Tereza Cristina admite disputar a presidência do Senado em 2027, e Rogério Marinho avalia quem teria mais votos para superar o político do Amapá
Brasília – A senadora Tereza Cristina (PP-MS) admitiu a possibilidade de disputar a presidência do Senado em 2027 e defendeu que a direita evite dividir forças na eleição para o comando da Casa. A declaração foi feita durante almoço na Casa Parlamento, espaço de debates da Esfera Brasil, em Brasília, e ocorre em meio à articulação que já movimenta o Congresso para a sucessão, prevista para 1º de fevereiro de 2027. A parlamentar, que foi ministra da Agricultura no governo de Jair Bolsonaro (PL), afirmou ter “ousadia” para tentar se tornar a primeira mulher a presidir o Senado Federal.
Ao falar da disputa, Tereza Cristina afirmou que ela e o senador Rogério Marinho (PL-RN), também cotado para concorrer, devem avaliar quem reúne melhores condições de vencer.
“A direita tem que fazer o que não está fazendo agora. Ela tem que sentar e ver quem tem mais chances, quem tem mais votos. Então, se vai ser esse o quadro, eu acho que nós temos que ter juízo, eu e ele”, declarou. A fala reflete a preocupação de que uma eventual divisão de votos entre candidatos do mesmo campo fragilize a oposição diante do atual presidente da Casa, Davi Alcolumbre (União-AP), que deve concorrer a um novo mandato.
Marinho é o atual líder da oposição e já disputou a presidência do Senado em 2023, quando recebeu 32 votos e foi superado pelo mineiro Rodrigo Pacheco, reeleito com o apoio de 49 senadores. A lembrança do resultado anterior reforça o argumento da senadora de que a direita precisa chegar unida ao pleito para ter chance real de conquistar o comando da Casa.

Candidatura ainda em aberto
Tereza Cristina não confirmou que será candidata e condicionou a decisão à composição do Senado após as eleições deste ano. “Eu não sou mais menina, né? Eu tenho obrigação de fazer a leitura do que vem e ver o que é melhor”, disse. A senadora ponderou que ainda é difícil estimar o tamanho da mudança de forças na Casa, especialmente porque cada estado escolherá dois senadores. “Sempre o Senado é o último voto do eleitor, é a última escolha que ele faz. Numa eleição de dois senadores, ela é mais complicada ainda, porque você nunca sabe quem será o segundo voto do eleitor”, explicou.
Apesar da cautela, Tereza demonstrou confiança no avanço da direita. “Tudo indica que o Senado irá mais à direita”, afirmou. A avaliação encontra eco em articulações relatadas pelas pesquisa de opinião pública, que apontam a rejeição de setores bolsonaristas a Alcolumbre e a movimentação para tentar “tomar” o Senado em 2027. Ao mesmo tempo, o atual presidente da Casa busca apoio do governo para se manter no comando, em uma disputa tendo Alcolumbre como possível “fiel da balança”, com cerca de dez votos sob sua influência caso não seja candidato à reeleição.
Relação com Alcolumbre e recusa à chapa de Flávio Bolsonaro
Sobre o atual presidente do Senado, Tereza Cristina foi elogiosa. “O Davi é um dos que eu gosto muito, tenho muito respeito, tenho uma relação ótima com ele”, afirmou. A declaração contrasta com o tom de parte da oposição e sugere que a senadora não descarta um diálogo com o bloco governista na construção de uma eventual candidatura.
O movimento de Tereza em direção à presidência da Casa ganhou contornos mais claros após a recusa em compor a chapa presidencial de Flávio Bolsonaro (PL-RJ) como vice. O presidente do PL, Valdemar Costa Neto, confirmou em julho que a senadora prioriza a candidatura à Presidência do Senado, mantendo conversas com partidos para compor a chapa. A decisão foi interpretada como uma aposta da parlamentar em um projeto próprio de poder dentro do Senado, em vez de um papel secundário na disputa pelo Palácio do Planalto.
Crítica à agenda do Congresso
Além da sucessão na Mesa, Tereza Cristina aproveitou o encontro para criticar a agenda em discussão no Congresso Nacional. A senadora afirmou que parte dos projetos em análise atende a interesses eleitorais ou de setores específicos, enquanto falta um debate mais amplo sobre os rumos do Brasil. “E o Brasil, coitado, ninguém fala do país. Nós estamos com projetos ou eleitoreiros, ou titulares, ou de certos setores. Mas, assim, a gente precisa pensar mais no país”, declarou.
Para a senadora, o Congresso precisa discutir com mais clareza quais são os objetivos estratégicos do país, principalmente diante das transformações no cenário internacional. A ausência de uma direção mais clara, segundo ela, dificulta a construção de uma agenda de longo prazo e faz com que interesses eleitorais ou setoriais ganhem espaço no debate político. Tereza também defendeu maior participação da iniciativa privada na cobrança ao Congresso por projetos voltados ao desenvolvimento do país, em uma sinalização de que a pauta econômica deve ocupar o centro de sua eventual gestão à frente da Casa.
Disputa em construção
A eventual candidatura de Tereza Cristina insere-se em um cenário de disputa acirrada pelo comando do Senado, cuja eleição ocorrerá apenas em fevereiro de 2027, mas que já mobiliza articulações em Brasília. O resultado terá impacto direto sobre a pauta legislativa, a relação entre os Poderes e a abertura de processos contra ministros do Supremo Tribunal Federal por crime de responsabilidade, atribuição do presidente da Casa. A possibilidade de uma primeira mulher no comando do Senado, caso a candidatura se confirme, também carrega peso simbólico e político relevante, embora a senadora tenha sido cautelosa ao tratar o tema como uma meta pessoal de “ousadia”.
A definição do nome da direita, contudo, segue em aberto e dependerá tanto do resultado das urnas quanto da capacidade de Tereza e Marinho de chegarem a um entendimento. A senadora demonstrou otimismo quanto a esse acordo. “Eu acho que a gente vai fazer isso”, afirmou, referindo-se à avaliação conjunta das condições de cada um. A resposta, no entanto, só virá com a composição final do Senado, que definirá se a direita terá força suficiente para disputar o comando da Casa com uma candidatura unificada ou se a divisão interna voltará a favorecer a permanência do atual presidente.
* Reportagem: Val-André Mutran (Brasília-DF), especial para o Portal Ver-o-Fato.















