Painel de órgãos federais alerta para risco de queimadas, ondas de calor e pressão nos preços de alimentos
Brasília – O Brasil entra, nesta quinta-feira (16), em uma fase crítica do fenômeno climático El Niño, quando seus efeitos começam a se manifestar de forma mais evidente no território nacional. Embora oficialmente confirmado em junho, é a partir desta segunda quinzena de julho que o fenômeno passa a alterar significativamente o padrão climático do país, trazendo cenários climáticos extremos e contraditórios: chuvas acima da média para o Sul e calor intenso com tempo seco para o Centro-Oeste, Norte e Nordeste.
Segundo o Centro de Previsão Climática (CPC) da Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA), existe 81% de probabilidade de o fenômeno atingir a classificação “muito forte” entre outubro e dezembro, período em que deve alcançar seu pico de intensidade, posicionando-se entre os episódios mais intensos já registrados desde 1950.
O fenômeno e sua intensidade histórica
O El Niño é um fenômeno climático provocado pelo aquecimento anormal das águas do Oceano Pacífico Equatorial. Esse aquecimento altera a circulação da atmosfera e modifica os padrões de chuva e temperatura em diversas partes do mundo. No Brasil, normalmente provoca mais chuva na Região Sul e menos precipitação nas regiões Norte e Nordeste. Se a previsão da NOAA se confirmar, o evento ficará entre os mais fortes já observados, ao lado dos históricos episódios de 1982/83, 1997/98 e 2015/16.
O que torna este episódio ainda mais preocupante é o fato de ocorrer em um planeta mais quente. Segundo especialistas, o aquecimento global aquece os oceanos e a atmosfera, criando condições mais favoráveis para eventos climáticos extremos. Como resultado, fenômenos como enchentes, secas prolongadas, ondas de calor, queimadas e tempestades severas tendem a se tornar mais intensos e frequentes.
Dados complementares indicam que há 63% de chance de um El Niño muito forte entre novembro de 2026 e janeiro de 2027, com projeção de aquecimento das águas do Pacífico em 2,4°C até novembro, e o fenômeno deve persistir até fevereiro de 2027.
Divisão do país em dois cenários climáticos
O país ficará dividido entre dois cenários climáticos distintos. Segundo o Painel El Niño 2026/2027, elaborado por órgãos como INPE, INMET, Cemaden, ANA e Defesa Civil Nacional, a tendência para o trimestre entre julho e setembro já aponta chuva acima da média na Região Sul e abaixo da média em grande parte do Centro-Norte do país.
Sul enfrenta risco de temporais e enchentes
A principal preocupação está concentrada na Região Sul. A expectativa é de chuva acima da média nos próximos meses, principalmente no Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná. Esse excesso de precipitação aumenta o risco de enchentes, alagamentos, enxurradas, deslizamentos e inundações.
Segundo a meteorologista Estael Sias, da MetSul, a primavera deverá registrar uma frequência maior de tempestades severas, acompanhadas por vendavais, granizo e até fenômenos mais raros, como microexplosões atmosféricas e tornados, especialmente nos três estados do Sul, além do Mato Grosso do Sul e da metade sul de São Paulo.
O Painel El Niño também alerta que o aumento da umidade do solo pode deixar essas áreas mais vulneráveis a enchentes e movimentos de massa caso ocorram episódios de chuva intensa. Além dos impactos ambientais diretos, temporais e enchentes podem causar danos à infraestrutura, bloquear rodovias, interromper o transporte de cargas e gerar prejuízos econômicos significativos.

Centro-Oeste, Norte e Nordeste enfrentam calor acima da média
Enquanto o Sul enfrenta excesso de chuva, o restante do país deve sentir os efeitos opostos. A tendência é de redução das precipitações e temperaturas acima da média, cenário que favorece ondas de calor persistentes entre a primavera e o início do verão. Segundo Estael Sias, diversas áreas do Centro-Norte podem registrar temperaturas próximas ou superiores aos 40°C entre outubro e dezembro.
O INPE também explica que, quando o El Niño se estabelece durante o inverno, o Sudeste costuma registrar temperaturas acima do normal e períodos mais quentes do que a média histórica. O tempo seco e o calor intenso aumentam significativamente o risco de incêndios florestais.
De acordo com o Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), o período entre julho e setembro deve concentrar as condições mais favoráveis para queimadas no Centro-Oeste e no arco sul da Amazônia.
As áreas mais vulneráveis incluem Mato Grosso, Rondônia, Acre, sul do Amazonas, sul/sudeste do Pará e a região do Matopiba (Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia), onde a combinação entre estiagem prolongada, altas temperaturas e vegetação seca favorece a propagação do fogo. Além dos impactos ambientais, especialistas alertam para a piora da qualidade do ar, o aumento de problemas respiratórios, especialmente entre crianças e idosos, e os prejuízos à biodiversidade.
Impactos na Agricultura, Abastecimento de Água e Energia
O campo também deverá sentir os efeitos do fenômeno, assim como o abastecimento de água, a geração de energia e a infraestrutura. No Sul, o aumento das chuvas tende a beneficiar parte das culturas de inverno. Em compensação, o excesso de umidade favorece o surgimento de doenças causadas por fungos e pode dificultar operações no campo.
No Centro-Oeste, as condições climáticas devem favorecer a colheita do milho de segunda safra, do algodão e da cana-de-açúcar. Por outro lado, o calor pode reduzir a umidade do solo, prejudicar as pastagens e dificultar o planejamento da próxima safra. Já no Norte e no Nordeste, a combinação entre pouca chuva e temperaturas elevadas pode comprometer culturas agrícolas, reduzir a disponibilidade de água para irrigação e para a pecuária, além de diminuir os níveis dos reservatórios utilizados para abastecimento e geração de energia.
Especialistas também alertam que eventos extremos podem afetar a oferta de alimentos e pressionar os preços de alguns produtos agrícolas. A redução dos níveis de reservatórios, particularmente no Norte e Nordeste, representa uma ameaça significativa à geração de energia hidrelétrica, setor fundamental para o abastecimento energético nacional. Essa pressão sobre os recursos hídricos pode resultar em aumento dos custos de energia e necessidade de acionamento de usinas termelétricas, com impactos econômicos e ambientais.
Preparação e orientações da Defesa Civil
Diante das previsões, órgãos federais já reforçaram as orientações para estados e municípios. O Painel El Niño recomenda a atualização dos planos de contingência, o fortalecimento dos sistemas de monitoramento e alerta e a preparação das comunidades mais vulneráveis para enfrentar enchentes, secas, queimadas e ondas de calor. O Painel também orienta que a população acompanhe os avisos oficiais da Defesa Civil e dos institutos de meteorologia.
Especialistas ressaltam, no entanto, que nem todo evento extremo registrado nos próximos meses será provocado exclusivamente pelo El Niño. Outros sistemas meteorológicos também influenciam o clima, enquanto as mudanças climáticas vêm aumentando a frequência e a intensidade desses fenômenos em todo o planeta. A convergência entre o Super El Niño e o aquecimento global cria um cenário de risco amplificado, exigindo preparação robusta e ações coordenadas entre governo, setor privado e sociedade civil.
* Reportagem: Val-André Mutran (Brasília-DF), especial para o Portal Ver-o-Fato.















