Não é Zema nem Caiado
Brasília – Para surpresa-geral da Nação, o escritor Augusto Cury (Avante) tornou-se o candidato à Presidência com o maior patrimônio declarado nas eleições de 2026, ao informar ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) R$ 242,3 milhões em bens, montante substancialmente superior a soma de tudo o que os presidenciáveis disseram possuir até o fechamento desta edição. O registro, protocolado na sexta-feira (14), destronou o ex-governador de Minas Gerais Romeu Zema (Novo), um empresário que liderava o ranking com R$ 178,7 milhões, e evidenciou a concentração de riqueza na disputa pelo Palácio do Planalto.
A maior parte do patrimônio do escritor, R$ 121,19 milhões, está concentrada em um empréstimo concedido à Filadélfia Nature Participações. Cury também declarou participação de R$ 31,5 milhões na Fictor Invest, empresa do grupo Fictor, que tentou comprar o Banco Master e entrou em recuperação judicial neste ano, com dívidas de cerca de R$ 4,2 bilhões. A conexão financeira ganhou relevância no momento em que o Banco Central decretou a liquidação da instituição, episódio acompanhado de perto por investidores e pela opinião pública.
O levantamento indica que quatro do postulantes concentram 97% dos bens declarados até agora. Além de Cury e Zema, o ex-governador de Goiás, Ronaldo Caiado (PSD) declarou R$ 52,5 milhões, e o veterinário Wilson Grassi (Democrata) informou R$ 50 milhões. Na sequência aparece o senador Flávio Bolsonaro (PL), que declarou R$ 8,2 milhões, cerca de 70% mais do que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que soma R$ 4,8 milhões, depois de conseguir registrar a candidatura ao superar o problema de ter aparecido filiado indevidamente ao partido Missão. Fecham a lista Renan Santos (Missão), com R$ 795 mil, Samara Martins (UP), com R$ 33 mil, e Hertz Dias (PSTU), que declarou não possuir bens.
Entre os candidatos a vice-presidente, Eduardo Girão (Novo) lidera com R$ 34 milhões, seguido por Júlio Delgado (Avante), com R$ 3,5 milhões, Geraldo Alckmin (PSB), com R$ 3,3 milhões, Coronel Medina (Missão), com R$ 1,6 milhão, Alfredo Gaspar (PL), com R$ 564 mil, Suêd Haidar (Democrata), com R$ 460 mil, e Vanessa Portugal (PSTU), com R$ 280 mil. Raquel Brício (UP) informou não possuir bens.
Até a manhã de sexta-feira (14), três presidenciáveis ainda não haviam registrado candidatura, o ex-governador de Goiás Ronaldo Caiado (PSD), o presidente do PCO, Rui Costa Pimenta, e o presidente do PRTB, Leonardo Avalanche. A situação começou a mudar ao longo do dia, dentro do prazo estipulado pela Justiça Eleitoral, que se encerra às 19h de sábado (15).
Caiado, um dos nomes mais bem posicionados nas pesquisas, registrou a candidatura ainda na sexta e declarou R$ 52,5 milhões em bens, valor 111% superior ao informado em 2022, quando disputou e venceu a reeleição ao governo de Goiás. Segundo o candidato, o salto patrimonial decorreu da venda de uma fazenda herdada pelo político. O candidato a vice na chapa, Gilberto Kassab (PSD), informou R$ 21 milhões. Com os novos números, Caiado entra no ranking na quarta posição, à frente de Flávio Bolsonaro e Lula, e o avanço reacende o debate sobre a evolução dos bens de quem exerce mandato público.
Rui Costa Pimenta, que disputa a Presidência pela quarta vez, declarou não possuir bens a declarar. A candidatura, contudo, ocorre sob clima de tensão, pois a Polícia Federal deflagrou a Operação Causa Própria para apurar suspeitas de desvio de fundo partidário e eleitoral no PCO, com buscas autorizadas pela Justiça Eleitoral. Em nota, a legenda classificou a medida como ilegal, antidemocrática e uma tática de intimidação.
Leonardo Avalanche, ex-coordenador da campanha de Pablo Marçal à Prefeitura de São Paulo em 2024, teve a candidatura oficializada pelo PRTB em convenção realizada em Goiânia, mas ainda não havia apresentado a declaração de bens ao TSE até a manhã de sexta-feira. Natural de Anápolis (GO) e bacharel em Direito, o dirigente responde como réu na Justiça Eleitoral de São Paulo por violência política e associação criminosa, acusações que nega e afirma que contestará judicialmente. A ausência de registro no sistema mantinha o candidato fora do ranking patrimonial até o fechamento desta matéria.
A concentração de riqueza entre os postulantes levanta questionamentos sobre representatividade e sobre o peso do patrimônio pessoal na disputa eleitoral. Enquanto Cury, Zema Caiado e Grassi respondem juntos por 97% do total declarado, a maioria dos concorrentes informa bens modestos ou inexistentes, um contraste que tende a pautar o debate sobre financiamento, transparência e desigualdade na corrida ao Planalto.
A largada da campanha presidencial de 2026, portanto, fica marcada pelo abismo patrimonial entre os principais nomes, com o escritor Augusto Cury despontando como o candidato mais rico e três postulantes concentrando quase a totalidade dos bens declarados, enquanto o prazo final de registro expõe tanto a forte valorização patrimonial de Caiado quanto a ausência de bens de Pimenta e as pendências judiciais e o registro ainda pendente de Avalanche.
Nota da redação: Os dados desta reportagem têm como fonte principal a verificação no sistema DivulgaCand, do TSE. As declarações de bens de Ronaldo Caiado, Rui Costa Pimenta e Leonardo Avalanche foram confirmadas nessas fontes, o primeiro registrou candidatura e informou R$ 52,5 milhões em 14 de agosto, o segundo declarou não possuir bens e o terceiro, embora tivesse a candidatura oficializada pelo partido, ainda não havia apresentado a relação de bens à Justiça Eleitoral até a manhã da mesma data.
* Reportagem: Val-André Mutran (Brasília-DF), especial para o Portal Ver-o-Fato.














