Em sabatina na TV Globo, candidato do Missão defende desvincular pisos de saúde e educação para reduzir a dívida pública. Colunistas da emissora consideraram o candidato com forte viés”autoritário”
Brasília – Em sua primeira exposição a uma grande audiência na TV aberta, o candidato do Missão à Presidência da República, Renan Santos, defendeu na quarta-feira (26) uma nova reforma da Previdência, o endurecimento da legislação contra o crime organizado com a possibilidade de um regime de exceção nas favelas e classificou como inadequadas as declarações do ex-deputado Arthur do Val sobre mulheres ucranianas, em sabatina promovida pela TV Globo que lhe rendeu nota média 2,6 numa escala de 1 a 5, com ressalvas severas de colunistas da emissora fluminense às teses autoritárias apresentadas ao longo da entrevista.
A promessa de nova reforma da Previdência
A declaração mais contundente da noite veio na área econômica. Ao ser questionado sobre sua agenda fiscal, Renan Santos afirmou que será necessário promover outra reforma da Previdência para evitar o colapso do sistema previdenciário. “Vamos precisar fazer outra reforma da Previdência, senão vai quebrar e, em três anos, você não vai ter aposentadoria”, disse o candidato, sem detalhar, no entanto, quais medidas pretende adotar para alterar as regras de aposentadoria.
O alerta ocorre pouco mais de seis anos após a aprovação da Emenda Constitucional 103, de 2019, que endureceu as regras previdenciárias no país, e reacende um debate sensível em ano eleitoral, uma vez que mudanças nessa área atingem diretamente o futuro de milhões de brasileiros. Segundo o postulante, sem a nova rodada de mudanças o país enfrentará dificuldades para garantir o pagamento das aposentadorias nos próximos anos.
A desvinculação dos pisos de saúde e educação
Na mesma linha de ajuste fiscal, Renan Santos defendeu a desvinculação dos pisos constitucionais destinados à saúde e à educação como forma de diminuir a dívida pública. Hoje a Constituição assegura aplicação mínima de 18% da arrecadação de impostos em educação e de 15% da receita corrente líquida em saúde, e o candidato argumentou que essa vinculação obriga o governo a gastar mais nessas áreas. “Eu defendo desvincular o piso da educação e da saúde. Essas vinculações fazem nós gastarmos mais nessas áreas”, afirmou. A proposta, porém, tende a reabrir um embate político sensível, já que os pisos são vistos por educadores, gestores de saúde e parlamentares como salvaguarda do financiamento de serviços essenciais.
A defesa de Arthur do Val e o caso dos áudios
Outro momento de forte repercussão foi a defesa que o candidato fez de Arthur do Val, o “Mamãe Falei”, ex-deputado estadual paulista ligado ao MBL, movimento fundado e liderado por Renan Santos. Questionado sobre os áudios enviados em 2022, durante uma viagem à Ucrânia em guerra contra a Rússia, nos quais afirmou que as mulheres ucranianas seriam “fáceis, porque são pobres”, Renan classificou o conteúdo como inadequado.
“Foram declarações ruins. Vamos contextualizar. Eu não ouvi ele quando ele emitiu o áudio. Eu vi que ele estava fazendo um áudio ali com o celular na mão. Gostaria de ter evitado. O áudio que ele mandou, em defesa dele, foi um áudio privado. […] Esse áudio vazou e após vazar ele sofreu as consequências políticas dele. O áudio é muito ruim. Se a pessoa ouve o áudio, qualquer mulher ou homem fala: esse áudio não é adequado”, disse o candidato.
Renan, no entanto, relativizou a punição sofrida pelo ex-parlamentar ao afirmar que a perda do mandato não ocorreu pelo “áudio em si”, mas pelo fato de do Val ser um deputado “muito combativo na Alesp” e fazer oposição ao “grupo político dominante” na Assembleia Legislativa de São Paulo. A versão, contudo, contraria o registro oficial do caso, uma vez que Arthur do Val renunciou ao mandato em abril de 2022 e foi cassado por unanimidade pelo plenário da Alesp no mês seguinte, com fundamento na quebra de decoro parlamentar, tornando-se inelegível por oito anos.
Questionado se episódios como esse e o fato de cerca de 90% dos integrantes do Missão serem homens poderiam afastar o eleitorado feminino, Renan rejeitou a possibilidade com um “de maneira alguma”, afirmando que mulheres deixam de ingressar na legenda por medo de sofrer perseguição. A tese foi recebida com ceticismo pela colunista Míriam Leitão, segundo a qual o candidato “não consegue esconder a sua misoginia e a do seu partido”.
Guerra ao crime e regime de exceção nas favelas
No campo da segurança pública, o candidato afirmou que pretende endurecer a legislação contra o crime organizado caso seja eleito no pleito de outubro. Renan disse que a “guerra” no Rio de Janeiro é uma “necessidade” e que o Brasil precisa declarar guerra ao crime organizado, admitindo inclusive a adoção de um “regime de exceção” para retomar o controle de territórios dominados por facções em favelas.
“O Brasil declarou uma guerra. Sua vida é ser refém se o crime organizado está em guerra com você. Precisamos declarar uma guerra contra o crime organizado”, declarou, antes de completar que pretende “desfavelizar o Brasil”.
Para viabilizar o combate, o postulante propôs mudanças no Código de Processo Penal e penas mais duras para crimes cometidos com armas, argumentando que hoje “não há meios de manter membros de facções presos por muito tempo” e que, eleito, pretende uma “legislação que será mais dura”. As propostas, no entanto, foram recebidas com alerta pela banca avaliadora, que identificou no discurso ecos de teses autoritárias, como o “direito penal do inimigo” e o desrespeito a decisões do STF.

A avaliação da banca do grupo de comunicação
O desempenho de Renan Santos foi o terceiro da série de entrevistas promovida pela TV Globo com os seis candidatos mais bem colocados na última pesquisa Quaest, comandadas pelos jornalistas Renata Vasconcellos e César Tralli e exibidas ao vivo após o Jornal Nacional, entre segunda-feira (24) e sábado (29).
A ordem dos entrevistados foi definida por sorteio com a presença de representantes dos partidos, e o candidato do Missão sucedeu os ex-governadores Romeu Zema (Novo), de Minas Gerais, e Ronaldo Caiado (PSD), de Goiás. Depois dele, serão sabatinados o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), na quinta-feira (27), Flávio Bolsonaro (PL), na sexta-feira (28), e o psiquiatra e escritor Augusto Cury (Avante), no sábado (29).
Na avaliação dos colunistas do grupo de comunicação, a atuação de Renan foi descrita como “fluente” e “preparada”, rendendo-lhe nota média 2,6, superior às de Zema (2) e Caiado (1,4). As notas, porém, vieram acompanhadas de ressalvas severas.
Vera Magalhães (nota 4) e Pablo Ortellado (nota 4) elogiaram o preparo, mas alertaram para o conteúdo, com Ortellado afirmando que a performance “quase excelente” do candidato “é assustadora”, por defender “teses autoritárias perigosas com aparência de bom senso”, e advertindo que, se eleito, “o lema radical terá sido legitimado pelo voto”.
Thomas Traumann (nota 1) foi o mais duro, ao sustentar que Renan “defendeu bomba atômica, banho de sangue, estado de defesa, decretação de ‘inimigos do povo’, desrespeito a decisões do STF e se colocou como candidato a ditador”.
Merval Pereira (nota 3) avaliou que o candidato “parece menos artificial do que os antecessores”, enquanto Lauro Jardim (nota 2) o descreveu como “um bom comunicador de ideias ruins e contraditórias”.
Míriam Leitão (nota 2) reconheceu a fluência e a convicção, mas classificou as propostas como “totalmente deletérias se aplicadas”.
Bela Megale (nota 2) afirmou que “o conteúdo de suas propostas assusta” e apontou a bomba nuclear como a principal política internacional do candidato, além da proposta de estado de exceção nas favelas e da sinalização de que não cumprirá decisões judiciais que ele próprio julgar ilegais.
Fabio Graner (nota 3), por sua vez, reconheceu que Renan chegou à bancada “muito mais preparado” do que no debate em que abusou dos xingamentos, aproveitando a oportunidade para se tornar mais conhecido do eleitorado.
Ao fim da sabatina, ficou o retrato de um candidato que domina a retórica e demonstra preparo, mas cujas propostas, da nova reforma da Previdência ao regime de exceção nas favelas, passando pela bomba atômica e pelo descumprimento de decisões judiciais, escancaram um projeto que, na leitura de seus próprios avaliadores, flerta com o autoritarismo e agora será posto à prova nas urnas de outubro.
Reportagem: Val-André Mutran (Brasília-DF), especial para o Portal Ver-o-Fato.















