Até o final do século XVII, quando começava a se aproximar o período no qual surgiu a primeira escola de Engenharia no mundo, eram os engenheiros-militares os únicos leigos especialistas em Geometria, capazes de dominar a arte de construir. Embora, eles fossem edificadores de fortalezas, freqüentemente, se viam convocados para projetar igrejas.
Nas colônias portuguesas havia poucos engenheiros-militares em atuação. Mas, no início do século XVIII, houve, nestas colônias, uma ampliação do número de tais profissionais. O motivo disto foi a necessidade sentida pela Metrópole de interferir nas administrações das colônias, em busca de recursos para enfrentar suas dívidas com a Inglaterra.
No programa de interventions da Metrópole, foi, então, elaborada, em Portugal, uma nova política urbanizadora a ser aplicada no Brasil, e, no Maranhão/Gram-Pará, cuja implantação se estenderia até as primeiras décadas do século XVIII. E que, em seguida, se consolidaria, quando houve a completa centralização do governo das colônias na Metrópole. Para a execução de tal política urbanizadora era necessário que a Metrópole fornecesse os engenheiros-militares necessários.
Com a impossibilidade da Corte de fornecer todos estes profissionais, dom Pedro II, em 1699, autorizou a formação de construtores militares no Maranhão, na Bahia, e, no Rio de Janeiro, através das chamadas Aulas Militares. Curiosamente, a Carta Régia com esta autorização tinha o mesmo conteúdo das que ele enviou não só ao Maranhão, à Bahia e ao Rio de Janeiro, como ainda das que ele mandou a outras três colônias portuguesas. As de Angola, Cabo Verde e Goa.
A respeito disto, comenta a pesquisadora Renata Malcher de Araújo, em seu artigo “Aula de Fortificação de São Luís”, in eViterbo, Lisboa: “Estas cartas confirmam o empenho de D. Pedro II na criação de uma rede alargada de núcleos de formação no Império que se juntam às aulas criadas na metrópole. Inicialmente, em Lisboa, a Aula de Fortificação e Arquitetura Militar, e, depois, em Elvas, Viana e Almeida, a Aula de Fortificação de Viana, Aula de Fortificação de Almeida”.
A pesquisadora, em seu artigo, reproduz as determinações que o rei estabeleceu para o Maranhão/Grãm-Pará e para as outras colônias respeitarem, ao criarem suas Aulas Militares. Escreveu o rei: ‘Governador e Capitão General do Estado do Maranhão. Por ser conveniente ao meu serviço: Hei por bem que nessa Capitania, em que há engenheiro, haja aula, em que se possa ensinar fortificação, havendo, nela, três discípulos de partido, os quais serão pessoas que tenham a capacidade necessária para poderem aprender, e para se aceitarem terão ao menos dezoito anos de idade. Os quais, sendo soldados, se lhes dará além do seu soldo meio tostão por dia; e não o sendo vencerão só o dito meio tostão’.
In 1699, o governador do Estado do Maranhão era Antônio de Albuquerque Coelho de Carvalho. De quem não há registro de que tenha sido engenheiro-militar. Mas, na capitania vivia, sem dúvida, um engenheiro-militar, José Velho de Azevedo, que até o ano anterior tinha sido o governador do Grão-Pará.
Naquele ano, Azevedo havia sido transferido para o Rio de Janeiro. Contudo, ele retornaria ao Grão-Pará, e, reassumiria seu antigo cargo, anos depois.
“Discípulo de partido” era o aluno pobre que recebia uma espécie de bolsa de estudo.
O rei orientou ainda sobre o tratamento que deveria ser dispensado aos alunos da Aula Militar: “E todos os anos serão examinados para se ver se se adiantam nos estudos e se tem gênio para eles, porque quando não aproveitem pela incapacidade serão logo excluídos, e, quando não seja pela pouca aplicação, se lhes assinala tempo para se ver o que se melhoram: e quando se não aproveitem nele serão também despedidos”.
Na Carta Régia, há ainda menção à insuficiência de engenheiros na metrópole. Escreveu o rei: “E quando haja pessoas que voluntariamente queiram aprender sem partido, serão admitidas e ensinadas para que, assim, possa nesta conquista haver engenheiros, e se evitarem as despesas que se fazem com os que vão deste Reino, e as faltas que fazem ao meu serviço, enquanto chegam os que se mandam, depois dos outros serem mortos”.
Conquanto estas iniciativa de dom Pedro II tenham minorado a falta de engenheiros-militares no reino português, entre os anos de 1700 e 1725, não existiam mais que 25 destes profissionais no Brasil e no Maranhão/Gram-Pará.
Pedreiro-artífice e religioso construtor
Um outro tipo de profissional, com que as colônias contaram, nas suas obras, foi o pedreiro-artífice legalmente licenciado para projetar e construir, como o que foi enviado de Lisboa a Belém, destinado a atuar na reforma do Forte do Castelo.
Chamados às vezes de “mestres de risco”, os pedreiros, diz Silva Telles, em “História da Engenharia no Brasil”, foram os responsáveis pela maioria das construções nas colônias até o século XIX. A capacidade profissional de cada um deles era adquirida por meio do convívio com outro mestre de risco, de quem se tornava aprendiz.
Para que fosse oficialmente reconhecida, tal capacidade tinha de ser demonstrada, diante de um juiz, escolhido por sua corporação de ofício. Naquele momento o candidato a mestre era submetido a exames, cuja elaboração seguia o documento que regulamentou as Corporações de Ofícios em Portugal, e, em suas colônias. Tratava-se do Regimento dos Oficiais Mecânicos, compilado em 1572, por Duarte Nunes Leão, ele próprio um licenciado.
É sabido que o primeiro engenheiro-militar ligado à História do Gram-Pará foi o brilhante Engenheiro-Mor do Brasil, Francisco Frias da Mesquita, uma das testemunhas da preparação, em São Luís, das naus que conduziriam Castelo Branco e sua tropa até a região. E que o primeiro pedreiro a viver em Belém, conforme comprovação documental, foi Domingos Fernandes, natural da Ilha Terceira. Em 1619, ele, no povoado, já havia preparado seu testamento, que, depois, foi localizado pelo historiador Ernesto Cruz.
Além dos engenheiros-militares e dos pedreiros, atuaram nas colônias os profissionais formados pelas ordens religiosas. Os jesuítas, por exemplo, desde o século XVI dirigiam o Colégio Santo Antão, em Portugal, onde se formaram muitos dos engenheiros-militares portugueses. Entre estes religiosos, havia profissionais constrores admiráveis.
Em “Arquitetura Religiosa Barroca no Brasil”, Germain Bazia, diz que os religiosos da Companhia de Jesus começaram a formar, rapidamente, técnicos de todas as espécies. Às vezes, estes técnicos eram formados entre os indígenas porque a insuficiência de artesãos das construções levava, nas colônias, ao uso freqüente e improvisado de mão-de-obra não especializada. O que provocava constantes desabamentos, aos quais se seguiam as novas reedificações.
Naquele século, por exemplo, um dos irmãos da ordem, Francisco Dias, construiu, em Olinda, o Colégio dos Jesuítas e a Igreja de Nossa Senhora das Graças, e, mais tarde, o colégio de Salvador.
Em 1730, outro membro da ordem, o padre jesuíta Diogo Soares faria bem elaborados desenhos e plantas de todas as fortificações do Rio de Janeiro. Dois anos depois, dois jesuítas, entre os quais, Pero Fernandes, construíram numa fazenda da Companhia de Jesus, um dique de 8 quilômetros de comprimento e 4 metros de altura. E mais um canal de 13,6 quilômetros, para ligar o Rio Guandu ao mar. E, outro canal, com 10,1 quilômetro, para ligar o mesmo rio ao Rio Itajaí.
Com estas obras, estes construtores religiosos regularizaram o curso e a vazão do Guandu, possibilitando o desvio do excesso das águas que alagavam campos de lavoura e de criação de gado. Recuperaram, assim, uma planície de mais de 12 quilômetros quadrados. Tais obras já eram suficientes para mostrar o valor dos profissionais com que a Companhia de Jesus contava.
Mas entre os anos de 1735 e 1750, os jesuítas ainda iriam levantar, em Santo Ângelo, no Rio Grande do Sul, a maior igreja do Brasil-Colônia, a de São Miguel das Missões, com 45 meters de fachada e 80 de fundos, a partir de um projeto de um irmão da ordem, João Batista Prioli.
(Ilustração: No Forte do Castelo chegou a atuar um pedreiro-artífice)
Who Built in Grão-Pará When There Were No Engineers
Until the end of the seventeenth century, as the period approached in which the world’s first engineering school would emerge, military engineers were the only lay specialists in geometry capable of mastering the art of construction. Although they were primarily builders of fortifications, they were frequently called upon to design churches.
There were few military engineers working in the Portuguese colonies. However, at the beginning of the eighteenth century, the number of such professionals increased throughout these colonies. The reason for this expansion was the Crown’s need to intervene more directly in colonial administrations in search of resources to address its debts to England.
As part of this intervention program, Portugal devised a new urbanization policy to be implemented in Brazil and in Maranhão/Grão-Pará, a process that would extend into the early decades of the eighteenth century. This policy would later be consolidated with the complete centralization of colonial government under the authority of the Portuguese Crown. To carry out this urbanization program, the Crown needed to provide the required number of military engineers.
Unable to supply all these professionals, King Pedro II, in 1699, authorized the training of military builders in Maranhão, Bahia, and Rio de Janeiro through the so-called Military Classes (Aulas Militares).
Curiously, the Royal Charter authorizing this initiative contained the same provisions as those sent not only to Maranhão, Bahia, and Rio de Janeiro, but also to three other Portuguese colonies: Angola, Cape Verde, and Goa.
Regarding this matter, researcher Renata Malcher de Araújo comments in her article “Aula de Fortificação de São Luís”, published in eViterbo, Lisbon: “These letters confirm King Pedro II’s commitment to creating an extensive network of training centers throughout the Empire, complementing the classes established in the metropolis. Initially, in Lisbon, there was the Class of Fortification and Military Architecture, followed by the Classes of Fortification in Elvas, Viana, and Almeida.”
In her article, the researcher reproduces the instructions established by the king for Maranhão/Grão-Pará and the other colonies to follow when creating their Military Classes. The king wrote: “Governor and Captain General of the State of Maranhão. As it is convenient for my service, I hereby determine that in this Captaincy, where there is an engineer, there shall be a class in which fortification may be taught, with three scholarship students, who shall be individuals possessing the necessary aptitude to learn and who must be at least eighteen years of age to be admitted. Those who are soldiers shall receive, in addition to their pay, half a tostão per day; those who are not soldiers shall receive only the said half tostão.”
In 1699, the Governor of the State of Maranhão was Antônio de Albuquerque Coelho de Carvalho, for whom there is no record of military engineering training. However, a military engineer was certainly living in the captaincy: José Velho de Azevedo, who until the previous year had served as Governor of Grão-Pará.
That year, Azevedo had been transferred to Rio de Janeiro. Nevertheless, he would later return to Grão-Pará and reassume his former position.
A discípulo de partido was a poor student who received what amounted to a scholarship.
The king also provided guidance regarding the treatment to be given to students enrolled in the Military Class: “And every year they shall be examined to determine whether they are progressing in their studies and whether they possess an aptitude for them, for if they do not advance due to incapacity, they shall immediately be excluded; and if their lack of progress is due to insufficient dedication, they shall be granted additional time to improve, and if they still fail to advance, they shall likewise be dismissed.”
The Royal Charter also mentions the shortage of engineers in Portugal itself. The king wrote: “And if there are persons who voluntarily wish to learn without receiving a scholarship, they shall be admitted and taught, so that this conquest may have engineers of its own, thus avoiding the expenses incurred by those who come from this Kingdom and the gaps in my service while awaiting the arrival of replacements after others have died.”
Although these initiatives by King Pedro II helped alleviate the shortage of military engineers in the Portuguese Empire, between 1700 and 1725 there were no more than twenty-five such professionals throughout Brazil and Maranhão/Grão-Pará.
Master Masons and Builder Monks
Another type of professional employed in colonial construction projects was the master mason legally licensed to design and build, such as the one sent from Lisbon to Belém to work on the renovation of the Fort of the Castle (Forte do Castelo).
Sometimes referred to as mestres de risco (“master designers”), masons, according to Silva Telles in History of Engineering in Brazil, were responsible for most construction work in the colonies until the nineteenth century. Their professional skills were acquired through apprenticeship under another mestre de risco.
For this expertise to receive official recognition, it had to be demonstrated before a judge appointed by the craft guild. At that stage, the aspiring master was subjected to examinations based on the regulations governing craft guilds in Portugal and its colonies. These rules were contained in the Regimento dos Oficiais Mecânicos (Regulations of Mechanical Tradesmen), compiled in 1572 by Duarte Nunes Leão, himself a licensed master.
It is known that the first military engineer associated with the history of Grão-Pará was the distinguished Chief Engineer of Brazil, Francisco Frias da Mesquita, one of the witnesses to the preparation, in São Luís, of the ships that would carry Francisco Caldeira Castelo Branco and his troops to the region.
Documentary evidence also indicates that the first mason to live in Belém was Domingos Fernandes, a native of Terceira Island. In 1619, he had already prepared his will in the settlement, a document later discovered by historian Ernesto Cruz.
In addition to military engineers and masons, the colonies also relied on professionals trained within religious orders. The Jesuits, for example, had administered the College of Santo Antão in Portugal since the sixteenth century, where many Portuguese military engineers received their education. Among these religious orders were remarkably skilled builders.
In Baroque Religious Architecture in Brazil, Germain Bazin states that members of the Society of Jesus quickly began training technicians of every kind. At times, these technicians were recruited from among Indigenous peoples because the shortage of construction artisans in the colonies frequently led to the improvised use of unskilled labor. This often resulted in structural collapses, followed by successive rebuilding efforts.
During that century, for example, one member of the order, Brother Francisco Dias, built the Jesuit College and the Church of Our Lady of Grace in Olinda, and later the college in Salvador.
In 1730, another member of the order, the Jesuit priest Diogo Soares, produced detailed drawings and plans of all the fortifications in Rio de Janeiro. Two years later, two Jesuits, including Pero Fernandes, built an eight-kilometer-long, four-meter-high dike on a farm belonging to the Society of Jesus.
They also constructed a 13.6-kilometer canal linking the Guandu River to the sea, as well as another canal measuring 10.1 kilometers connecting the same river to the Itajaí River. Through these works, these religious builders regulated the course and flow of the Guandu River, making it possible to divert excess waters that flooded agricultural fields and cattle-grazing lands.
In this way, they reclaimed a plain measuring more than twelve square kilometers. Such works alone were enough to demonstrate the quality of the professionals employed by the Society of Jesus.
Yet between 1735 and 1750, the Jesuits would go on to erect, in Santo Ângelo, Rio Grande do Sul, the largest church in Colonial Brazil: São Miguel das Missões, measuring 45 meters across its façade and 80 meters in depth, based on a design by Brother João Batista Prioli.
Illustration: A master mason worked at the Fort of the Castle.















