Senador é apontado como “beneficiário central” de esquema bilionário do Banco Master; defesa recorre ao STF para anular provas
Brasília – O senador Jaques Wagner (PT-BA) foi oficialmente intimado pela Polícia Federal a depor no âmbito da 9ª fase da Operação Compliance Zero, que investiga um esquema de fraudes financeiras estimado em bilhões de reais envolvendo o Banco Master. A oitiva está marcada para 7 de agosto, na sede da Superintendência da PF em Brasília, e ocorre semanas após o parlamentar ter sido alvo de mandados de busca e apreensão e ter deixado a liderança do governo no Senado sob forte pressão política.
A intimação formaliza a convocação de Wagner para prestar esclarecimentos presenciais sobre sua suposta relação com o banqueiro Augusto Lima — ex-sócio de Daniel Vorcaro no Banco Master e proprietário do Banco Pleno, instituição financeira liquidada extrajudicialmente pelo Banco Central em fevereiro de 2026.
Na decisão que autorizou a operação, o ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), apontou o senador como “suposto beneficiário central das vantagens econômicas investigadas, figurando como agente público em favor de quem teriam sido estruturados pagamentos, benefícios e aquisições patrimoniais”.
A investigação da Polícia Federal corre sob sigilo, mas os elementos já reunidos indicam que Wagner teria atuado no Congresso Nacional em defesa de interesses do Banco Master em troca de vantagens indevidas.
Entre os indícios que pesam contra o parlamentar estão o recebimento de repasses que somam R$ 3,5 milhões em nome de familiares e a negociação de um apartamento de luxo em Salvador, também avaliado em R$ 3,5 milhões. Durante as buscas realizadas em 18 de junho, agentes da PF apreenderam dólares em endereços ligados ao senador — quantia que Wagner, em entrevista à BandNews, afirmou ser proveniente de diárias pagas pelo Senado em razão de 27 viagens internacionais que realizou, totalizando R$ 338,7 mil.
A operação que mudou o xadrez político
A 9ª fase da Operação Compliance Zero foi deflagrada em 18 de junho de 2026, com 18 mandados de busca e apreensão cumpridos na Bahia, em São Paulo e no Distrito Federal, todos autorizados pelo STF.
Endereços ligados a Jaques Wagner em Salvador e Brasília foram vasculhados pelos investigadores, que buscavam documentos, provas digitais e registros financeiros que pudessem corroborar as suspeitas de que o senador teria recebido pagamentos e benefícios em troca de apoio político a medidas no Congresso que beneficiariam o Banco Master — entre elas a chamada “Emenda Master”, um dispositivo legislativo cujo teor ainda é mantido sob sigilo, mas que, segundo a PF, teria sido costurado para favorecer a instituição financeira.
O escândalo do Banco Master, descrito por veículos internacionais como a maior fraude bancária já registrada no Brasil, veio a público no final de 2025 com a liquidação do banco pelo Banco Central e a prisão de Daniel Vorcaro, seu então controlador.
As investigações revelaram uma teia complexa que envolve não apenas figuras do mercado financeiro, mas também agentes públicos, servidores do Banco Central e membros do Judiciário.
A proximidade de Vorcaro com o poder político sempre foi alvo de especulação, mas a Compliance Zero trouxe à tona evidências concretas de que o banqueiro buscava cultivar relações estratégicas para garantir a sobrevivência e a expansão de seus negócios.
Augusto Lima, ex-sócio de Vorcaro, tornou-se peça-chave na investigação. Proprietário do Banco Pleno — que herdou o controle após desavenças societárias com o ex-parceiro —, Lima também viu sua instituição ser liquidada pelo BC em fevereiro de 2026, após tentativas frustradas de venda.
A PF apura se ele atuou como intermediário entre o Banco Master e Jaques Wagner, utilizando sua relação de confiança com o senador para viabilizar acordos e transferências financeiras.
O calendário eleitoral e os desdobramentos
Nesta terça-feira (21), Jaques Wagner participa de um evento na sede do PSD na Bahia para anunciar os nomes escolhidos para compor sua chapa de suplentes na campanha pela reeleição ao Senado. O ato ocorre em meio à turbulência política e sinaliza que o senador pretende manter sua candidatura ativa, apostando na tese de que as investigações não prosperarão ou que conseguirá demonstrar sua inocência antes do pleito.
A situação, no entanto, permanece incerta. O depoimento marcado para 7 de agosto será um dos momentos mais aguardados da investigação, pois dará a Wagner a oportunidade de apresentar sua versão diretamente aos investigadores. Caso as provas colhidas pela PF apontem para o envolvimento do senador em irregularidades, as consequências podem ir além da esfera criminal, comprometendo não apenas sua reeleição, mas também a imagem do governo Lula em um ano eleitoral decisivo.
Especialistas em estratégia política avaliam que a Operação Compliance Zero já produziu um estrago político significativo, independentemente do resultado final das investigações. A saída de Wagner da liderança do governo, ainda que apresentada como uma decisão pessoal e estratégica, foi interpretada no Congresso como uma tentativa de blindagem — tanto do parlamentar quanto do próprio governo, que busca distanciar a imagem do presidente Lula do escândalo.
A proximidade do senador com o núcleo do poder — como líder do governo no Senado e aliado de primeira hora de Lula — transforma o caso em um teste de resiliência para o sistema político e judiciário brasileiro. As respostas que Wagner dará em 7 de agosto, somadas ao julgamento do recurso que tramita no STF e às eleições de outubro, definirão não apenas o futuro do parlamentar baiano, mas também os limites da exposição do governo federal a um escândalo que já atravessou fronteiras.
* Reportagem: Val-André Mutran (Brasília-DF), especial para o Portal Ver-o-Fato.














