Ministro André Mendonça acolhe rejeição da PF e determina transferência do ex-controlador do Banco Master, que perdeu o principal trunfo processual para obter benefícios penais
Brasília – Em decisão proferida na quinta-feira (25), o ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), determinou a transferência do ex-banqueiro Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, de volta ao 19º Batalhão da Polícia Militar do Distrito Federal, conhecido como Papudinha. A medida ocorre depois de a Polícia Federal (PF) rejeitar a segunda proposta de delação premiada apresentada pelo investigado, sob o argumento de que as informações trazidas não acrescentavam elementos novos ao que já havia sido apurado e não tinham utilidade para as investigações em curso.
Vorcaro estava na carceragem da Superintendência da PF em Brasília desde 19 de março, quando foi transferido a pedido de sua defesa, que sinalizava ao STF a intenção de firmar um acordo de colaboração premiada.
A permanência do ex-banqueiro na sede da PF, no entanto, era vista com crescente desconforto pelos investigadores. Em maio, a PF já havia recusado uma primeira versão da proposta de delação, com justificativa semelhante. Agora, com a segunda rejeição, Mendonça considerou que não havia mais razão para manter Vorcaro em condições especiais de custódia. Vorcaro articula a contratação de um terceiro advogado para elaborar a terceira delação e tentar obter benefícios de sua grave situação.
Na decisão, o ministro ponderou que, embora a manutenção do custodiado na Superintendência da PF não fosse a mais adequada, tampouco seria apropriada sua alocação em cela comum do sistema prisional comum.
O caminho encontrado foi o retorno à Papudinha, unidade prisional do 19º Batalhão da PMDF que já abrigou outras figuras de destaque no noticiário político e policial do país, como o ex-presidente da República, Jair Bolsonaro.
A Procuradoria-Geral da República (PGR) também rejeitou duas propostas de delação premiada apresentadas por Vorcaro. Assim como a PF, a procuradoria apontou que as informações oferecidas pelo ex-banqueiro não traziam provas novas e teriam pouca utilidade para o avanço das apurações.
A delação premiada é um meio de obtenção de provas que exige, por definição, que o colaborador apresente elementos capazes de corroborar outras evidências e desarticular organizações criminosas — requisito que, segundo as autoridades, não foi preenchido por Vorcaro.
O ministro negou ainda o pedido da defesa para que Vorcaro obtivesse prisão domiciliar, seguindo o entendimento da PF de que a prisão preventiva deve ser mantida.
Para a corporação, a segregação cautelar do ex-banqueiro é necessária para mitigar riscos de interferência na colheita de provas e para evitar práticas de ocultação patrimonial.
A investigação aponta que Vorcaro mantinha uma estrutura paralela de poder, incluindo uma milícia privada com o objetivo de coagir e ameaçar desafetos, conforme revelou a terceira fase da Operação Compliance Zero, deflagrada em 4 de março.
A decisão de Mendonça também determina que o 19º Batalhão adote todas as providências necessárias para que os investigados na Operação Compliance Zero não possam se comunicar entre si.
“A medida deverá ser implementada de forma proporcional e compatível com a rotina administrativa e de segurança da unidade, sem prejuízo da observância dos direitos mínimos assegurados às pessoas privadas de liberdade”, estabeleceu o relator.
A determinação reflete a preocupação dos investigadores com a possibilidade de que Vorcaro, mesmo encarcerado, pudesse articular ações para atrapalhar as apurações.
A Operação Compliance Zero completa, em junho de 2026, mais de sete meses de existência. Deflagrada em 18 de novembro de 2025, a investigação da Polícia Federal já cumpriu nove fases e apura a existência de uma suposta organização criminosa ligada ao Banco Master, envolvendo fraudes bilionárias com venda de títulos de crédito falsos, lavagem de dinheiro, corrupção e ameaças.
O Banco Central decretou a liquidação extrajudicial do Banco Master em dezembro de 2025, e posteriormente converteu o Regime de Administração Especial Temporária (RAET) em liquidação definitiva em março de 2026, encerrando formalmente todos os regimes especiais aplicados ao conglomerado financeiro.
O caso ganhou contornos ainda mais complexos nas últimas semanas. Em 14 de maio, Mendonça autorizou a prisão preventiva de Henrique Moura Vorcaro, pai do ex-banqueiro, e de Felipe Cansado Vorcaro, seu primo, na 6ª fase da operação.
A 2ª Turma do STF referendou as prisões em 16 de junho, com voto divergente do ministro Gilmar Mendes, que criticou métodos empregados pela Operação Compliance Zero. Em 18 de junho, o STF autorizou a 9ª fase da operação, com medidas cautelares que atingiram o senador Jaques Wagner (PT-BA) e gestores do Banco Master, ampliando ainda mais o alcance das investigações.
A transferência de Vorcaro para a Papudinha já era esperada desde maio, quando a PMDF começou a planejar um rearranjo de celas para recebê-lo. A chamada “dança das cadeiras” no presídio militar incluiu a movimentação de outros presos de destaque, em um sinal de que as autoridades se preparavam para o desfecho que agora se concretiza.
Com a rejeição das propostas de delação pela PF e pela PGR, o ex-banqueiro perdeu o principal instrumento processual que poderia lhe garantir benefícios penais em troca de colaboração. Restam, ainda, caminhos jurídicos possíveis, como a chamada delação unilateral — na qual o investigado apresenta sua versão independentemente de aceite formal — ou um eventual acordo diretamente com a PGR, que depende de aval do STF.
Até lá, Vorcaro permanece sob prisão preventiva, sem previsão de soltura, enquanto a Operação Compliance Zero segue produzindo novos desdobramentos que prometem manter o caso no centro do noticiário político e econômico do país.
* Reportagem: Val-André Mutran (Brasília-DF), especial para o Portal Ver-o-Fato.















