Microrganismos preservados no gelo revelam mecanismos antigos de resistência e podem ajudar cientistas a antecipar futuras ameaças, desenvolver medicamentos e prolongar a eficácia dos antibióticos atuais.
Bactérias que permaneceram congeladas por milhares de anos podem esconder informações valiosas para enfrentar um dos maiores desafios da medicina moderna: a resistência aos antibióticos. Pesquisas sobre microrganismos preservados em solos congelados, geleiras e cavernas de gelo estão permitindo que cientistas investiguem como a resistência bacteriana surgiu muito antes da descoberta dos primeiros medicamentos antimicrobianos.
A estratégia, discutida em reportagem publicada pela revista britânica New Scientist em 22 de setembro de 2026, propõe utilizar o passado evolutivo das bactérias para identificar genes perigosos, antecipar o surgimento de superbactérias e orientar o desenvolvimento de tratamentos mais eficazes.
Bactérias antigas já resistiam a antibióticos modernos
Uma das descobertas que ajudaram a transformar a compreensão científica sobre a resistência bacteriana ocorreu no território de Yukon, no Canadá.
Em um estudo publicado em 2011 na revista Nature, pesquisadores analisaram amostras de permafrost, solo permanentemente congelado, com aproximadamente 30 mil anos. O material continha genes capazes de conferir resistência a diferentes classes de antibióticos, incluindo a vancomicina, um medicamento utilizado no tratamento de infecções bacterianas graves.
Os cientistas identificaram mecanismos de resistência a betalactâmicos, tetraciclinas e glicopeptídeos. A análise genética e funcional confirmou que um dos elementos de resistência à vancomicina apresentava semelhanças com variantes encontradas em bactérias modernas.
O resultado demonstrou que a resistência aos antibióticos não começou com o uso de medicamentos pela humanidade. Na natureza, bactérias e outros microrganismos já produziam substâncias para competir entre si, desenvolvendo mecanismos de defesa ao longo da evolução.
Isso significa que o ambiente natural abriga um enorme reservatório de genes de resistência, conhecido como resistoma. Esse conjunto inclui tanto genes antigos quanto variantes que podem, eventualmente, alcançar bactérias causadoras de doenças humanas.
Aquecimento global pode liberar microrganismos preservados no gelo
O avanço das mudanças climáticas acrescenta uma nova preocupação ao problema.
Com o derretimento de geleiras e o descongelamento de solos do Ártico, microrganismos que permaneceram isolados durante séculos ou milênios podem voltar a interagir com comunidades bacterianas contemporâneas.
Uma pesquisa citada pela New Scientist identificou genes de resistência em solos recentemente expostos pelo recuo de geleiras no Ártico e na Antártida. Os pesquisadores observaram que esses ambientes apresentam conjuntos de genes diferentes daqueles encontrados em solos comuns e em ambientes hospitalares.
Além disso, amostras com maior quantidade de genes de resistência também apresentavam mais elementos genéticos móveis, estruturas que facilitam a transferência de material genético entre bactérias.
Esse processo, chamado transferência horizontal de genes, permite que uma bactéria adquira características de outra, inclusive de espécies diferentes. É uma das principais formas pelas quais mecanismos de resistência podem se espalhar.
O aumento das temperaturas também pode favorecer a multiplicação de determinadas bactérias e ampliar as oportunidades para mutações e trocas genéticas.
Isso não significa que toda bactéria liberada pelo derretimento do gelo seja capaz de causar doenças humanas. O risco depende de diversos fatores, incluindo a sobrevivência do microrganismo, sua capacidade de interagir com bactérias atuais e a possibilidade de os genes de resistência serem transferidos para agentes patogênicos.
Inteligência artificial pode antecipar futuras superbactérias
O conhecimento sobre esses microrganismos antigos também pode contribuir para criar sistemas de alerta precoce contra a resistência antimicrobiana.
Com técnicas de sequenciamento genético e ferramentas computacionais, os pesquisadores conseguem examinar grandes quantidades de DNA presentes em amostras ambientais, identificando genes conhecidos e possíveis variantes ainda não catalogadas.
Uma das ferramentas citadas na reportagem é a DRAMMA, desenvolvida por pesquisadores ligados à Universidade de Tel Aviv, em Israel. O sistema utiliza aprendizado de máquina para identificar possíveis genes de resistência a partir de características biológicas, incluindo propriedades das proteínas produzidas, relações evolutivas e proximidade com elementos genéticos móveis.
Diferentemente de métodos que dependem principalmente da comparação com genes já conhecidos, a ferramenta busca identificar padrões que podem indicar mecanismos de resistência ainda desconhecidos.
A análise também pode ajudar a estimar quais genes apresentam maior possibilidade de serem transferidos entre bactérias e, consequentemente, de representar uma ameaça futura à saúde humana.
Na prática, isso permitiria que pesquisadores investigassem riscos antes que determinado mecanismo de resistência se torne frequente em hospitais.
Microrganismos antigos podem orientar novos medicamentos
A descoberta de genes de resistência não representa apenas um alerta. Ela também pode fornecer informações para desenvolver antibióticos capazes de enfrentar mecanismos de defesa bacterianos que ainda não se disseminaram entre patógenos humanos.
Ao conhecer antecipadamente essas defesas, pesquisadores podem selecionar e modificar moléculas antimicrobianas para reduzir a probabilidade de que novos medicamentos percam sua eficácia rapidamente.
Outra possibilidade é impedir que bactérias compartilhem genes de resistência.
Uma das estratégias em investigação envolve os bacteriófagos, vírus que infectam bactérias. Alguns podem ser utilizados para atingir estruturas envolvidas na transferência de plasmídeos, moléculas de DNA que frequentemente carregam genes de resistência.
Em estudos experimentais, essa abordagem tem sido investigada como uma maneira de interromper a transmissão de genes entre bactérias sem eliminar indiscriminadamente toda a comunidade microbiana.
Pesquisadores também avaliam compostos químicos capazes de bloquear a transferência desses elementos genéticos. Embora promissoras, essas estratégias ainda precisam superar etapas de pesquisa e validação antes de serem consideradas tratamentos de uso clínico.
Desafio global exige vigilância e uso responsável de antibióticos
A resistência antimicrobiana já representa um problema de saúde pública mundial. Um estudo publicado na revista The Lancet e citado na pesquisa de 2011 estimou que infecções resistentes a antibióticos foram diretamente responsáveis por aproximadamente 1,27 milhão de mortes em 2019.
Projeções mencionadas na reportagem da New Scientist indicam que esse número poderá chegar a cerca de 1,9 milhão de mortes anuais diretamente atribuíveis à resistência bacteriana até 2050. Trata-se de uma estimativa, não de uma previsão inevitável.
O uso inadequado de antibióticos na medicina e na produção animal continua sendo um dos fatores que favorecem a seleção e a disseminação de bactérias resistentes. Por isso, a vigilância ambiental e o desenvolvimento de novos medicamentos precisam caminhar junto com medidas de prevenção, controle de infecções e utilização responsável desses fármacos.
Apesar dos avanços, os cientistas ressaltam que não há garantia de que novos antibióticos permaneçam eficazes por décadas. A resistência é um processo evolutivo, e as bactérias podem continuar desenvolvendo mecanismos para sobreviver aos tratamentos.
O estudo de microrganismos antigos oferece, entretanto, uma oportunidade de compreender melhor essa evolução. Ao investigar genes preservados durante milhares de anos, a ciência pode transformar um reservatório natural de ameaças em uma fonte de conhecimento para antecipar riscos e preservar medicamentos essenciais.
Fonte: newscientist.com














