Estratégia petista vincula senador aos interesses americanos enquanto governo anuncia retaliação através de Lei de Reciprocidade e recurso à OMC
Brasília – O governo Lula reagiu com dureza à confirmação das tarifas de 25% sobre produtos brasileiros anunciadas pelos EUA. O Palácio do Planalto chamou a decisão de “marco lastimável” e acionará a Lei de Reciprocidade Econômica. A medida, baseada na Seção 301 da Lei de Comércio de 1974, é o segundo grande tarifaço de Trump ao Brasil em menos de um ano, com implicações políticas significativas para a disputa presidencial de outubro. Lula convocou reunião para esquematizar as primeiras respostas, incluindo a estratégia “TariFlávio”, cunhada pela Secom.
As alegações americanas incluem críticas ao Pix, acusações sobre desmatamento, barreiras ao etanol e propriedade intelectual. O governo brasileiro rejeitou essas justificativas, afirmando que os EUA acumularam nos últimos 15 anos um superávit de US$ 424,5 bilhões em bens e serviços com o Brasil.
As tarifas entrarão em vigor em 22 de julho de 2026, afetando mais de US$ 11 bilhões em exportações brasileiras. Porém, café, carne bovina e determinados produtos de etanol ficam isentos, limitando impactos imediatos. A Confederação Nacional da Indústria (CNI) manifestou preocupação ao destacar que 20 dos 27 estados registraram queda nas exportações para os EUA no primeiro semestre.
A dimensão política: o papel de Flávio Bolsonaro
O governo Lula acusou a família Bolsonaro de “falsos patriotas que arquitetaram ações contra o país, movidos por objetivos eleitoreiros”. Flávio Bolsonaro, senador pelo PL-RJ, enviou documento ao USTR em julho afirmando que a sobretaxa daria a Lula “exatamente a vitória política que ele vem buscando”. Sugeriu que a negociação ocorresse após as eleições. Integrantes do governo Trump são aliados próximos de Bolsonaro, reforçando a narrativa de interferência política.
A tentativa de Flávio de evitar as tarifas pode ter produzido efeito oposto. A campanha de Lula planeja explorar politicamente a situação, associando o aumento das tarifas a Flávio através do slogan “TariFlávio”, reforçando a narrativa de traição ao país.
O governo brasileiro destacou que realizou mais de 30 reuniões bilaterais para tentar evitar a sobretaxa.
Para a diplomacia do Brasil, o desfecho se deu por falta de interesse dos próprios americanos em fechar um acordo equilibrado, e não por omissão brasileira, rebatendo a crítica da pré-campanha de Flávio Bolsonaro que acusou o governo Lula de “não querer negociar com Trump”.
Precedente de mobilização: a vitória diplomática de 2025
No ano passado, Trump impôs tarifas de 50% sobre produtos brasileiros. Grande parte foi revertida após negociações, em vitória diplomática que elevou a popularidade de Lula. O presidente já conseguiu mobilizar a opinião pública contra pressões comerciais dos EUA, apresentando-as como ataques à soberania brasileira.
Em coletiva de imprensa há pouco, no Ministério da Indústria e Comércio, membros do governo disseram que será acionada a Lei de Reciprocidade Econômica, aprovada em 2025, permitindo retaliação através de tarifas recíprocas e suspensão de concessões comerciais.
O Brasil retomará o tema na Organização Mundial do Comércio (OMC), questionando a legitimidade das investigações baseadas na Seção 301. O governo reiterou compromisso com diversificação de parcerias comerciais para reduzir dependência do mercado americano.
Para especialistas em comércio exterior, a OMC é o fórum adequado, mas foi esvaziado pelo governo norte-americano.
Lula pretende manter negociações até o último momento, mas descarta concessões politicamente inaceitáveis, incluindo mudanças no Pix.
Bolsonaros entregam novo presente a Lula
O anúncio ocorre em momento estratégico para a campanha presidencial de outubro. A popularidade de Lula aumentou após apresentar a pressão dos EUA como ataque à soberania. Alexandre de Moraes proibiu Flávio de visitar o pai durante 90 dias, impedindo visitas até após o primeiro turno das eleições.
Os EUA são o segundo maior parceiro comercial do Brasil. O Brasil importou mais de US$ 45 bilhões em produtos americanos em 2025, enquanto as exportações caíram quase 7%. O Brasil seria o segundo país com maiores tarifas dos EUA se Trump confirmar o novo tarifaço, ficando atrás apenas da China.
Embora o governo americano justifique a decisão com alegações de práticas comerciais desleais, o impacto será principalmente político. Para Lula, as tarifas representam um trunfo eleitoral inesperado. A capacidade de apresentar-se como defensor da soberania brasileira, combinada com a associação de Flávio aos interesses americanos, oferece argumentos poderosos para mobilizar eleitores.
O governo mantém negociações abertas, sinalizando disposição para dialogar, mas sem abrir mão de questões fundamentais. A Lei de Reciprocidade e o recurso à OMC representam as ferramentas que o Brasil acionará para responder à medida americana.
* Reportagem: Val-André Mutran (Brasília-DF), especial para o Portal Ver-o-Fato.















