Lula discursa para militância em São Bernardo; Flávio leva multidão a Copacabana, no primeiro dia oficial da disputa de 2026
Brasília – A campanha eleitoral de 2026 teve início oficial no domingo (16), com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), candidato à reeleição, e o senador Flávio Bolsonaro (PL), herdeiro político do ex-presidente Jair Bolsonaro, promovendo atos simultâneos em seus principais redutos eleitorais, no primeiro confronto direto entre os dois líderes das pesquisas de intenção de voto, que repetiram bordões da disputa de 2022, mas também apresentaram propostas distintas para segurança, economia e soberania nacional, num contexto que pode levar o país a uma recessão econômica em 2027.
Lula escolheu o estádio 1º de Maio, em São Bernardo do Campo (SP), berço de sua trajetória sindical, para lançar sua oitava candidatura ao Palácio do Planalto, aos 80 anos, diante de uma massa de militantes petistas. Flávio Bolsonaro optou pela praia de Copacabana, no Rio de Janeiro, cenário de manifestações bolsonaristas nos últimos anos, onde subiu em um trio elétrico cercado de verde e amarelo. Ambos os candidatos foram bem-sucedidos em reforçar as diferenças que os separam, com Lula apoiando-se na conexão histórica com a classe trabalhadora e Flávio no legado do pai, atualmente em prisão domiciliar por tentativa de golpe de Estado.
O ponto de partida da corrida não foi, contudo, apenas simbólico. Levantamentos divulgados na semana anterior ao início oficial da campanha apontavam um cenário de disputa acirrada. A pesquisa Genial/Quaest de 14 de agosto indicou Lula com 38% das intenções de voto no primeiro turno, contra 31% de Flávio Bolsonaro, com Renan Santos e Ronaldo Caiado empatados em 4% e Augusto Cury e Romeu Zema com 2%.
No segundo turno, tomando o agregador de pesquisas do UOL como referência, registrava distância de apenas quatro pontos entre os dois candidatos, enquanto levantamentos anteriores do Datafolha e do Atlas/Intel mostravam vantagens de cinco a seis pontos para o atual presidente, sempre dentro ou próximo da margem de erro, o que reforça a leitura de uma eleição polarizada e de desfecho indefinido.
No ato em São Bernardo do Campo, Lula discursou por cerca de 36 minutos e recorreu à nostalgia da militância, relembrando os períodos mais sombrios da pandemia de covid-19 e a condução da crise sanitária pelo governo anterior, que, segundo ele, foi marcada por ideologia e teimosia e resultou na morte de cerca de 700 mil pessoas no país.
O presidente justificou a busca pelo quarto mandato como uma forma de impedir que a direita, mais especificamente a direita bolsonarista, volte ao poder, e fez questão de apontar que sua força política vem da lealdade dos apoiadores, apresentando-se como um “peão” que conhece o coração e a mente do povo brasileiro. Tecnicamente o discursos foi considerado por analistas políticos “sem conteúdo”, que ajuda a explicar a alta rejeição do governo.
Flávio Bolsonaro, por sua vez, replicou a estratégia antipetista que marcou as campanhas do pai, dedicando boa parte do discurso a ecoar escândalos de corrupção do passado, como mensalão e petrolão, e do presente, ao apresentar seu candidato a vice, o deputado Alfredo Gaspar, como campeão da CPI do INSS e protagonista das acusações envolvendo Lulinha, filho do presidente.
O senador ainda definiu o pai como um “injustiçado” e se colocou em posição semelhante de perseguido político, afirmando que “está todo mundo contra mim”, em uma clara tentativa de mobilizar a base bolsonarista em torno da narrativa de perseguição. Vários especialistas comentaram que o discurso “se apega em críticas ao adversário, sem apresentar soluções para os problemas do país. É o mais do mesmo, de um pólo ao outro”, concluem.
Diferenças
As diferenças entre os dois projetos, no entanto, também emergiram em temas atuais e revelaram visões opostas sobre o papel do Estado. Na segurança pública, Lula defendeu o combate ao crime organizado a partir da prisão dos chefes das quadrilhas, que, segundo ele, moram em coberturas de bairros nobres, em vez da repressão a pequenos bandidos nas favelas, e argumentou que a falta de oportunidades transforma jovens em criminosos, sendo a educação um investimento mais barato do que a manutenção de presos no sistema carcerário.
Flávio apresentou soluções radicalmente distintas, propondo a redução da maioridade penal, o tratamento de organizações criminosas como grupos terroristas e a castração química de estupradores.
Na economia, o presidente exaltou os números de geração de emprego, o crescimento da indústria e a abertura de vagas em universidades para emoldurar o slogan “isso é pensar no futuro”, enquanto o senador criticou a gestão petista, que classificou como gastadora, prometendo colocar as contas públicas em ordem para eliminar as causas do endividamento das famílias.
A frase que sintetizou o embate econômico veio do candidato do PL, que declarou que “essa dívida não é sua, essa dívida é do Lula”. Sobre a soberania nacional, Lula fez referência ao interesse de Estados Unidos e China nos minerais estratégicos existentes no Brasil para defender a autonomia do país, ao passo que Flávio rebateu ao afirmar que “soberania” é o que falta aos brasileiros no dia a dia da insegurança pública e dos territórios ocupados por bandidos.
Voto feminino
A disputa pelo eleitorado feminino também marcou o primeiro dia de campanha, com os dois candidatos prometendo combater a violência doméstica. “Mulheres deste País, não baixem a cabeça nunca”, disse Lula, enquanto Flávio garantiu que agressores de mulheres vão “mofar na cadeia”.
Ambos escancararam a mesma convicção de que precisam cortejar o voto feminino a qualquer custo para vencer a eleição, o que evidencia a relevância estratégica desse segmento do eleitorado na disputa.
O contexto que antecede a largada, contudo, não se limitou aos palanques. Na semana anterior, a pré-campanha foi marcada por episódios que colocaram o entorno dos candidatos sob escrutínio, como a operação contra o senador Jaques Wagner, que levou o Banco Master para o centro do noticiário e aproximou o caso do presidente Lula, enquanto Flávio tentava se desvencilhar da ligação com o banqueiro Daniel Vorcaro, preso pela Polícia Federal no rastro do escândalo financeiro no qual é protagonista.
Flávio também cogitou Michelle Bolsonaro para a vice-presidência após o desgaste nas negociações com Tereza Cristina e Daniella Marques, antes de fechar com Alfredo Gaspar. No plano internacional, a autoridade do governo Trump acusou o Brasil de censura após mudança no algoritmo do X para as eleições, e o novo tarifaço americano sobre produtos brasileiros pressionou a agenda econômica, temas que devem atravessar a campanha.
A medição dos atos também reforçou as diferenças. Enquanto o comício de Lula em São Bernardo do Campo não teve o público estimado, em razão do impedimento de sobrevoo de drones pela própria campanha, a USP/Cebrap e a ONG More in Common calcularam a presença de cerca de 8,9 mil pessoas no ato de Flávio em Copacabana, um número considerado abaixo dos registrados em manifestações bolsonaristas anteriores, o que levou a imprensa a descrever o evento como esvaziado, com direito a bandeiras dos Estados Unidos, orações e xingamentos, e sem a presença de Michelle Bolsonaro.
O primeiro dia de campanha, portanto, delineou com nitidez duas estratégias que se mirarão até outubro, com Lula apostando na memória da gestão petista e na conexão com o trabalhador e Flávio ancorado no antipetismo e no legado do pai, em um embate que, só representará avanço em relação a 2022 se os candidatos evitarem deslizar para a deslegitimização e a desumanização do adversário, um risco permanente em uma eleição em que a polarização entre as duas maiores forças políticas do país segue sendo o principal combustível da disputa e o eleitorado, ainda dividido entre os dois polos, permanece como o árbitro final de uma corrida que começa equilibrada e promete se decidir nos detalhes.
* Reportagem: Val-André Mutran (Brasília-DF), especial para o Portal Ver-o-Fato.















