▪︎ Senador do PL-RJ não se licenciou do mandato para atuar como comentarista da CazéTV e colunista do jornal O Globo
▪︎ Sistema de votação remota do Senado permite participação à distância sem desconto na remuneração — uma vergonha regimental que afronta o contribuinte
Brasília – Independente do resultado da Copa do Mundo da Fifa 2026, o senador Romário (PL-RJ), se sai do torneio com os bolsos cheios de dinheiro, parte dele, fruto do suor do contribuinte. O político tornou-se protagonista de uma controvérsia política que mobiliza as redes sociais e acendeu o debate sobre os limites do exercício parlamentar durante períodos de afastamento não oficial.
O ex-jogador, campeão mundial em 1994, encontra-se nos Estados Unidos desde o início de junho para acompanhar a Copa do Mundo de 2026 como comentarista da CazéTV e colunista do jornal O Globo, mas optou por não solicitar licença do mandato no Senado Federal. Com isso, continua a receber integralmente o salário mensal de R$ 46.366,19 pago aos senadores da República — e sabe-se lá quanto, como comentarista de luxo.
A situação ganhou novos contornos na última quarta-feira (25), quando Romário foi filmado e fotografado durante uma festa pós-jogo em um hotel de luxo na praia de Miami, após a vitória do Brasil contra a Escócia na fase de grupos do Mundial.
As imagens, que rapidamente se espalharam pelas redes sociais, mostram o senador amarrado a uma roleta e dançando ao lado de celebridades brasileiras. O episódio ocorre enquanto Romário acumula as funções de comentarista esportivo e parlamentar, tudo sem prejuízo da remuneração paga pelo contribuinte.
Procurado pela imprensa para comentar, o senador afirmou que a viagem foi custeada com recursos próprios e que não há qualquer ônus para o Senado Federal. A assessoria do parlamentar informou ainda que a viagem foi aprovada pela Casa e que não há afastamento formal do mandato. A brecha regimental ofende o contribuinte que paga o salário dos políticos brasileiros.
A possibilidade de Romário manter o salário integral enquanto está fora do país reside no modelo de funcionamento adotado pelo Senado. Até o início do recesso parlamentar, no dia 18 de julho, a Casa realiza sessões semipresenciais, o que permite que os senadores participem das votações e dos debates de forma remota, por meio do Sistema de Deliberação Remoto (SDR).
Desenvolvido pelo próprio Senado e inaugurado em 20 de março de 2020, nove dias após a declaração da pandemia de covid-19 pela Organização Mundial da Saúde (OMS), o sistema foi o primeiro do gênero entre parlamentos do mundo inteiro, e depois da pandemia entrou para a lista de “jeitinhos” para políticos se locupletarem dos recursos públicos.
Por meio de um aplicativo registrado em dispositivo móvel de uso pessoal do parlamentar, os senadores podem registrar presença, discursar e votar sem estar fisicamente no plenário.
A punição com dedução do salário só ocorre caso o parlamentar não registre presença ou deixe de participar de votações no dia. Em sessões semipresenciais, como as que vêm ocorrendo, essa participação remota é plenamente válida — e legal.
Até quinta-feira (25), o Senado realizou 31 sessões plenárias desde o início do mês. Desse total, apenas 12 foram presenciais; as outras 19 foram semipresenciais, o que viabiliza a situação atual de Romário.
O recesso parlamentar começa no dia 18 de julho e se estende até o dia 31 do mesmo mês, e a final da Copa está marcada para 19 de julho — um dia após o início do recesso.
A atuação legislativa de Romário durante o período, no entanto, tem sido alvo de questionamentos. Desde que voltou de uma licença parlamentar de quatro meses, em abril, o senador teve atuação discreta no Senado.
Nesse período, ele não apresentou nenhuma proposta legislativa e não participou de discussões ou votações nominais nas duas comissões das quais é membro titular: a Comissão de Esporte e a Comissão de Assuntos Sociais.
Em dois meses, Romário discursou no plenário em duas ocasiões. A primeira foi no dia 9 de junho, quando assumiu a relatoria de um projeto de lei complementar sobre isenção de Imposto sobre Serviços (ISS) para a Copa do Mundo Feminina de 2027, que será realizada no Brasil.
Na ocasião, ele usou a tribuna para se defender de críticas nas redes sociais relacionadas ao seu posicionamento sobre a proposta de emenda à Constituição que acaba com a escala de trabalho 6×1.
O segundo discurso ocorreu no dia 16 de junho, já diretamente dos Estados Unidos, quando participou remotamente da discussão sobre a criação da Universidade do Esporte. Ele também participou de votações no plenário estando em território americano.
A contratação de Romário como comentarista pela CazéTV, emissora digital do streamer Casimiro, somada à coluna que mantém no jornal O Globo, gerou uma enxurrada de críticas nas redes sociais. Enquanto isso, o senador poderá permanecer nos Estados Unidos até a final do Mundial, no dia 19 de julho, acumulando o salário de senador com os rendimentos do trabalho como comentarista esportivo — algo que a legislação brasileira não veda, desde que não haja conflito de horários com as atividades parlamentares e que a participação nas votações seja mantida.
O caso reacende o debate sobre a necessidade de regulamentação mais rigorosa para o exercício remoto do mandato parlamentar e sobre os limites éticos da acumulação de funções públicas com atividades privadas durante o período de exercício do cargo.
Enquanto o Senado não alterar suas regras, a situação de Romário permanece dentro da legalidade — ainda que politicamente incômoda para a imagem da instituição e para o próprio parlamentar, que enfrenta crescente desgaste público.
* Reportagem: Val-André Mutran (Brasília-DF), especial para o Portal Ver-o-Fato.















