Trajetória do pleito
Se a eleição presidencial de 2026 precisava de um retrato de quanto a disputa já ocupa o noticiário, ele veio nesta segunda-feira (24): em um único dia, o país acompanhou a sabatina de um presidenciável na TV Globo, a confirmação do novo salário mínimo para 2027 e uma representação da campanha de Flávio Bolsonaro contra o governo no Tribunal Superior Eleitoral. Três frentes distintas — programa de governo, gestão econômica e litígio eleitoral — que, lidas em conjunto, desenham os contornos da trajetória engajada no pleito.
Sabatina
Romeu Zema (Novo) foi o primeiro candidato entrevistado na série de sabatinas da TV Globo, conduzida por Renata Vasconcellos e César Tralli, nos Estúdios Globo, no Rio de Janeiro. Ex-governador de Minas Gerais, o presidenciável concentrou sua fala em propostas de endurecimento penal, perfil de tolerância zero que já ensaiava em aparições anteriores, quando elogiou o modelo de El Salvador sem, contudo, adotar integralmente as medidas de Nayib Bukele — agora, no palanque nacional, o discurso ganha contornos de plataforma eleitoral.
Facções
Entre as medidas defendidas por Zema está a conversão obrigatória da prisão em flagrante em preventiva para suspeitos detidos pela terceira vez e a classificação das facções criminosas como organizações terroristas, em alinhamento à decisão recente dos Estados Unidos. “Quarenta mil pessoas vivem uma tragédia no Brasil. Boa parte dos brasileiros vive em áreas dominadas por facções, que serão declaradas organizações terroristas. Esse povo terá acesso à cidadania”, afirmou. A proposta tem apelo retórico imediato, mas esbarra em complexidades jurídicas: equiparar crime organizado a terrorismo altera regimes de persecução penal e exige compatibilização com o ordenamento brasileiro.
Judiciário
Zema reconheceu que o Brasil possui um sistema Judiciário estruturado, mas o classificou como “robusto, caro, porém lerdo”. “No dia em que tivermos uma Justiça ágil, ela terá de funcionar para as pessoas de bem”, declarou. As mudanças para acelerar a tramitação dos processos e aumentar a efetividade das decisões, contudo, dependeriam de alterações legislativas e administrativas, além da preservação do direito de defesa e do devido processo legal — ressalva que dimensiona o desafio de reformar a Justiça sem atropelar garantias constitucionais.
Mulheres
Ainda na sabatina, o candidato apresentou medidas de enfrentamento à violência contra as mulheres: ampliação das delegacias especializadas, uso de tornozeleiras eletrônicas em homens submetidos a medidas protetivas e ações de conscientização nas escolas. O tema, vale registrar, também esteve na agenda do Palácio do Planalto no mesmo período, com o encontro entre o ministro do STF Edson Fachin e a primeira-dama Janja da Silva para discutir o assunto — sinal de que a pauta se consolidou como arena de disputa simbólica entre governo e oposição.
Anistia
Zema defendeu a anistia aos condenados pelos atos de 8 de janeiro de 2023 e negou que os ataques tenham configurado tentativa de golpe: “Não existe, na história da humanidade, uma tentativa de golpe que tenha sido um movimento de vandalismo e depredação como o que aconteceu em janeiro de 2023”. “Não houve nenhum tiro”, justificou. O candidato afirmou que, se eleito, concederá anistia ou buscará um “tribunal que não seja político e seja judicial”, citando o caso de Débora do Batom — condenada a sete anos por sujar um monumento — para questionar a proporcionalidade das penas aplicadas.

Salário mínimo
No terreno econômico, o ministro da Fazenda, Dario Durigan, confirmou que o salário mínimo de 2027 será de R$ 1.741, alta de R$ 120 sobre o valor atual, conforme o Projeto de Lei Orçamentária Anual (PLOA) discutido com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e a Junta de Execução Orçamentária (JEO). O reajuste, que segue a regra legal de correção, terá impacto direto sobre benefícios previdenciários e sociais vinculados ao piso, como o Benefício de Prestação Continuada (BPC).
Arcabouço
Durigan classificou a proposta orçamentária como “muito robusta” e afirmou que a peça prevê resultado positivo para o país, adequado às regras do arcabouço fiscal, com crescimento das despesas obrigatórias inferior ao aumento geral do orçamento em 2027. Sobre a inclusão da CSLL, dos Juros sobre Capital Próprio e do imposto seletivo nas projeções de arrecadação, o ministro disse que ainda não houve decisão. O projeto, prometido “sem armadilhas”, precisa chegar ao Congresso até 31 de agosto, prazo que concentra as atenções do mercado.

Máquina
No mesmo dia, a campanha de Flávio Bolsonaro (PL-RJ) acionou o TSE contra Durigan e Lula, acusando o ministro de atuar de forma reiterada como “porta-voz econômico” da candidatura à reeleição, com suposta sobreposição da estrutura administrativa, logística e orçamentária do Ministério da Fazenda em compromissos de caráter eleitoral. A representação cita os artigos 73, incisos I, II e III, da Lei das Eleições, e elenca encontros como a 27ª Conferência Anual do Santander, reuniões com banqueiros e a entrevista concedida à CBN em 20 de agosto, registrada na agenda oficial do ministro como atividade funcional.
Tutela
Além de pedir a preservação e apresentação de documentos desde 20 de julho de 2026 — registros eletrônicos de viagens (SCDP), diárias, histórico de alterações da agenda oficial, relação de servidores envolvidos e comprovantes de despesas —, a campanha de Flávio solicitou tutela inibitória para impedir que recursos e servidores públicos custeiem a atuação de Durigan como suposto porta-voz eleitoral. A assessoria do ministro da Fazenda não se manifestou até o fechamento desta edição.
Cenário
A coincidência de datas não passou despercebida: no dia em que o governo anunciava o salário mínimo, a oposição formalizava a acusação de uso eleitoral da máquina pública. Em ano de reeleição, todo gesto de palanque econômico converte-se em prova em potencial — e o TSE, ao lado do STF, consolida-se como arena central do pleito, num dia em que a Corte também autorizou a Polícia Federal a acessar dados sobre uma produtora responsável pelo filme Dark Horse, sobre Jair Bolsonaro, capítulo que promete desdobramentos. Se a sabatina de Zema mostrou um desafiante que disputa o eleitor pelo endurecimento penal, a representação de Flávio Dino revela uma campanha que aposta no Judiciário eleitoral como instrumento de desgaste do governo.
Val-André Mutran é repórter especial para o Portal Ver-o-Fato e está sediado em Brasília.
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