Ex-presidente critica radicalização e pede diálogo entre Poderes
Brasília – Dez anos após o mandato tampão no qual governou o país após a calamidade do segundo governo da presidente impedida Dilma Rousseff (PT), o ex-presidente Michel Temer (MDB), aos 85 anos, afirma que o Brasil precisa “superar o passado para construir seu futuro”, em declarações à revista Veja, publicada nesta sexta-feira (23).
Temer analisa a última década da política brasileira, reflete sobre sua gestão, os recentes eventos de 8 de Janeiro e as perspectivas para as próximas eleições. Ele defende que a disputa eleitoral deste ano pode ser o ponto final na radicalização que assola o país, desde que se foque em projetos e não em confrontos pessoais.
Uma década de turbulência e a necessidade de superar a polarização
A análise de Michel Temer parte da turbulência política vivenciada há uma década, com o avanço da Operação Lava-Jato e o subsequente impeachment da então presidente Dilma Rousseff em maio de 2016.
Temer, que assumiu a Presidência sob forte pressão e em meio a uma profunda crise política e econômica, recorda os esforços de seu governo para aprovar reformas estruturais.
Apesar do sucesso reformista, sua gestão foi ofuscada pela impopularidade derivada das revelações de corrupção que atingiram o MDB, o seu partido, alguns de seus ministros e aliados. O ex-presidente garante que as “feridas desse período estão totalmente cicatrizadas”, incluindo sua prisão, que ele descreve como um “sequestro”, e cujas acusações foram revertidas na justiça.
Para Temer, a polarização atual, que ele define como “radicalização”, difere dos conflitos políticos de seu tempo, nos quais, embora houvesse oposição, não existia a mesma intensidade de posições.
Ele enfatiza que a solução para cessar as hostilidades reside nas eleições de outubro, que deveriam ser um momento para os candidatos apresentarem projetos para o país, em vez de uma disputa “de nome ou contra nome”, como as observadas entre Lula e Bolsonaro.
O ex-presidente sugere que o centro e a centro-direita elaborem um programa de governo unificado, uma ideia que ele próprio compartilhou com governadores que visam a disputa presidencial.
Sobre seu partido, o MDB, Temer reconhece a complexidade de lançar uma candidatura própria devido à natureza federativa da sigla, que se manifesta de maneiras distintas em diferentes regiões do país.
Ele aponta que o ideal seria o MDB apresentar um programa nacional, mas as dificuldades internas frequentemente levam o partido a se unir ao “centro, centro-direita”, visando a um consenso no segundo turno das eleições.
Eventos de 8 de janeiro e a questão judiciária
A entrevista aborda diretamente os eventos de 8 de Janeiro, com Temer rechaçando a ideia de que tenha havido uma tentativa de golpe de Estado. Ele argumenta que “um golpe só existe como mecanismo de força”, o que só ocorreria com a presença das Forças Armadas, ausente no episódio.
O ex-presidente descreve os acontecimentos como uma “agressão enorme aos Poderes”, com a intenção de “desmoralizar os órgãos do Poder”, merecendo punição, que foi devidamente aplicada. Contudo, ele defende a redução das penas para os envolvidos, alinhando-se à ideia de pacificação.
Nesse contexto, Temer considera que a anistia para os bolsonaristas é um tema que já “saiu da pauta” e que sua retomada incentivaria a divisão. Ele sugere que a “nova dosimetria” — um meio-termo encontrado pelo Congresso — é o caminho para a pacificação.
Questionado sobre as críticas ao ministro Alexandre de Moraes, indicado por ele ao Supremo Tribunal Federal (STF), Temer, um constitucionalista, menciona a percepção de “certo excesso na dosagem das penas” em determinado momento.
Ele elogia a ação do Congresso em “redosar essas penalidades” e lamenta a ausência de diálogo entre o Executivo, Legislativo e Judiciário, exemplificada pelo veto do presidente Lula a um projeto relacionado ao tema, o que gerou um conflito entre os Poderes. Ele acredita na possibilidade de um “pacto republicano”.
A discussão se estende à prisão de figuras políticas como Bolsonaro, Lula e Fernando Collor, além de sua própria experiência. Temer reitera sua distinção entre prisão e “sequestro” (referindo-se ao seu próprio caso), mas defende a perfeição do sistema jurídico brasileiro, ressalvando que o mérito de certas decisões pode ser contestado, mas não a competência constitucional do Judiciário. Ele vê uma possível prisão domiciliar para o ex-presidente Bolsonaro como um “gesto de pacificação para o país”.
Temer critica a intenção da oposição de eleger senadores com o propósito de cassar ministros do STF, classificando a ideia como “não uma boa pregação” que “cria instabilidade no país” e remete a um olhar excessivo para o passado.
Avaliação do terceiro mandato de Lula e o legado pessoal
Ao avaliar o terceiro mandato do presidente Lula, Temer reconhece seu prestígio e liderança, mas aponta a falta de “capacidade de diálogo” como uma fragilidade. Ele cita o exemplo recente do IOF, onde a ausência de diálogo resultou em um conflito entre a Câmara e o Supremo.
Sobre a sugestão da revista The Economist de que Lula não deveria concorrer em 2026 devido à idade avançada, Temer discorda veementemente. Ele argumenta que a idade não é um fator impeditivo, a menos que existam deficiências cognitivas ou de saúde, e usa sua própria idade (85 anos) como exemplo da longevidade atual.
Refletindo sobre sua própria passagem pela Presidência, Michel Temer afirma “não me arrependo nem minimamente”. Ele destaca que assumiu em um período conturbado e foi “ousado” ao produzir reformas para o país.
Apesar de ter sido um “presidente muito impopular”, ele se vê hoje como um “ex-presidente popularíssimo”, pois as pessoas “reconhecem o que fizemos”, tendo saído com “certa dignidade”.
A entrevista também toca em um caso controverso: a mediação entre o Banco Master e o BRB, cercada de alegações de ilegalidades. Temer afirma que foi procurado para a mediação, mas percebeu as dificuldades, salientando que a liquidação pelo Banco Central não havia sido decretada quando foi contratado.
Ele considera “apressado dizer, desde já, sem uma decisão final do Judiciário, qual é a culpa e qual é o tamanho do delito”. Quanto à criação de uma CPI para investigar o caso, ele não se opõe, reconhecendo a função do Legislativo, mas questiona sua necessidade nesse cenário específico.
Ao ser chamado de “golpista” pelo presidente Lula, Temer demonstra não se incomodar, atribuindo a fala à necessidade de Lula “agradar a uma ala do PT”. Ele ironiza que, diante das reformas e da recuperação econômica de seu governo, “se foi golpe, foi golpe de sorte”. O ex-presidente conclui que compreende tais dinâmicas e se coloca “acima dessas palavras inteiramente inadequadas”.
* Reportagem: Val-André Mutran (Brasília-DF), especial para o Portal Ver-o-Fato.















