Bloqueio da proteína interrompe divisão de células tumorais e pode impedir que o câncer se espalhe pelo organismo
Brasília – Pesquisadores da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) publicaram um estudo que pode representar um divisor de águas no tratamento oncológico. A equipe identificou que a proteína sindecam-4 (SDC4), presente na superfície das células, atua como um escudo que protege células tumorais quando elas se desprendem do tecido de origem e passam a circular pelo organismo. Ao silenciar essa proteína em laboratório, os cientistas interromperam a divisão das células cancerosas e eliminaram sua capacidade de formar metástases.
Metástase é o processo pelo qual células cancerosas se desprendem do tumor original (primário), viajam pelo corpo — geralmente pela corrente sanguínea ou pelo sistema linfático — e formam novos tumores em outros órgãos ou tecidos.
O trabalho, financiado pela FAPESP e publicado na Cytotechnology, integra uma onda de descobertas que, nos últimos 18 meses, convergiu para um mesmo ponto: proteínas específicas desempenham papéis decisivos na biologia do câncer — como facilitadoras do tumor ou como potenciais alvos terapêuticos.
Estudo brasileiro pesquisou atuação da proteína SDC4
O câncer é a segunda principal causa de morte no mundo, com cerca de 10 milhões de óbitos anuais, segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS). No Brasil, o Instituto Nacional de Câncer (INCA) estima 704 mil casos novos por ano até 2025. A busca por alvos moleculares precisos — moléculas cujo bloqueio interrompa o crescimento tumoral — tornou-se prioridade na oncologia.
As proteínas estão no centro desse esforço: quando uma delas funciona de forma anômala, pode contribuir diretamente para o tumor. Cada nova proteína identificada representa uma oportunidade de intervenção.
A SDC4 é um exemplo. Células normais que se desprendem do tecido de origem ativam um mecanismo natural de autodestruição chamado anoikis. As cancerosas conseguem desativá-lo — e a SDC4 é peça-chave nessa resistência.
“Ao inibir a SDC4, as células tumorais perdem essa proteção e se tornam vulneráveis”, explicou a equipe da Unifesp. O próximo passo é investigar se o canabidiol pode interferir na atividade da proteína em células resistentes.
A explosão de descobertas
Em fevereiro de 2026, a Nature publicou pesquisa da Universidade de Nova York (NYU) identificando a lipocalina 2 (LCN2) como proteína que ajuda tumores a se esconder do sistema imunológico. Ao bloqueá-la com anticorpo específico, o crescimento de tumores de pulmão e pâncreas em camundongos foi retardado significativamente, e a combinação com imunoterapia potencializou o efeito.
No mesmo mês, estudo do MD Anderson Cancer Center e da Universidade Técnica de Munique mostrou que inibir a proteína FSP1 torna células de melanoma metastático mais suscetíveis à ferroptose — morte celular dependente de ferro. A descoberta é relevante porque o melanoma é um dos cânceres mais resistentes.
Em julho, outro estudo apoiado pela FAPESP identificou a RASGRP4 como essencial para ativar via molecular associada ao câncer. Sua remoção em camundongos reduziu a frequência e o crescimento de tumores.
Em fevereiro, cientistas brasileiros também revelaram novas funções das proteínas STIP1 e maspina, que podem servir como biomarcadores para diagnóstico precoce ou alvos terapêuticos.
O outro lado: proteína na dieta e risco de câncer
Paralelamente, um debate antigo segue sem consenso: o consumo de proteína na alimentação aumenta ou reduz o risco de câncer?
Em setembro de 2025, um estudo controverso sugeriu que a proteína animal poderia, em certos contextos, proteger contra mortes por câncer — conclusão recebida com cautela por oncologistas, que apontaram limitações metodológicas.
O consenso científico ainda pende para a posição oposta. Meta-análise de 2020 no British Medical Journal concluiu que o consumo de proteína vegetal está associado a risco 8% menor de mortalidade geral, enquanto a proteína animal não apresentou o mesmo efeito.
Estudo de 2014 na Cell Metabolism com mais de 6 mil americanos acompanhados por 18 anos mostrou que o alto consumo de proteína — especialmente animal — está ligado a maior risco de câncer, diabetes e mortalidade em pessoas com até 65 anos. O mecanismo envolve o IGF-1, hormônio estimulado pela ingestão proteica que, em níveis elevados, acelera a proliferação celular. Em maiores de 65 anos, porém, a associação desaparece — possivelmente porque a preservação muscular nessa faixa etária contrabalança os riscos.
O INCA classifica a alimentação inadequada como a segunda causa evitável de câncer, atrás do tabagismo, e recomenda dieta baseada em vegetais, com moderação em carnes vermelhas e processadas.
Caminho promissor
As descobertas recentes apontam para uma realidade cada vez mais complexa. No plano molecular, SDC4, LCN2, FSP1 e RASGRP4 abrem caminho para novas classes de medicamentos — mas todas ainda estão em fase pré-clínica. O salto do laboratório para ensaios clínicos em humanos levará anos e exigirá investimentos substanciais.
No campo da nutrição, a recomendação oficial permanece estável: alimentação equilibrada, rica em vegetais, com moderação em proteína animal. O INCA alerta contra dietas milagrosas que prometem “curar” o câncer, prática que pode levar pacientes a abandonar tratamentos comprovados.
A frase “proteína pode ser a chave contra o câncer” carrega duas verdades científicas que operam em níveis distintos. No plano molecular, proteínas específicas emergem como alvos promissores para terapias inovadoras.
No plano alimentar, o tipo e a quantidade de proteína seguem como fatores de risco modificáveis, ainda que cercados de controvérsias. O desafio da próxima década será traduzir esse conhecimento acumulado em benefícios concretos para os pacientes.
* Reportagem: Val-André Mutran (Brasília-DF), especial para o Portal Ver-o-Fato.















