A ilusão das pesquisas e a realidade eleitoral
Renan Santos, pré-candidato à Presidência pelo Missão, acaba de publicar um vídeo em que projeta sua vitória nas eleições presidenciais e promete “arrasar” Lula em debates. O gatilho para tal declaração foi a divulgação de uma pesquisa do instituto Real Time Big Data que o colocou em terceiro lugar, com 6% das intenções de voto.
Santos cita a pesquisa, se vangloria e ao mesmo tempo a questiona
Numa declaração curiosa, Santos se vangloria dos números apresentados pela pesquisa, mas ao mesmo tempo, questiona seus números, num narrativa paradoxal. Embora reconheça o crescimento de sua pontuação — que dobrou em relação à medição anterior —, ele questiona a metodologia do instituto e sustenta que sua trajetória é ascendente.
O ataque como arma de defesa
O discurso é típico de candidatos em fase de consolidação: amplificar ganhos marginais e desacreditar instrumentos de medição que não refletem suas expectativas. Contudo, a lacuna entre a projeção pessoal e os números objetivos permanece considerável. A retórica de confiança, embora necessária para mobilizar apoiadores, não substitui a construção de uma base eleitoral sólida. O desafio de Santos não é apenas crescer nas pesquisas, mas transformar esse crescimento em votos reais, tarefa que exige muito mais do que bravata.
A segurança pública como pilar discursivo
Entre as propostas que Santos reforça em sua campanha, destaca-se o endurecimento das políticas de segurança pública. O candidato declarou que pretende “matar bandido como se não houvesse amanhã”, linguagem que apela ao sentimento de insegurança que permeia a população brasileira.
Essa abordagem, embora ressonante em determinados segmentos eleitorais, carece de sofisticação programática. A segurança pública é um desafio multifatorial que envolve prevenção, inteligência policial, ressocialização e políticas sociais integradas. Reduzir a questão a uma fórmula de repressão extrema, ainda que simbolicamente poderosa, oferece pouco em termos de solução estrutural.
O que Santos oferece é uma narrativa de força, não uma estratégia de governo. Isso pode funcionar como ferramenta de campanha, mas deixa em aberto como um eventual governo Santos lidaria com a complexidade real da criminalidade organizada e da violência urbana.

A composição da chapa e a aposta num vice com perfil militar
O anúncio de Aroldo Medina, tenente-coronel reservista da Brigada Militar do Rio Grande do Sul, como vice de Renan Santos, revela uma estratégia clara: reforçar a narrativa de ordem e segurança.
Medina, aos 62 anos, acumula experiência em segurança pública e defesa civil, além de possuir pós-graduação na área. Sua trajetória eleitoral, porém, é marcada por sucessivas derrotas — seis disputas eleitorais sem êxito.
A escolha de um militar para a vice-presidência é um sinal de que Santos busca se posicionar como alternativa de “mão firme” em um contexto de descontentamento com a gestão petista. Contudo, a aposta em um perfil militar, ainda que responda a demandas de segurança, pode alienar eleitores que temem retrocessos democráticos ou que associam militarismo a autoritarismo.
A chapa Renan-Medina é uma aposta clara em um segmento específico do eleitorado, com riscos de rejeição em outros.

Os doze trabalhos de Flávio Bolsonaro: Hércules renascido?
Se Renan Santos enfrenta desafios de consolidação, Flávio Bolsonaro, pré-candidato pelo PL, carrega um fardo ainda mais pesado: o legado de seu pai. Mauricio Moura, fundador do instituto Ideia, oferece uma análise perspicaz ao comparar a missão de Flávio aos doze trabalhos de Hércules. O paralelo é apropriado: o filho de Bolsonaro enfrenta obstáculos que vão muito além da competição eleitoral ordinária.
Primeiro, o sobrenome oferece recall extraordinário, mas também carrega a rejeição acumulada pela gestão anterior. Flávio é hoje o candidato de oposição mais rejeitado, com níveis semelhantes aos de Lula — um paradoxo que beneficia o governo.
Segundo, a memória negativa da pandemia permanece como cicatriz eleitoral profunda, que dá sinais que jamais será esquecida pelos familiares das vítimas.
Terceiro, os escândalos recentes — os áudios com Daniel Vorcaro e o caso do Banco Master — minaram a credibilidade de combatente da corrupção que Flávio tentava cultivar.
Quarto, o senador não pode se apresentar como outsider, argumento que elegeu Collor e seu pai.
Quinto, a desconfiança da classe média quanto ao respeito às instituições democráticas persiste, alimentada pela sombra do 8 de Janeiro.
Sexto, a bandeira de anistia para os condenados pelo 8/1, crucial para a família, não ressoa na sociedade.
Sétimo, a campanha ainda não apresentou resposta clara sobre custo de vida e endividamento das famílias — preocupações centrais dos eleitores indecisos.
Oitavo, a relação com Trump tende a prejudicar mais do que ajudar, especialmente diante da imprevisibilidade do presidente americano. Na política externa, Flávio declarou na quinta-feira (2), que pretende retirar o Brasil do Mercosul: um suicídio político anunciado.
Nono, o quadro estadual mudou: governadores bem avaliados não dependem de Flávio e podem ser discretos ou refratários.
Décimo, o filho do capitão não entusiasma o eleitorado evangélico, segmento fundamental para uma vitória da oposição.
Décimo primeiro, Flávio vai muito mal entre mulheres — diferença que explicou a derrota de seu pai em 2022.
Décimo segundo, Michelle Bolsonaro representa uma liderança política sólida entre mulheres e evangélicas, criando uma dinâmica interna complexa.
Esses doze obstáculos não são meramente eleitorais; são estruturais e refletem transformações profundas no eleitorado brasileiro.

O STJ e a urgência da reforma processual
Enquanto a campanha presidencial se desenrola, o Poder Judiciário enfrenta sua própria crise. O Superior Tribunal de Justiça (STJ) celebrou a aprovação, pelo Senado Federal, do projeto que regulamenta o filtro de relevância — mecanismo que introduz requisitos para a admissão de recursos especiais na Corte.
O ministro Luís Felipe Salomão, futuro presidente do tribunal, classificou a aprovação como “expressiva vitória”. A razão é simples: o STJ está inviabilizado. No primeiro semestre de 2026, chegaram 260 mil processos à Corte, com um acervo total de 318 mil casos — número que o presidente Herman Benjamin qualificou como “espantoso” e inexistente em qualquer outro tribunal do mundo.
Tribunal de precedentes
O filtro de relevância, instituído pela Emenda Constitucional 125/2022, busca transformar o STJ em um tribunal de precedentes, reduzindo o volume de casos e permitindo que a Corte se concentre na fixação de teses vinculantes. A aprovação unânime na Comissão de Constituição e Justiça do Senado, com parecer favorável do relator Sergio Moro (PL-PR), indica consenso sobre a necessidade da medida.
Votação na Câmara
Agora, o desafio é a aprovação na Câmara dos Deputados ainda neste semestre, antes do recesso parlamentar, em 18 de julho. A reforma é essencial não apenas para a eficiência do STJ, mas para a própria viabilidade do sistema de justiça brasileiro.

Venezuela, tortura e o direito internacional
No plano internacional, a Corte Interamericana de Direitos Humanos (Corte IDH) proferiu sentença histórica contra a Venezuela, condenando o país pela detenção ilegal, tortura e impunidade no caso de Jorge Rojas Riera, civil preso durante manifestação em Caracas em 2003.
Helicoide: o calabouço moderno
A sentença, proferida em abril de 2026, ordenou o fechamento do Helicoide, centro de detenção que se tornou símbolo da repressão política venezuelana. Rojas Riera foi detido por agentes da DISIP durante protesto contra Hugo Chávez, submetido a tortura sistemática — encapuzamento, sufocamento, simulação de execução — e processado criminalmente. A investigação sobre a tortura nunca avançou, e Riera eventualmente deixou o país.
A sentença condenatória
A condenação é significativa não apenas pela reparação individual — US$ 50 mil em danos imateriais — mas pela ordem de fechamento do Helicoide em até 18 meses. Para Silvia Souza, presidente da Comissão Nacional de Direitos Humanos da OAB, a medida representa “o ápice do que chamamos no direito internacional de garantias de não repetição com impacto sistêmico”.
A Casa de Horrores montada pelo facínora Nicolás Maduro
O Helicoide deixou de ser visto como mero estabelecimento prisional para ser reconhecido como símbolo institucionalizado de tortura. A sentença também determinou a criação de registro oficial de denúncias de tortura, implementação de protocolo de investigação e ato público de reconhecimento de responsabilidade. Contudo, o cenário político venezuelano permanece incerto, e o cumprimento da sentença dependerá da vontade política do regime levado ao extremo por Nicola Maduro. A Corte IDH pode impor novas sanções em caso de descumprimento, mas a efetividade da decisão permanece como questão aberta.
Val-André Mutran é repórter especial para o Portal Ver-o-Fato e está sediado em Brasília.
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