Grupo Daabon, da Colômbia, compra Agropalma em crise; Mas há problemas sérios a resolver com a família Tabaranã, dona de 60 mil hectares das terras entre o Acará e Tailândia.
Depois de anos de especulação, negociações discretas e uma longa crise financeira, a venda da Agropalma finalmente foi concretizada. O desfecho do negócio, no entanto, revela o tamanho do tombo de uma das empresas mais emblemáticas do agronegócio na Amazônia: ativos que já chegaram a ser avaliados em mais de 1 bilhão de dólares acabaram negociados por cerca de 10% desse valor — aproximadamente 100 milhões de dólares, algo em torno de R$ 500 milhões no câmbio atual.
O valor real das dívidas da companhia, porém, permanece guardado a sete chaves.
O acordo foi fechado entre duas famílias tradicionais do empresariado latino-americano. De um lado, as herdeiras do banqueiro Aloísio Faria, controladoras da holding Alfapar, dona da Agropalma. De outro, o centenário grupo colombiano Daabon, fundado em 1914 pela família Davila, que agora assume as operações da empresa no Pará em parceria com investidores brasileiros.
O negócio fechado inclui uma refinaria de óleo de palma na Grande Belém, seis extratoras e uma área total de 107 mil hectares, dos quais mais de 40 mil hectares são utilizados para o cultivo da palma de dendê.
“O mundo precisa de um novo lugar para crescer em óleo de palma e o Pará tem esse potencial”, afirmou Jean-Carlo Davila, acionista da Daabon, em entrevista ao site especializado The AgriBiz.
Queda vertiginosa de valor
A venda simboliza o ocaso de um projeto empresarial que durante décadas foi apresentado como modelo de agronegócio sustentável na Amazônia.
No auge, a Agropalma chegou a faturar mais de R$ 1 bilhão por ano. Hoje, o cenário é outro. Documentos financeiros obtidos pelo portal Ver-o-Fato mostram que a empresa registrou prejuízo de R$ 212 milhões no último balanço anual.
A transação com a faz parte de um amplo plano de desinvestimentos da Alfapar, holding que reúne os negócios da família Faria. O processo foi conduzido pelo banco BTG Pactual, assessor exclusivo das cinco herdeiras.
Após a venda das operações no Pará, restará apenas um ativo relevante da antiga estrutura da Agropalma: a refinaria de Limeira, no interior de São Paulo, que também estaria em fase de aquisição pelos colombianos.
A aposta colombiana
Para a Daabon, a aquisição representa uma oportunidade estratégica de expansão internacional.
A empresa colombiana possui uma operação verticalizada em seu país de origem, com refinaria, extratoras e cerca de 30 mil hectares de palma _ menos da metade das terras sob propriedade da família Tabaranã no Pará – , dos quais 12 mil certificados como agricultura orgânica regenerativa. O grupo também mantém uma fábrica de sabonetes na Escócia e uma refinaria de óleo vegetal na Austrália.
A aposta é transformar o Brasil em um protagonista global no mercado de óleo de palma.
“O Brasil pode não apenas ser autossuficiente, mas também um exportador líquido”, afirmou Giancarlo Davila, um dos proprietários do grupo.
Entre os planos está ampliar programas de parceria com agricultores familiares e melhorar a produtividade dos palmares existentes — um dos principais gargalos da operação. A Agropalma gera 5 mil empregos no Pará. A transação com a Daabon deve favorecer o estado com maior arrecadação de impostos.
O grande obstáculo: a questão fundiária
Mas o verdadeiro teste para os novos donos da Agropalma pode não estar no mercado internacional — e sim no próprio chão amazônico.
Dos 107 mil hectares incluídos na negociação, mais de 60 mil pertencem à família Tabaranã, enquanto o restante são terras públicas, incluindo área quilombola e indígena..
Há décadas, essas áreas são alvo de disputas judiciais e administrativas envolvendo a Agropalma. Os herdeiros dos Tabaranã sustentam possuir extensa documentação que comprova a propriedade das terras, enquanto o Ministério Público do Pará acusa a empresa de ter ocupado parte dessas áreas por meio de processos de grilagem iniciados nos anos 1980.
A questão ainda envolve processos judiciais em curso no Pará, em Brasília e uma ação pendente no Superior Tribunal de Justiça.
Além disso, pequenas áreas dentro do complexo também são ocupadas por comunidades quilombolas, cujas reivindicações territoriais seguem judicializadas.
Prazo apertado e risco para o negócio
Esse conjunto de pendências não é um detalhe burocrático — pode se tornar um problema decisivo.
Segundo apuração do Ver-o-Fato, os novos controladores terão até três meses para resolver ou encaminhar essas questões, prazo estimado para que a operação seja oficialmente comunicada ao mercado de capitais brasileiro como fato relevante.
Se não houver uma solução negociada com a família Tabaranã e avanço nas disputas fundiárias, o negócio pode enfrentar contestações jurídicas capazes de comprometer a própria segurança da aquisição.
Um império em ruínas
A venda da Agropalma, portanto, marca mais do que uma mudança de controle empresarial. Ela exibe a queda de uma companhia que já foi símbolo de prosperidade no agronegócio amazônico e que agora troca de mãos fortemente desvalorizada, cercada de dívidas e sob o peso de um passivo fundiário ainda não resolvido.















