gritante de tentativa de obstrução de justiça e desespero em ocultar comunicações cruciais, reforçando a tese de que o parlamentar está ciente e envolvido na estrutura criminosa.
Foco da PF: A Operação Igapó não se concentra apenas no desvio, mas na existência de uma “organização criminosa” integrada por agentes públicos e privados. Isso eleva o patamar da investigação de crimes pontuais para um esquema estruturado dentro da máquina pública do Pará, com ramificações no Distrito Federal.
A menção a “corrupção eleitoral” sugere que os desvios podem ter sido usados para financiar campanhas.
O fato de a investigação ter como alvo um deputado federal em pleno exercício, com autorização do STF, confere a esta operação um peso institucional significativo e levanta sérios questionamentos sobre o uso de verbas e emendas parlamentares em favor de interesses criminosos no estado do Pará.
O Ver-o-Fato tenta contato com Antônio Doido, seus advogados, e também com o secretário Rui Cabral. O espaço está aberto à manifestação.














