Lula ordenou ao Itamaraty revogação de visto de Darren Beattie por omissão de motivo de viagem; Moraes ‘mata no peito’ e STF barra visita de diplomata norte-americano, assessor de Donald Trump, a Jair Bolsonaro na prisão
Brasília – O presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou nesta sexta-feira (13), durante agenda no Rio de Janeiro, que o assessor do presidente norte-americano Donald Trump, Darren Beattie, só terá permissão para entrar no Brasil quando o ministro da Saúde, Alexandre Padilha, tiver sua entrada liberada nos Estados Unidos.
A declaração presidencial coroa um imbróglio diplomático que envolveu o Supremo Tribunal Federal (STF) e o Ministério das Relações Exteriores (Itamaraty). No dia anterior à fala de Lula, o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes — também alvo sanções diplomáticas do governo norte-americano —, revogou a autorização para que Beattie visitasse o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) na prisão, baseando-se em avaliações do governo sobre omissão de informações e no princípio da reciprocidade nas relações internacionais.
Nos bastidores o tom não tem nada de diplomático. Vozes que testemunharam o ocorrido, afirmam que, nos bastidores, Lula desancou Darren Beattie, e a palavra mais elegante foi chamá-lo de mentiroso e “amiguinho” de Eduardo Bolsonaro, filho do ex-presidente, que se mudou para os Estados Unidos, para denunciar a perseguição política ao pai, mas que resultou numa sequência de erros políticos que lhe custaram o mandato.
Incidente ocorre às vésperas de um suposto encontro entre Lula e Trump no Estados Unidos
A controvérsia teve início com o pedido de visto feito por Darren Beattie, conselheiro da administração Trump para temas relacionados ao Brasil. A defesa de Jair Bolsonaro — que atualmente cumpre pena de 27 anos de prisão por envolvimento na tentativa de golpe de 2022 e encontra-se detido no 19º Batalhão de Polícia Militar (conhecido como ‘Papudinha’), além de ter sido recentemente hospitalizado com broncopneumonia — solicitou formalmente que o assessor sênior pudesse visitar o ex-presidente.
Inicialmente, o ministro Alexandre de Moraes chegou a autorizar o encontro, mas voltou atrás após questionamentos e pareceres do Ministério das Relações Exteriores.
A justificativa do governo brasileiro para a revogação do visto e do encontro baseou-se em dois pilares centrais.
O primeiro foi a identificação de inconsistências no pedido de Beattie. Segundo o Itamaraty, houve “omissão de real motivo para visita”, uma vez que o assessor declarou vir ao Brasil para participar de um evento sobre terras raras e minerais críticos na semana que vem, ocultando o propósito de se reunir com Bolsonaro.
Além disso, a pasta diplomática alertou que um encontro com o ex-presidente condenado poderia configurar “ingerência indevida nos assuntos internos do Estado brasileiro”, fator considerado especialmente sensível em um ano eleitoral.
O segundo pilar da decisão é o “princípio da reciprocidade”, uma prática comum nas relações internacionais em que os Estados buscam aplicar tratamentos mútuos e proporcionais. A recusa ao aliado da doutrina “America First” de Donald Trump foi justificada como uma resposta direta às sanções impostas por Washington a autoridades brasileiras.
Em agosto do ano anterior, o governo dos Estados Unidos cancelou os vistos da esposa e da filha de 10 anos do deputado federal licenciado e ministro da Saúde Alexandre Padilha. O próprio ministro apenas não teve o documento cancelado porque o mesmo já se encontrava expirado — embora, posteriormente, ele tenha recebido uma autorização específica para comparecer a uma reunião da Organização das Nações Unidas (ONU).
O precedente da retaliação de Rubio: os bastidores do cerco a Padilha e a “guerra dos vistos”
Há pretendentes nessa “guerra dos vistos”.Na esteira do embate diplomático que tem testado os limites das relações entre Brasil e Estados Unidos, a narrativa em torno da punição ao ministro da Saúde, Alexandre Padilha, ganhou contornos de uma verdadeira retaliação ideológica. Mas quem, afinal, apertou o gatilho desta crise e quais foram os reais motivos por trás da sanção americana?
A doutrina Rubio e o fantasma de Cuba
O arquiteto desta política de “tolerância zero” atende pelo nome de Marco Rubio, atual Secretário de Estado da administração de Donald Trump nos Estados Unidos. A decisão de isolar o ministro brasileiro não foi um mero entrave burocrático de balcão consular, mas uma diretriz pensada no topo da diplomacia americana no segundo governo do republicano Donald Trump.
O motivo central alegado por Washington é o envolvimento de autoridades brasileiras, com destaque histórico para Padilha, na implementação do programa “Mais Médicos”.
Na visão de Rubio e da atual ala dura do Departamento de Estado, o programa configurou um esquema de trabalho escravo que serviu como linha de financiamento direto para o regime de Havana, ao utilizar 15 mil médicos da ilha caribenha. Como Padilha foi uma peça central nas políticas de cooperação médica com Cuba, ele foi enquadrado como alvo prioritário desta caça às bruxas diplomática.
A tática de pressão: o alvo no núcleo familiar
É preciso fazer um esclarecimento técnico fundamental que muitas vezes se perde no debate público: os Estados Unidos não suspenderam o passaporte de Alexandre Padilha, pois não possuem jurisdição sobre um documento emitido pelo governo brasileiro. A arma utilizada por Washington foi o bloqueio e a revogação de vistos (baseando-se em rígidas leis de imigração americana para barrar a entrada por motivos de “política externa”).
O detalhe mais agudo dessa operação, contudo, revela uma tática de pressão máxima. O visto americano do próprio Padilha já estava vencido desde o ano de 2024. Sem poder mirar diretamente no documento do ministro, o governo americano decidiu, em agosto de 2025, cancelar sumariamente os vistos de sua esposa e de sua filha de apenas 10 anos. A manobra impôs um constrangimento político e pessoal direto ao núcleo familiar do ministro da Saúde.

No tobogã de impopularidade, a convocação da tropa de choque
Luzes de alerta amarelas acesas e sirenes de emergência acionados, o tobogã da queda livre nos índices de popularidade assombram Lula. No início da semana uma operação de marketing político foi encomendada ao ministro-chefe da Secretaria de Comunicação Social (Secom), Sidônio Palmeira para conter a queda livre atestada nas pesquisas de opinião pública.
Uma operação desenhada por Palmeira reuniu o irascível assessor especial de política externa [com a aparência cada vez mais parecida com a de um aiatolá do Irã] Celso Amorim, o chanceler Mauro Vieira, e outras figuras que a reportagem não conseguiu confirmar, e montou-se a “Operação Padilha”, durante a visita de Lula no Rio, na inauguração do Centro de Trauma do Hospital Federal do Andaraí, nesta sexta-feria (13).
Era a reação tardia do Itamaraty e do Palácio do Planalto ao ataque de Rubio, até então sem resposta. A fala de Lula durante o evento foi coreografada e com direito a figurino especial, conforme Palmeira planejou.
O que se viu em seguida foi um Lula super-herói, que enfrenta Trump, e mostra quem manda no Brasil.

O roteiro nem precisou de ensaio, foi na base do improviso. Dentro de uma camisa mais vermelha que um tomate maduro, no estilo gola Mandarin (ou chinesa), também conhecida como gola Mao, empoderou o presidente a tal ponto que ele logo soltou: “Aquele cara americano que disse que vinha pra cá, pra visitar o Jair Bolsonaro, ele foi proibido de visitar e eu o proibi de vir ao Brasil, enquanto não liberar os vistos do ministro da Saúde [Alexandre Padilha], que está bloqueado”, disse um Lula dos tempos de porta de fábrica no ABC paulista.
“Não, você sabe que bloquearam o visto do Padilha, o visto da mulher dele e o visto da filha dele de 10 anos, sabe? Então, Padilha, esteja certo que você está sendo protegido”, afirmou Lula, seguido de gritinhos histéricos e aplausos como no dia da entrega do Oscar.
Lula determinou a revogação do visto de Darren Beattie, o conselheiro e diplomata americano que planejava visitar o Brasil na próxima semana. O presidente foi taxativo ao vincular as duas situações: Beattie não terá permissão para pisar em solo brasileiro até que Washington reverta o banimento imposto a Alexandre Padilha e sua família.
O episódio deixa claro que o sistema de imigração tem sido instrumentalizado como ferramenta de coerção política, mas, isso é apenas um detalhe, que já estava fora do noticiário, mas que foi resgatado por Sidônio Palmeira para mostrar um Lula triunfal e líder do socialismo no Sul Global. Agora é esperar a reação do imprevisível Donald Trump.
* Reportagem: Val-André Mutran (Brasília-DF), especial para o Portal Ver-o-Fato.















