O belenense Henrique Américo Santa Rosa, aos 25 anos de idade, não somente já obtivera o diploma de engenheiro civil na mais prestigiada escola superior de sua área, a Politécnica, do Rio de Janeiro.
Como já exercia o cargo de engenheiro-auxiliar da Seção de Obras do Estado do Pará.
E era um militante da causa republicana no Pará.
Nesta última condição, ele participou naquele ano de 1886 da reunião de fundação do Clube Republicano do Estado.
Ao lado de Paulo Bolonha de Loureiro, pai de Francisco Bolonha.
Assim, neste contexto, Santa Roda pôde, indiretamente, preparar as condições para ocupar o cargo correspondente hoje ao de Secretário Estadual de Obras Públicas.
E, se manter, assim, no topo da carreira de engenheiro do setor público do Pará por um tempo tão longo que jamais seria superado.
Nada menos que 22 anos.
Ao longo deste período, Santa Rosa comandou a realização de umnúmero impressionante de obras públicas.
Uma enorme lista que pôde ser apreciada no levantamento de todas as obras públicas do Estado, ao longo de 129 anos da História do Pará, realizado pelo historiador Ernesto Cruz.
Cruz precisou de 1004 páginas para imprimir seu trabalho no volumoso livro “As Obras Públicas do Pará”, editado em dois volumes.
Deste total de páginas, 361 foram preenchidas somente com as obras sob comando de Santa Rosa.
Em 1919, quando ele presidiu o Clube de Engenharia do Pará, Santa Rosa estava na sexta das suas nove gestões frente ao órgão estadual.
Sua carreira era sustentada por uma grande dosagem de inteligência, e,por um conhecimento profundo da profissão de engenheiro.
Qualidades reconhecidas até em documentos oficiais de anos posteriores, como, por exemplo, o relatório anual do governador Dionísio Bentes, de 7 de setembro de 1925.
Mas, sua longa permanência no cargo, mantido ao longo de oito mandatos de diferentes governadores do Pará, se deveu, também, por circunstâncias políticas favoráveis a ela.
Por isto, fica difícil entendê-la sem reconstituir o momento da História Política do Pará, ao final da década de 80, do século XIX.
Na realidade, quatro destes governadores – Justo Chermont, Gentil Bittencourt, Lauro Sodré e Paes de Carvalho –, foram membros, do Clube Republicano, de 1886, como Santa Rosa.
E, com ele, executaram tarefas como a de redigir o jornal A República.
Eles e Santa Rosa se revezaram nas ocupações dos cargos de quatrodiretorias do Clube Republicano.
Na última delas, empossada em abril de 1889, e, presidida por Justo Chermont, Santa Rosa foi vice-presidente.
Até que, com a Proclamação da República, no dia 15 de novembro de 1889, este grupo de jovens republicanos tomou o poder no Pará,derrubando o último presidente da província, Silvino Cavalcanti de Albuquerque.
Secretário de confiança do governador
Não surpreende, portanto, que Santa Rosa, aos 30 anos de idade, aparecesse no cargo de Diretor da Seção de Obras Públicas, um ano e meio depois da Proclamação da República, no relatório com o qual Heutde Bacelar passou o governo do Pará para Lauro Sodré.
Detalhes de como a Seção de Obras Públicas funcionou sob o comando de seu jovem diretor apareceram no relatório do segundo ano do governo de Lauro Sodré.
Àquela altura do ano de 1893, a confiança no desempenho de Santa Rosa era possível observar na ampliação das responsabilidades conferidas àSeção de Obras Públicas, comandada por ele.
A repartição passou a cuidar também de novas áreas da administração do Estado.
Seu novo nome, por esta razão, passou a ser Repartição de Obras Públicas, Terras e Colonização.
A área da repartição dedicada especificamente às obras públicas, na primeira gestão de Santa Rosa passou a contar com a atuação de outro jovem engenheiro brilhante, Victor Maria da Silva.
O setor cuidava de obras executadas “por administração” do próprio Estado.
Assim, foram assim executadas as obras da Penitenciária, do LyceuParaense, da Escola Normal, do Palácio do Governo e do prédio comprado do Banco Comercial, na Travessa Campos Sales, no qual seria instalado a Biblioteca Pública,
Mas cuidava também de obras feitas “por empreitadas” e “por arrematação”
“Arrematação” era o nome que se dava a uma espécie de leilão no qual empreiteiros, credenciados na Procuradoria Fiscal do Tesouro, faziam lances com abatimentos crescentes no valor a ser cobrado por determinada obra.
No relatório do segundo ano da administração de Lauro Sodré foi incluída uma carta dirigida ao governador por Santa Rosa.
Nela, o jovem engenheiro demostrou sua seriedade, trazendo à tona suaspreocupações com o que considerava dois males crônicos existentes na sua profissão, no Pará.
Santa Rosa se referia à falta de livros especializados e à escassez de equipamentos.
Ele disse, na carta:
“Por demais lamentável se torna nesta seção a carência de livros técnicos modernos, de modo a só poderem os engenheiros recorrer em seus estudos aos próprios livros de que dispunha cada um.
Felizmente, porém, a autorização que me destes para fazer a aquisição de diversas obras até o valor de 4:000$000 réis e que já dei cumprimento vai sanar parcialmente esta falta.
De modo que a seção dispõe atualmente de uma pequena biblioteca jábastante aproveitável.
Outro tanto, porém, não posso eu dizer quanto à falta de instrumentos que continua a subsistir e que é indispensável superar.
Não é possível empreender certos estudos sem que disponha a seção de bússolas, teodolitos, níveis, taqueômetros e outros instrumentos.
Assim, como torna-se sempre vicioso e falso qualquer estudo sobre fundações, sem o exame primordial por meio de aparelhos de sondagem, cuja aquisição não se deve mais adiar”.
Felizmente, para compensar um pouco estas lacunas apontadas por ele, Santa Rosa pôde ver introduzido na sua equipe de trabalho, outro engenheiro profissional que iria ganhar destaque no Pará, Raimundo Tavares Vianna.
Trio de profissionais brilhantes
Assim, entre as 16 pessoas nomeadas para compor uma comissão incumbida de a tarefa de calcular o valor da Companhia das Águas, durante o processo de desapropriação, o governo de Lauro Sodré pôde contar com Santa Rosa, Victor Maria e Vianna.
Quando este processo foi concluído, a empresa, já sob gerência do Estado, se tornou a Inspetoria das Águas.
Victor Maria assumiu sua direção.
E, Raimundo Vianna o substituiu um ano depois.
Pouco tempo depois, de novo o trio de engenheiros -Vianna, Santa Rosa e Victor Maria – se juntou em outra comissão.
Desta vez, criada pelo governo do Pará para arbitrar uma pendenga surgida entre a diretoria da Estrada de Ferro de Bragança e o empreiteiro encarregado das obras de prolongamento da via férrea até Salinas, major Afonso de Albuquerque Maranhão.
O litígio relacionava-se às medidas e à classificação das obras executadas.
Novos revezamentos entre os três engenheiros ocorreriam, no futuro.
Uma destas vezes aconteceu, em 1899.
Santa Rosa foi afastado da direção da Repartição de Obras Públicas, ao ser nomeado pelo governador Paes de Carvalho para a função de delegado do Pará na negociação do acordo de fixação de limites com o estado do Amazonas.
Para substituí-lo o governador nomeou Victor Maria.
Quanto a Raimundo Vianna, neste mesmo ano, ele se separou dos seus dois companheiros, após assinar um importante contrato com a Intendência de Belém, junto com o engenheiro Bento Miranda.
Pelo contrato ambos assumiram o compromisso de construir o Mercado de Ferro do Ver-o-Peso, uma obra que até hoje ajuda a compor a imagem da cidade, vista de fora do estado.
Mas, também os nomes de Victor Maria e de Santa Rosa se engradeceram, separadamente, depois.
Victor Maria quando se tornou o engenheiro responsável pelas obras derefinamento e sofisticação do Teatro da Paz, pagas com recursos da exportação da borracha, na Belle Époque paraense.
Foram estas obras que tornaram a casa de espetáculo dotada de grande beleza
E Santa Rosa, quando salvou, em 1927, o Palácio Antônio Lemos da demolição a que ele parecia condenado pela lama do Alagado do Piri.
A lama vinha da margem da Baía do Guajará, atravessava o Largo do Relógio e a Largo do Palácio e atingia a estrutura subterrânea do Palácio Antônio Lemos, comprometendo sua estabilidade.
Santa Rosa tinha, então, 67 anos de idade, e, havia atuado nos serviços públicos do Pará, por mais de quatro décadas.
(Ilustração: Mercado de Ferro do Ver-o-Peso, hoje, na foto da Agência Pará)
Three engineers helped Belém to have a
beautiful iron market, theater, and palace.
The native of Belém, Henrique Américo Santa Rosa, at 25 years of age, had not only already obtained his civil engineering degree from the mostprestigious higher education institution in his field, the PolytechnicSchool of Rio de Janeiro.
He was also serving as assistant engineer in the State of Pará’s PublicWorks Section.
And he was a militant in the republican cause in Pará.
In this last capacity, he participated in 1886 in the founding meeting ofthe Republican Club of the State. Alongside Paulo Bolonha de Loureiro, father of Francisco Bolonha.
Thus, in this context, Santa Rosa was able, indirectly, to prepare theconditions to occupy the position corresponding today to that of StateSecretary of Public Works.
And to remain, therefore, at the top of the engineering career in Pará’spublic sector for a period so long that it would never be surpassed.
No less than 22 years.
Throughout this period, Santa Rosa oversaw the execution of animpressive number of public works.
A vast list that could be appreciated in the survey of all public works ofthe State over 129 years of Pará’s history, carried out by historianErnesto Cruz.
Cruz needed 1004 pages to print his work in the voluminous book As Obras Públicas do Pará, published in two volumes.
Of this total, 361 pages were filled solely with works under Santa Rosa’scommand.
In 1919, when he presided over the Engineering Club of Pará, Santa Rosa was in the sixth of his nine terms heading the state body.
His career was sustained by a great measure of intelligence and by a profound knowledge of the engineering profession.
Qualities recognized even in official documents of later years, such as the annual report of Governor Dionísio Bentes, dated September 7, 1925.
But his long permanence in office, maintained over eight terms underdifferent governors of Pará, was also due to political circumstancesfavorable to him.
For this reason, it is difficult to understand it without reconstructing themoment of Pará’s political history at the end of the 1880s.
In fact, four of these governors — Justo Chermont, Gentil Bittencourt, Lauro Sodré, and Paes de Carvalho — were members of the RepublicanClub of 1886, like Santa Rosa.
And, with him, they carried out tasks such as drafting the newspaper A República.
They and Santa Rosa alternated in occupying positions in the four directorates of the Republican Club.
In the last of these, inaugurated in April 1889 and presided over by Justo Chermont, Santa Rosa was vice-president.
Until, with the Proclamation of the Republic on November 15, 1889, thisgroup of young republicans seized power in Pará, overthrowing the lastprovincial president, Silvino Cavalcanti de Albuquerque.
Trusted Secretary of the Governor
It is not surprising, therefore, that Santa Rosa, at 30 years of age, appeared in the position of Director of the Public Works Section, a yearand a half after the Proclamation of the Republic, in the report withwhich Heut de Bacelar handed over the government of Pará to Lauro Sodré.
Details of how the Public Works Section functioned under the commandof its young director appeared in the report of the second year of Lauro Sodré’s government.
By that time, in 1893, confidence in Santa Rosa’s performance could beobserved in the expansion of the responsibilities assigned to the PublicWorks Section, under his command.
The department also began to oversee new areas of state administration.
Its new name, for this reason, became the Department of Public Works, Lands, and Colonization.
The division specifically dedicated to public works, during Santa Rosa’sfirst term, came to include the work of another brilliant young engineer, Victor Maria da Silva.
The sector handled projects executed “by administration” of the Stateitself.
Thus, works such as the Penitentiary, the Lyceum of Pará, the Normal School, the Government Palace, and the building purchased from theCommercial Bank on Travessa Campos Sales, where the Public Library would be installed, were carried out in this way.
But it also dealt with works carried out “by contract” and “by auction.”
“Auction” was the name given to a kind of bidding process in whichcontractors, accredited by the Treasury’s Fiscal Attorney’s Office, madeoffers with progressively lower discounts on the amount to be chargedfor a given project.
In the report of the second year of Lauro Sodré’s administration, a letteraddressed to the governor by Santa Rosa was included.
In it, the young engineer demonstrated his seriousness, bringing to light his concerns about what he considered two chronic problems in hisprofession in Pará.
Santa Rosa referred to the lack of specialized books and the scarcity ofequipment.
He said in the letter:
“It is most regrettable in this section the lack of modern technical books, so that engineers can only resort in their studies to the books each onepersonally possesses.
Fortunately, however, the authorization you gave me to acquire severalworks up to the value of 4:000$000 réis, which I have already carriedout, will partially remedy this deficiency.
Thus, the section currently has a small library already quite useful.
The same, however, I cannot say regarding the lack of instruments, which continues to exist and which is indispensable to overcome.
It is not possible to undertake certain studies without the section havingcompasses, theodolites, levels, tacheometers, and other instruments.
Thus, any study on foundations always becomes flawed and false without the essential examination through sounding devices, whoseacquisition should no longer be postponed.”
Fortunately, to somewhat compensate for these shortcomings he pointedout, Santa Rosa was able to see another professional engineer introducedinto his team, Raimundo Tavares Vianna, who would later gainprominence in Pará.
Trio of Brilliant Professionals
Thus, among the 16 people appointed to form a commission tasked withcalculating the value of the Water Company during the expropriationprocess, Lauro Sodré’s government was able to count on Santa Rosa, Victor Maria, and Vianna.
When this process was concluded, the company, already under statemanagement, became the Water Inspectorate.
Victor Maria assumed its direction.
And Raimundo Vianna replaced him a year later.
Shortly afterward, once again the trio of engineers — Vianna, Santa Rosa, and Victor Maria — joined together in another commission.
This time, created by the government of Pará to arbitrate a dispute thathad arisen between the board of the Bragança Railway and the contractorin charge of extending the railway line to Salinas, Major Afonso de Albuquerque Maranhão.
The dispute was related to the measurements and classification of theworks carried out.
New alternations among the three engineers would occur in the future.
One of these times happened in 1899.
Santa Rosa was removed from the direction of the Department of PublicWorks when he was appointed by Governor Paes de Carvalho as Pará’sdelegate in the negotiation of the boundary agreement with the state ofAmazonas.
To replace him, the governor appointed Victor Maria.
As for Raimundo Vianna, in that same year, he parted ways with his twocompanions after signing an important contract with the Municipality ofBelém, together with engineer Bento Miranda.
By this contract, both undertook the commitment to build the Iron Market of Ver-o-Peso, a project that to this day helps shape the image ofthe city as seen from outside the state.
But the names of Victor Maria and Santa Rosa were also later elevatedseparately.
Victor Maria when he became the engineer responsible for therefinement and sophistication works of the Teatro da Paz, funded byrubber export revenues during Pará’s Belle Époque.
These works endowed the theater with great beauty.
And Santa Rosa, when in 1927 he saved the Antônio Lemos Palace fromdemolition, to which it seemed condemned by the mud of the Alagado do Piri.
The mud came from the bank of the Guajará Bay, crossed Largo do Relógio and Largo do Palácio, and reached the underground structure ofthe Antônio Lemos Palace, compromising its stability.
Santa Rosa was then 67 years old and had served in Pará’s public worksfor more than four decades.
(Illustration: Ver-o-Peso Iron Market today, in a photo by Agência Pará.)














