Investigação afirma que organização ocultava recursos, pagava propinas e operava também com dinheiro do crime organizado. Quem são os envolvidos? O esquema continua atuando?
Brasília – As investigações sobre a chamada Rede Arpar seguem em curso e ampliaram o alcance do escândalo das fraudes previdenciárias no INSS. Apontada pela CPMI do INSS e pela Polícia Federal como uma das maiores estruturas de lavagem de dinheiro e evasão de divisas já identificadas no país, a organização teria movimentado cerca de R$ 39 bilhões, com potencial para ultrapassar R$ 45 bilhões, operando como um “banco clandestino” para ocultar recursos, remeter valores ao exterior e dar aparência lícita a dinheiro de origem criminosa.
A rede foi descoberta com a deflagração, desde abril do ano passado, de ao menos seis fases da operação Sem Desconto pela Polícia Federal, criada para apurar fraudes no INSS.

Essas ações levaram à prisão de dezenas de investigados, ao afastamento de cúpulas inteiras da administração federal e à apreensão de bens de alto valor, como carros, jatos, coleções de vinhos, obras de arte e dinheiro em espécie.
Em junho do ano passado, a Advocacia-Geral da União obteve na Justiça o bloqueio de R$ 2,8 bilhões em bens e ativos de associações, empresas e pessoas físicas investigadas, entre elas a Arpar e seu presidente. A decisão também autorizou a quebra de sigilos bancário e fiscal de 2019 a 2025 e a divisão do processo em 15 ações, tal sua complexidade.
O relatório final da CPMI, descreve um esquema baseado em pelo menos 40 empresas, com uso de pessoas interpostas, as chamadas laranjas, contratos falsos de consultoria, depósitos em contas de familiares de envolvidos e operações com criptoativos.
A engrenagem, funcionava em três etapas clássicas de lavagem de capitais: colocação, quando os recursos entravam no sistema financeiro; ocultação, quando circulavam entre dezenas de empresas e instrumentos financeiros para dificultar o rastreamento; e integração, quando eram reinseridos na economia formal ou enviados ao exterior por meio de importações e exportações simuladas.
Com o avanço das apurações descobriu-se que a rede está interconectada a um universo mais amplo do que as fraudes previdenciárias. Além do dinheiro desviado de benefícios do INSS, há indícios de recursos ligados a tráfico de drogas, comércio de armas, adulteração de combustíveis, roubos, extorsões praticadas por facções como o Primeiro Comando da Capital e apostas ilegais.
O relatório aponta ainda repasses de propinas a agentes públicos e políticos, por meio de empresas de fachada e contas de laranjas ou familiares dos corrompidos.
No plano político, o caso tem implicações imediatas e relevantes. Documentos informam que o relatório da CPMI não foi aprovado após uma manobra de parlamentares governistas, apesar de pedir mais de 200 indiciamentos.
A própria comissão, segundo o texto, alertou para uma falha grave do sistema de integridade brasileiro, formado por órgãos como a Controladoria-Geral da União, o Tribunal de Contas da União e ouvidorias, por não ter impedido que uma estrutura clandestina saqueasse aposentados vulneráveis.
O relatório mencionou a existência de um “sustentáculo político”, com nomes de gestores, administradores públicos e políticos que teriam dado apoio ao esquema. Embora a CPMI do INSS tenha sido encerrada sem a possibilidade de prorrogação, há um legado documental que aponta o caminho do dinheiro e a sociedade exige o nome de todos os implicados.
A análise do material também indica que as investigações avançaram pouco sobre autoridades que se beneficiaram da rede e que o Supremo Tribunal Federal decidiu pela não prorrogação dos trabalhos da CPMI.
Na prática, isso limitou o alcance institucional da comissão e aumentou a dependência de outras frentes investigativas, como a Polícia Federal, a AGU e a CGU, para esclarecer a extensão do caso.
Está claro que nem todas as pessoas e empresas foram identificadas e rastreadas, o que pode significar que a rede seja maior do que a já mapeada.
Entre os principais atores políticos e institucionais citados no documento estão a CPMI do INSS, a Polícia Federal, a Advocacia-Geral da União, a Controladoria-Geral da União, o Supremo Tribunal Federal e o Tribunal de Contas da União.
No campo das pessoas mencionadas, aparecem o criminalista Márcio Nunes e o investigador aposentado das forças federais de segurança Sergio Gomes, ambos com avaliações críticas sobre a amplitude e a capacidade de regeneração da organização criminosa.
O relatório cita o presidente da Arpar e referencia, de forma genérica, gestores, administradores públicos, políticos e agentes públicos investigados ou suspeitos de intermediação ilícita no esquema bilionário e lucrativo.
Comparando os impactos, as fraudes previdenciárias aparecem como a porta de entrada social e política do escândalo: atingiram aposentados e pensionistas vulneráveis, geraram bloqueio judicial bilionário e mobilizaram a CPI do Crime Organizado e a CPMI do INSS.
Já o crime organizado representa a dimensão mais ampla e estrutural do caso: ele teria usado a mesma engrenagem para movimentar recursos de tráfico, armas, combustíveis adulterados, extorsões, apostas ilegais e propinas.
Em termos práticos, a fraude no INSS expõe o dano direto a beneficiários da Previdência; o crime organizado mostra que a rede teria funcionado como infraestrutura financeira de alta complexidade, com alcance para várias frentes criminosas e capacidade de adaptação a diferentes parceiros ilícitos.
O quadro final gera inquietação e perplexidade na sociedade ao se defrontar com a atuação desinibida de uma rede financeira sofisticada, com ramificações empresariais e políticas, capaz de operar por longos períodos, ocultar a origem dos recursos e deslocar valores para o exterior.
Apesar dos avanços obtidos nas investigações, os investigadores sustentam que ainda faltam respostas centrais: quem são todos os envolvidos, onde estão integralmente os recursos, quais autoridades se beneficiaram do esquema e até que ponto a rede continua ativa em outras frentes.
* Reportagem: Val-André Mutran (Brasília-DF), especial para o Portal Ver-o-Fato.















