No dia 10 passado, o Exército notou uma “discrepância no controle” de armas acauteladas no Arsenal de Guerra de São Paulo, localizado em Barueri. Durante uma inspeção, verificou-se o sumiço de 8 fuzis calibre 7,62 e 13 metralhadoras calibre .50, um dos mais temidos armamentos de guerra por sua alta capacidade de destruição. Imediatamente, o Comando Militar do Sudeste (CMSE) ordenou o “aquartelamento de prontidão” da tropa (cerca de 480 militares) e instaurou um Inquérito Policial Militar (IPM) para investigar o furto.
O fato é gravíssimo e deve ser rigorosamente apurado e punido. Cada dia que passa sem que essas armas sejam recuperadas é um dia a mais de vulnerabilidade para a população e para as próprias forças de segurança do Estado.
O destino de um arsenal como esse, obviamente, só pode ser alguma, ou algumas, das facções criminosas mais perigosas do País, como o Primeiro Comando da Capital (PCC) ou o Comando Vermelho (CV). Afinal, só quadrilhas bem organizadas e com muito dinheiro teriam condições de patrocinar a façanha de desviar de uma armaria do Exército nada menos que 21 armas de guerra que, juntas, pesam mais de meia tonelada.
Não foi o primeiro caso, mas se trata do mais grave desvio de armas da Força Terrestre desde 2009. É hora de o Exército recorrer a instituições mais bem preparadas para conduzir a investigação, como a Polícia Civil de São Paulo ou a Polícia Federal. Ao que tudo indica, criminosos muito bem articulados estão envolvidos no furto. Um IPM, por mais relevante que seja no caso, pois é evidente que houve envolvimento direto de militares na empreitada delitiva, não se presta a ir tão longe.
Não tranquiliza a população o fato de o CMSE ter informado que as armas furtadas eram “inservíveis” e estavam “recolhidas para manutenção”. Ora, se o armamento era passível de reparo, decerto as organizações criminosas não teriam dificuldade em deixá-lo em condições de tiro em questão de dias, talvez semanas. E, ainda que se tratasse de ferro-velho, a revelação de tamanha brecha na segurança de uma instalação militar é inquietante por si só.
Sabe-se bem o que facções como o PCC são capazes de fazer com uma metralhadora calibre .50 em seu poder, que dirá com 13. Foi essa arma que o bando usou para trucidar o traficante Jorge Rafaat Toumani, conhecido como “Rei da Fronteira”, numa disputa pelo controle de rotas do tráfico internacional na cidade de Pedro Juan Caballero, no Paraguai, em 2016. Um rifle .30 com munição especial foi usado para derrubar um helicóptero blindado da Polícia Militar do Rio por traficantes do Morro dos Macacos, em 2009. Na ocasião, três policiais morreram.
Enquanto essas 21 armas não forem recuperadas, e os responsáveis pelo furto, identificados e punidos, a população e as forças de segurança têm razões de sobra para se preocupar. É vital, literalmente, que o Exército resolva o caso – com auxílio da polícia – e, principalmente, reveja os seus protocolos de segurança para que algo assim jamais torne a acontecer. (Editorial do Estadão)















