O debate sobre terrorismo ultrapassou as salas acadêmicas e entrou no cotidiano das famílias brasileiras. A escalada da violência, a presença ostensiva de facções armadas e os recentes ataques coordenados nas grandes cidades transformaram o tema em uma questão central da agenda pública. O país se vê dividido entre o discurso técnico do governo federal — que define terrorismo apenas como ato com motivação ideológica, política ou religiosa — e a percepção prática de governadores e população, que enxergam nas facções criminosas um verdadeiro terrorismo urbano: um regime de medo estruturado, com hierarquia, comando, contabilidade e controle territorial.
Para quem vive sob o domínio das facções, a distinção teórica é irrelevante. Ônibus incendiados, escolas fechadas, transporte interrompido e famílias trancadas em casa traduzem o mesmo efeito: o terror. A autoridade do Estado é frequentemente substituída por regras impostas pelos chamados “tribunais do crime”, que definem punições, resolvem disputas e impõem normas.
Facções como o Comando Vermelho e o Primeiro Comando da Capital deixaram de ser meras redes de tráfico; tornaram-se sistemas paralelos de poder que regulam territórios, administram a vida comunitária e transformam o medo em ferramenta de gestão social.
A recente megaoperação policial no Rio de Janeiro, nos complexos da Penha, Alemão e Baixada Fluminense, reacendeu o debate sobre a presença do Estado e a retomada de territórios dominados pelo medo. Pesquisas indicam apoio popular significativo: segundo a AtlasIntel (29–30 de outubro de 2025), 55,2% dos brasileiros aprovam a operação — índice que chega a 87,6% entre moradores de favelas. A pesquisa Quaest/Genial Investimentos (30–31 de outubro) mostra que 64% dos fluminenses aprovam a megaoperação, e 73% defendem ações semelhantes.
Esses números sugerem que a população mais próxima da violência cotidiana apoia firmemente a presença do Estado — não apenas como força repressiva, mas como garantidor de políticas públicas integradas, incluindo saúde, educação, transporte, saneamento e oportunidades sociais.
A estrutura do crime organizado no Brasil
O crime organizado evoluiu para além do tráfico de drogas. Trata-se de um sistema paralelo de poder, com lógica empresarial, hierarquia rígida, regras próprias, controle territorial e finanças organizadas. Em diversas favelas, os tribunais do crime administram a vida comunitária, impõem punições e regulam conflitos, funcionando como um Estado paralelo onde o Estado oficial não chega.
Combater essa estrutura exige inteligência, coordenação entre forças estaduais e federais e desarticulação das finanças das facções. Contudo, a repressão técnica, sem presença social, gera apenas vazios temporários, rapidamente ocupados novamente pelo crime.
O avanço híbrido do crime na Amazônia
A Amazônia Legal tornou-se eixo estratégico do crime organizado transnacional e doméstico, com um modelo híbrido que transcende o tráfico de drogas e se enraíza na economia ilícita da floresta. Facções como PCC e CV disputam o controle das rotas fluviais e terrestres, essenciais para o narcotráfico, especialmente da cocaína proveniente dos países andinos (UNODC, 2021).
Além do narcotráfico, essas organizações se envolvem em crimes ambientais — o “narcogarimpo” e o “narcodesmatamento” — utilizando mineração ilegal e exploração madeireira para lavar dinheiro e financiar operações, impondo terror e controle social sobre comunidades tradicionais e áreas de conservação (FBSP, 2023; CNN Brasil, 2024). Essa sobreposição de ilícitos aumenta a violência letal na região, afetando desproporcionalmente comunidades ribeirinhas e indígenas.
O dilema da narrativa e a presença do Estado
Muitas vezes, o debate sobre violência urbana apresenta os traficantes como “vítimas do sistema”, como se o contexto social ou econômico justificasse a imposição do terror. Essa narrativa inverte os papéis. As verdadeiras vítimas são os cidadãos que vivem sob medo constante, com rotinas interrompidas, famílias ameaçadas e comunidades controladas por regras impostas pelos tribunais do crime.
Todas as ações contra o crime organizado são necessárias e estratégicas: uso da inteligência, integração das forças de segurança e desarticulação financeira das facções. Mas nada disso pode justificar a ausência física do Estado nas ruas. A presença deve ser cotidiana e visível, combinando repressão, políticas públicas e ocupação territorial. Um discurso técnico ou estratégico não substitui a presença real do Estado, protegendo a população e garantindo ordem e direitos.
Caminhos para uma ação integrada
O desafio é político e civilizatório: reconstruir a autoridade legítima do Estado onde foi substituída pela força. Isso exige: Integração de políticas sociais: saúde, educação, transporte e saneamento como ferramentas de prevenção.
Presença permanente do Estado: policiamento comunitário e fortalecimento das instituições locais.
Inteligência e cooperação entre esferas federais e estaduais: desarticulando estruturas financeiras e logísticas das facções.
Envolvimento da sociedade civil e comunidades locais: fortalecendo redes de proteção social e resiliência comunitária.
Segurança sem cidadania é apenas trégua; com cidadania, torna-se futuro sustentável.
- Manoel Alves da Silva é sociólogo e doutor em Ciências Socioambientais















