Ministro André Mendonça exige acesso integral à investigação que envolve Lulinha, filho do presidente Lula; Polícia Federal resiste e recorre à AGU
Brasília – Uma das investigações mais rumorosas em curso no país, que pode ter efeitos diretos na campanha de reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), abriu uma grave crise institucional entre os dirigentes dos órgãos que conduzem o processo. O ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) André Mendonça, relator do caso, passou a apurar se o diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, obstruiu a justiça ao resistir ao cumprimento de determinações que ampliaram o controle do tribunal sobre as apurações das fraudes no INSS, escândalo no qual supostamente estaria envolvido Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, filho do presidente da República. O imbróglio foi revelado pelo site Metropoles.
Há mais de um mês, Mendonça determinou que a Polícia Federal submetesse a ele todos os documentos brutos referentes às apurações do escândalo do INSS. O ministro também ordenou que qualquer alteração na equipe que investiga o caso fosse previamente autorizada por ele. A determinação, no entanto, foi mal recebida na corporação, que alega que o procedimento habitual seria analisar os documentos apreendidos, extrair dados de celulares, elaborar um relatório e encaminhá-lo ao gabinete do relator, respeitando a cadeia de custódia das provas.
A decisão de Mendonça se ampara em dois objetivos centrais. O primeiro é preservar a autonomia da Polícia Federal e evitar interferência política ou seletividade no curso das investigações. O segundo é garantir à defesa o acesso aos elementos já produzidos e às diligências já encerradas, nos termos da Súmula Vinculante 14 do STF. O ministro teria sido informado de que depoimentos já colhidos não estariam sendo juntados aos autos, assim como não estariam sendo apresentados os relatórios periódicos sobre o andamento das apurações, conforme determinado pelo relator.
Diante da resistência da PF, Mendonça reagiu e determinou o esclarecimento da questão, que pode ensejar desobediência processual e obstrução de justiça. As providências chegaram ao conhecimento do diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, que manteve sua posição de não compartilhar os dados e remeteu a contenda para a Advocacia-Geral da União (AGU). A interlocutores, o diretor-geral da PF afirma que “só falta chegar a ordem de prisão” (dele, naturalmente), em sinal do acirramento do embate.
O caso transformou-se em uma “batata quente” para o governo. O chefe da AGU, ministro Jorge Messias, é próximo de André Mendonça e contou com o apoio dele em sua indicação ao Supremo, posteriormente rejeitada pelo Senado em 29 de abril de 2026, por 42 votos a 34 — a primeira rejeição de uma indicação ao STF em 132 anos. Há uma promessa de Lula de que, se reeleito, repetirá a indicação de Messias. Nesse cenário, criar um atrito com um amigo e possível futuro colega de tribunal não é algo que o ministro da AGU deseje, e ele está, inclusive, de férias.
O episódio também gerou desapontamento no Palácio do Planalto com a postura do ministro da Justiça, Wellington César Lima e Silva, que se manteve neutro diante do embate. Para delegados da PF, na qualidade de superior hierárquico da Polícia Federal, o ministro deveria ter saído em defesa da autonomia da corporação para conduzir as investigações.
Já o procurador-geral da República, Paulo Gonet, apelidado por más línguas nos corredores do Planalto de “não é comigo”, também evitou se envolver na crise: de um lado, avisou que não pretende questionar a ordem do ministro André Mendonça; de outro, sinalizou que não concorda com a pressão sobre o diretor-geral da PF.
O choque decorre de uma divergência de entendimento. Andrei Rodrigues questiona a determinação de Mendonça porque o ministro não teria indicado no despacho fatos que comprovassem a atuação irregular da PF para justificar uma medida que soa, para os delegados, como intervenção. Por outro lado, o ministro André Mendonça tem afirmado publicamente que vai garantir, a qualquer custo, uma investigação republicana sobre o escândalo, sem vazamentos ou interferências políticas.
O contexto que cerca a crise amplia sua gravidade. A roubalheira que sentou praça no INSS é apontada como um dos maiores escândalos da atualidade, tanto pelo alcance das vítimas — aposentados lesados por fraudes em descontos — quanto pelo amplo envolvimento de personagens poderosos e pelo volume de dinheiro desviado.
Entre os investigados está o próprio filho do presidente, que já admitiu ao STF ter tido uma viagem bancada pelo lobista Antonio Carlos Camilo Antunes, o Careca do INSS, apontado como um dos operadores centrais do esquema e preso desde setembro de 2025. Em 30 de julho de 2026, Mendonça autorizou ainda que a PF investigasse Lulinha por suspeita de tráfico de influência e corrupção, em apuração relacionada à comercialização de canabidiol no governo Lula, com menção a acesso ao gabinete presidencial.
A PF, por sua vez, acionou formalmente a AGU para questionar as decisões do ministro, classificando-as como interferência na condução do inquérito da operação Sem Desconto. Delegados que atuam nas investigações apontam descontentamento com as medidas do relator, que cobrou informações na íntegra e autorização prévia para mudanças na equipe de agentes. O movimento da PF de tentar redistribuir o caso também é criticado entre interlocutores da Corte.
A crise institucional expõe um tensionamento raro entre o STF e a Polícia Federal, órgãos que historicamente atuam em sintonia na condução de grandes investigações. Se confirmada a apuração de obstrução de justiça contra o diretor-geral da PF, o desfecho seria sem precedentes e colocaria em xeque a autonomia da corporação frente ao controle judicial.
Ao mesmo tempo, a resistência da PF levanta questionamentos sobre a transparência das apurações que envolvem o filho do presidente, alimentando o debate sobre seletividade e interferência política no processo. O desfecho do embate, que agora passa pela AGU e pela posição de Jorge Messias, terá implicações diretas sobre a condução de uma das investigações mais sensíveis do país e sobre as relações entre os Poderes em um ano eleitoral.
* Reportagem: Val-André Mutran (Brasília-DF), especial para o Portal Ver-o-Fato.














