O Brasil encontra-se diante de uma janela de oportunidade histórica e com prazo determinado para deixar de ser um mero espectador geológico e se transformar em uma potência industrial de minerais críticos. Com a segunda maior reserva mundial de elementos de terras raras (ETR) — detendo aproximadamente 25% da dotação global conhecida, atrás apenas da China —, o país produziu em 2024 uma parcela incipiente de 0,15% do total mundial e manteve participação nula no refino desses materiais.
Para enfrentar esse hiato e traçar uma rota de soberania tecnológica, o Centro de Gestão e Estudos Estratégicos (CGEE), organização vinculada ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), coordenou o estudo detalhado “Terras Raras no Brasil: Estado da arte, cenários e um mapa do caminho estratégico para 2026-2040”.
Abaixo, detalhamos como os autores do estudo entendem que deve ser o desenho estratégico, o caminho para o desenvolvimento da cadeia, as localizações das reservas e, fundamentalmente, os complexos desafios ambientais que o país precisa superar.
O diagnóstico: O poder não está na rocha, mas no refino
O ponto de partida dos especialistas do CGEE é uma diferenciação conceitual rígida: o poder geopolítico e econômico nesta cadeia não decorre da posse de recursos naturais (upstream), mas sim do domínio tecnológico das etapas de processamento e manufatura avançada (midstream e downstream).
Enquanto o concentrado misto bruto de terras raras (MREC) vale entre US$ 15 e US$ 30 por quilograma, a separação química em óxidos individuais de alta pureza eleva o valor de mercado para até US$ 988,99/kg (no caso do térbio). O topo da agregação de valor ocorre na produção de metais, ligas e na fabricação de ímãs permanentes de NdFeB sinterizados, cujo valor salta exponencialmente, gerando até 26.000 vezes mais valor agregado do que o mineral bruto.
Atualmente, a China centraliza cerca de 91% da capacidade global instalada de refino e 90% da fabricação de ímãs permanentes. Para os autores, o caminho do Brasil exige romper o gargalo do refino para capturar essa riqueza.
Desafios ambientais: O “preço ecológico” do refino químico
O estudo do CGEE enfatiza que a produção de terras raras é historicamente associada a pesados passivos ecológicos, sendo este um dos principais fatores que levaram o Ocidente a terceirizar a atividade para a China nas últimas décadas. Para o Brasil consolidar sua cadeia produtiva, os autores apontam desafios ambientais críticos que exigem soluções tecnológicas imediatas:
- A questão da radioatividade (Tório e Urânio): Minerais portadores de terras raras de rocha dura (como a monazita e a bastnasita) contêm elementos naturalmente radioativos em sua estrutura cristalina, principalmente o Tório ($^{232}\text{Th}$) e o Urânio ($^{238}\text{U}$). O processo de lixiviação e quebra química mineral concentra esses elementos nos rejeitos, gerando materiais classificados como TENORM (Technologically Enhanced Naturally Occurring Radioactive Materials). O desafio brasileiro envolve o desenvolvimento de depósitos de contenção ultra-seguros e o cumprimento de normas rígidas da Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN) para evitar a contaminação de lençóis freáticos.
- Consumo severo de produtos químicos e geração de efluentes ácidos: A separação dos 17 elementos de terras raras — que possuem propriedades químicas extremamente semelhantes — requer milhares de estágios de extração por solvente. Esse processo consome volumes massivos de ácidos fortes (como ácido clorídrico e sulfúrico) e bases (como hidróxido de sódio e amônia). O desafio ambiental reside no tratamento e neutralização desses efluentes industriais altamente corrosivos e tóxicos, evitando o descarte de sulfatos, cloretos e amônia nos ecossistemas locais.
- Pegada de carbono e consumo de energia: Os processos de eletrólise de sais fundidos para transformar os óxidos de terras raras purificados em metais e ligas metálicas operam a altíssimas temperaturas e demandam enorme quantidade de energia elétrica. Embora o Brasil possua uma matriz elétrica predominantemente renovável (limpa), o setor industrial precisa garantir que a expansão térmica necessária para a metalurgia das terras raras não eleve as emissões de gases de efeito estufa do país.
- Impacto de lixiviação em Argilas Iônicas: Embora os depósitos de argilas de adsorção iônica (como os de Goiás e Minas Gerais) possuam teores de radioatividade drasticamente menores ou quase nulos se comparados às rochas duras, sua lavra exige a mobilização de grandes extensões superficiais de terra. O desafio está em garantir processos de lixiviação em circuito fechado, com recuperação total dos agentes lixiviantes (frequentemente sulfato de amônio), impedindo que a infiltração química salinize o solo ou altere os cursos d’água regionais.
O caminho estratégico: O mapa de rota para 2026-2040
De acordo com o documento anexo, o desenvolvimento brasileiro deve estruturar-se de forma integrada, focando simultaneamente no refino de óxidos, na produção de ligas metálicas e na manufatura de componentes de alto teor tecnológico, estruturado sob uma estratégia nacional robusta. O caminho proposto pelos autores baseia-se em quatro pilares fundamentais:
1. Parcerias bilaterais e o mecanismo de “preço mínimo soberano” (Floor Price)
Os autores alertam que a China possui capacidade histórica de deprimir artificialmente os preços de mercado spot para inviabilizar concorrentes ocidentais. Para proteger os projetos brasileiros em desenvolvimento avançado — localizados estrategicamente no centro-sul do país, como o empreendimento da Serra Verde em Minaçu (Goiás) e o projeto Caldeira em Poços de Caldas (Minas Gerais) —, o caminho ideal é a celebração de acordos bilaterais estratégicos com grandes blocos consumidores (EUA, União Europeia e Japão).
Seguindo o modelo adotado pela norte-americana MP Materials com o Departamento de Defesa dos EUA ou pela Lynas com o Japão, o Brasil precisa negociar contratos de longo prazo (offtake) que embutam um mecanismo de preço mínimo soberano. Isso garante que, mesmo diante de campanhas de deflação de preços promovidas pelo mercado internacional, as refinarias e indústrias instaladas em solo brasileiro permaneçam financeiramente viáveis.
2. Superação de modelos monopolistas e estabilidade regulatória
O estudo cita o exemplo da Índia como uma severa advertência estrutural. A Índia possui a terceira maior reserva mundial, mas por classificar as terras raras como materiais nucleares restritos ao monopólio estatal da estatal IREL por 75 anos, estagnou e hoje produz menos de 1% do suprimento global, sendo obrigada a importar dezenas de milhares de toneladas de ímãs anualmente.
O caminho para o Brasil, segundo os autores, deve evitar o fechamento estatal. A governança proposta passa por um marco regulatório estável, incentivo ao capital privado internacional (como os fundos do Ex-Im Bank dos EUA aplicados em solo nacional) e parcerias com agências multilaterais para dar liquidez e agilidade aos pipelines de investimentos que pretendem viabilizar reservas mapeadas em diversos estados, incluindo Goiás, Minas Gerais, Bahia, Amazonas e Rio de Janeiro.
3. Foco nas vantagens comparativas únicas (Argilas de Adsorção Iônica)
O mapa estratégico orienta o país a explorar sua dotação geológica diferenciada. O Brasil abriga expressivos depósitos de argilas de adsorção iônica (IAC) — concentrados fortemente em províncias minerais de Goiás e Minas Gerais —, um perfil geológico análogo ao de Mianmar, que paralisou suas atividades devido a conflitos civis em 2024.
Essas argilas são ricas em terras raras pesadas (ETRPs), como o disprósio (Dy) e o térbio (Tb), que sofrem restrições severas de exportação pela China. O desenvolvimento dessas jazidas específicas posicionará o Brasil como um fornecedor ocidental indispensável e imediato de feedstock de alta demanda.
4. Integração tecnológica e sustentabilidade (ESG e economia circular)
Como resposta direta aos gargalos ecológicos, o caminho brasileiro deve, obrigatoriamente, adotar rígidos controles de conformidade radiológica, gestão de rejeitos e investir em estratégias de economia circular e reciclagem de ímãs (logística reversa).
Essa postura sustentável é desenhada pelos autores como uma vantagem comercial: ao alinhar as indústrias nacionais aos padrões ESG internacionais, o Brasil conseguirá atrair de forma prioritária o mercado consumidor europeu, fortemente regulado pelo Critical Raw Materials Act, que pune o fornecimento associado a crimes ambientais. Paralelamente, o país deve buscar transferência tecnológica de parceiros de ponta não-chineses (como as indústrias japonesas, líderes em técnicas de difusão de contorno de grão) para capacitar centros domésticos.
Horizonte temporal e implementação
O Roadmap do CGEE distribui a consolidação da cadeia em horizontes temporais de curto, médio e longo prazo (2026-2040), balizados em oito eixos estruturantes. A meta projetada para o cenário-base aponta que o Brasil deve saltar de 0% para 2% de participação no refino global até 2030, alcançando uma fatia de 5% a 8% até 2040, com a implantação de refinarias nacionais integradas instaladas próximas aos grandes polos mineradores do país.
A conclusão dos especialistas é contundente: a janela operacional e política criada pelo rearranjo geopolítico atual é real, mas exige velocidade de decisão, consistência política e responsabilidade socioambiental. O sucesso do Brasil dependerá da capacidade de transformar sua riqueza mineral em políticas públicas de industrialização ativa e limpa, garantindo a transição de fornecedor primário de concentrado para provedor soberano de alta tecnologia global.















