Era para ser uma tarde qualquer de agosto de 2020, mas o destino escolheu o bairro Cristo Vive como palco de uma tragédia. Izaias Faustino, homem simples, foi buscar a esposa e o filho para um lanche, sem imaginar que o amor, já desgastado pela desconfiança, o conduziria a um confronto sangrento. Ao entrar no salão de beleza, na Rua Jonas, ele buscava apenas um carrinho de brinquedo esquecido. Encontrou, porém, algo muito mais devastador: sua mulher com outro homem, Benedito Augusto Moreira Mendes.
A cena, digna de um drama grego, explodiu em segundos. Segundo os autos, Benedito, tomado pela provocação, lançou insultos cruéis: “Tu é muito de um chifrudo.” Em seguida, a ameaça — “Tu vais morrer, seu chifrudo” — e o brilho frio de uma faca na mão.
O que aconteceu depois se tornou o centro de um processo criminal que só foi resolvido nesta terça-feira, 11 de novembro, diante do Tribunal do Júri. Izaias, ferido no braço ao tentar se proteger, conseguiu tomar a arma do agressor e reagiu. O golpe fatal, segundo a defesa, não nasceu do ódio, mas do instinto: um homem tentando sobreviver.
A esposa, testemunha e elo entre os dois, levou Izaias à UPA. Lá, ele foi atendido — e preso em flagrante.
Quatro anos depois, o caso foi julgado numa sessão tensa, repleta de olhares duros e silêncios cortantes. O plenário parecia dividido entre o escândalo da traição e a compreensão da dor humana. O juiz Claudio Sanzonowicz Junior presidiu a sessão. À frente da acusação, o promotor Luiz Alberto Almeida Presotto sustentou que Izaias deveria pagar com a prisão pelo sangue derramado.
Do outro lado, uma equipe de defesa do escritório Teixeira e Freires, formada pelos advogados Diego Adriano Freires, Kewin William Damasceno, Thiago Pires Alves, e pelos acadêmicos Eduardo Gomes, Elinelson Cruz, Isis Sampaio e Jhavas Luan, construiu a narrativa da legítima defesa: um homem acuado, insultado, ferido e forçado a lutar pela própria vida.
Foram horas de debate. Argumentos cruzavam o salão do júri como lâminas afiadas. Quando o silêncio voltou e o Conselho de Sentença se retirou para decidir, o destino de Izaias pendia no fio da memória de um momento de fúria e medo.
Ao final, os jurados acolheram a tese da defesa. Reconheceram que Izaias não agiu por ódio, mas por instinto. Que a faca, naquela tarde, era antes de tudo uma fronteira entre a vida e a morte.
O veredito foi de absolvição.
Izaias Faustino deixou o tribunal como um homem livre — marcado por cicatrizes que a Justiça pode reconhecer, mas que o coração, talvez, jamais esqueça.















