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Home Cultura

Quando os grandes construtores religiosos do Gram-Pará perderam seu antigo poder

Oswaldo Coimbra por Oswaldo Coimbra
10/05/2026
in Cultura
Quando os grandes construtores religiosos do Gram-Pará perderam seu antigo poder
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Em 1748, teve início, em Belém, a construção da igreja que faria parte do terceiro conjunto arquitetônico religioso de Belém, o dos mercedários.

Na capital do Gram-Pará, portanto, aquela foi uma década importante para a História das suas construções.

Porém, não somente porque nela avançaram as edificações dos conjuntos  arquitetônicos religiosos que ainda hoje orgulham a cidade.

Mas, também, porque aquela foi uma década fundamental da História das Construções, no mundo inteiro.

Pois, precisamente no seu sétimo ano, começou a funcionar a escola sobre a qual diz Silva Telles, em sua obra “História da Engenharia no Brasil – Séculos XVI a XIX):

“Parece ter sido o primeiro estabelecimento de ensino, em todo o mundo, onde se ministrou um curso regular de Engenharia e que diplomou profissionais com esse título”.

Com a escola se formou, segundo o autor, o conceito atual de engenheiro:

“Uma pessoa diplomada e legalmente habilitada a exercer alguma das múltiplas atividades da Engenharia”.

A École Nationale des Ponts et Chaussés, como se chamava o estabelecimento de ensino de “pontes e calçadas”, foi fundada em Paris, por iniciativa de Daniel Trudaine,.

Sua fundação veio no bojo das profundas transformações científicas, sociais, econômicas e políticas pelas quais passava o continente europeu e que, depois, seriam irradiadas por outros continentes.

Bastante tempo ainda transcorreu até que Belém pudesse contar com engenheiros leigos e civis como os que se formariam na escola parisiense.

Mas a cidade, naquela década mesmo, já começara a ser atingida pelo progresso científico, característico da época.

E, uns pouco anos depois, através de Portugal, iria receber o impacto da nova ordem social em configuração na Europa.

O acontecimento que marcaria a década de 40 do século XVIII, na História da Engenharia, a fundação da École Nationale des Ponts et Chaussés seriam impensável sem dois fatores.

1) O corpo de saber que, desde a segunda metade do século anterior, se vinha formando.

2) A valorização social das ciências, observada na Europa, por volta dos anos de 1700.

O corpo de conhecimentos próprios dos engenheiros foi acrescido de uma notável contribuição, como lembra Silva Telles, quando o jovem cientista inglês Robert Hooke, nascido em 1635, formulou a  lei que se tornaria o princípio básico da Resistência dos Materiais, em 1660.

Igual contribuição seria dada, também, 14 anos depois, pelo inglês Isaac Newton e pelo alemão Gottfried Leibniz Leibniz, quando eles descobriram o Cálculo Infinitesimal, criando uma ferramenta preciosa para a análise matemática.

Na própria França, o  engenheiro-militar Bernard Forrest Belidor publicaria, aos trinta anos de idade, o “La Science des Ingénieurs”, em 1729.

Portanto, a menos de duas décadas da fundação da École Nationale des Ponts et Chaussés.

A obra foi o primeiro livro, diz Silva Telles, a trazer tanto uma sistematização dos conhecimentos da área da Engenharia, como, uma abordagem científica das estruturas de arco e de muros de arrimo.

Estes dois tipos de construções eram empiricamente realizadas desde a Antiguidade.

O livro, por muito tempo, foi considerado um clássico, e, teve sucessivas edições.

Belidor se tornaria autor de numerosos livros técnicos.

Na sua carreira como militar, chegou a general.

Máquinas a vapor e siderurgia

Após a virada do século XVIII, o desprezo com que, ao longo da Idade Média, as Artes Mecânicas foram vistas pela nobreza cedeu lugar à valorização delas.

O Iluminismo e a Revolução Industrial mudariam completamente a mentalidade dos cientistas.

Eles passariam a fazer suas investigações preocupados com as aplicações práticas delas.

Este esforço de aplicação das Ciências Físicas e Matemáticas no desenvolvimento tecnológico, expresso através da Revolução Industrial, diz Silva Telles,  possibilitou o aparecimento de máquinas a vapor e da Siderurgia.

A humanidade, finalmente, podia se libertar dos estreitos limites da Escolástica, o pensamento tradicional da Igreja Católica.

Passaria a valorizar a observação da natureza e a experimentação.

Foram estas reavaliações de tradicionais papéis sociais, tanto o das ciências como o da Igreja, feitas na Europa, inclusive em Portugal, que se colocaram como pano de fundo da crise de poder das ordens religiosas no Gram-Pará.

As quais tinham enriquecido, graças à importância dada a elas, no passado, quando acumularam recursos para construir seus conjuntos arquitetônicos.

Uma destas ordens, a dos jesuítas, construtores do primeiro grande conjunto arquitetônico religioso da região, desfrutaram de seus últimos anos de poder e riqueza no Gram-Pará.

E, logo passaram a ser encarada como uma instituição ligada a um momento político-econômico superado, devido a imagem de milícia defensora do pensamento tradicional da Igreja, com a qual obtivera poder e riqueza.

Este momento da chegado desta nova fase da História da Humanidade ao império português e a suas colônias foi pesquisado pelo historiador brasileiro Adilio Jorge Marques.

Os resultados obtidos por ele na sua pesquisa foram foram publicados no livro O Iluminismo no Mundo Luso-brasileiro”

A nova mentalidade não teria se firmado se não correspondesse aos interesses materiais de uma classe em ascenção, a da burguesia.

Sua importância social só seria alcançada com a reformulação da antiga ordem na qual preponderavam os poderes da nobreza e da Igreja.

Na Inglaterra, por exemplo, naquela fase, foram apropriados os resultados do desenvolvimento tecnológico.

Porém, desde o século anterior, o partido da aristocracia vinculada aos interesses da burguesia, já tinha passado a exaltar a tolerância religiosa, minimizando, ao mesmo tempo, as questões ligadas à Igreja.

Do mesmo modo, na França, se generalizara entre os burgueses o ponto de vista chamado de laicismo, segundo o qual a esfera dos negócios e das ciências são independentes do da religião.

Até entre a aristocracia francesa se difundira certa indiferença em relação às questões da Igreja.

Portanto, o choque com os religiosos que desembocaria na expulsão deles do Gram-Pará, não se restringiu apenas ao plano das idéias.

Mas o ultrapassaria, situando-se, sobretudo, no âmbito dos interesses materiais.

Com a emergência da burguesia, e das idéias correspondentes a seus interesses materiais, desfez-se, em Portugal, e, em toda a Europa, uma ordenação social nas quais  jesuítas, franciscanos, mercedários e carmelitas conseguiram enriquecer, monopolizando a mão-de-obra dos índios.

Muitas vezes colocando-se na ilegalidade, pois, oficialmente, tinham a obrigação de amansá-los para reparti-los com colonos e com a administração da colönia.

Na reordenação da sociedade portuguesa foi alterada também a forma de a metrópole gerir suas colônias.

O que, no Gram-Pará, foi sendo concretizado por uma reforma do Forte de Belém, pelo controle do número de pessoas que podiam se transferir da Metrópole para a colônia.

E, pela condenação dos mercedários, que se serviram dos índios, como escravos, nas suas granjas e atividades comerciais.

Tais interferenças nas administrações do Brasil e do Maranhão/Gram-Pará tinham tido origem na necessidade de busca de recursos com os quais Portugal pudesse enfrentar suas dificuldades econômicas.

As quais decorriam de acordos econômicos assinados pelos portugueses, num esforço para manter sua independência da Espanha.

Outros sinais das mudanças sociais da época também logo atingiriam Portugal e chegaram ao Gram-Pará.

Por exemplo, a presença em Belém, no ano de 1745, de um cientista como o físico e matemático francês Charles de La Condamine era um destes sinais.

(Ilustração: Na obra do historiador brasileiro, a chegada do Século das Luzes nas colônias de Portugal)

When the Great Religious Builders of Grão-Pará Lost Their Former Power

In 1748, construction began in Belém on the church that would become part of the city’s third great religious architectural complex, that of the Mercedarians.

Thus, in the capital of Grão-Pará, that decade was an important one for the History of its buildings.

Not only because the construction of the religious architectural complexes that still today fill the city with pride advanced during those years.

But also because that decade was fundamental to the History of Construction throughout the world.

For it was precisely in its seventh year that the school referred to by Silva Telles, in his work History of Engineering in Brazil – 16th to 19th Centuries, began operating:

“It seems to have been the first educational institution in the entire world where a regular Engineering course was taught and which granted diplomas to professionals bearing that title.”

According to the author, the school helped shape the modern concept of the engineer:

“A person holding a diploma and legally qualified to practice one of the multiple activities of Engineering.”

The École Nationale des Ponts et Chaussées, as the educational institution for “bridges and roads” was called, was founded in Paris at the initiative of Daniel Trudaine.

Its creation came amid the profound scientific, social, economic, and political transformations through which the European continent was passing and which would later spread to other continents.

A considerable amount of time would still pass before Belém could count on lay and civil engineers such as those trained at the Parisian school.

But the city, even in that same decade, had already begun to feel the effects of the scientific progress characteristic of the period.

And a few years later, through Portugal, it would receive the impact of the new social order taking shape in Europe.

The event that would mark the 1740s in the History of Engineering — the founding of the École Nationale des Ponts et Chaussées — would have been unthinkable without two factors.

  1. The body of knowledge that had been developing since the second half of the previous century.
  2. The social valorization of the sciences observed in Europe around the 1700s.

The body of knowledge specific to engineers received a remarkable contribution, as Silva Telles recalls, when the young English scientist Robert Hooke, born in 1635, formulated in 1660 the law that would become the basic principle of the Strength of Materials.

A similar contribution would be made fourteen years later by the Englishman Isaac Newton and the German Gottfried Leibniz, when they discovered Infinitesimal Calculus, thereby creating a precious tool for mathematical analysis.

In France itself, the military engineer Bernard Forest de Bélidor published, at the age of thirty, La Science des Ingénieurs, in 1729.

Therefore, less than two decades before the founding of the École Nationale des Ponts et Chaussées.

According to Silva Telles, the work was the first book to present both a systematization of knowledge in the field of Engineering and a scientific approach to arch structures and retaining walls.

These two types of constructions had been carried out empirically since Antiquity.

For a long time, the book was considered a classic and went through successive editions.

Bélidor would later become the author of numerous technical books.

In his military career, he rose to the rank of general.

Steam Engines and the Iron Industry

After the turn of the eighteenth century, the contempt with which the Mechanical Arts had been viewed by the nobility throughout the Middle Ages gave way to their appreciation.

The Enlightenment and the Industrial Revolution would completely transform the mentality of scientists.

They would begin conducting their investigations with practical applications in mind.

This effort to apply the Physical and Mathematical Sciences to technological development, expressed through the Industrial Revolution, says Silva Telles, made possible the emergence of steam engines and the iron industry.

Humanity could finally free itself from the narrow limits of Scholasticism, the traditional thought of the Catholic Church.

People would begin to value the observation of nature and experimentation.

It was these reassessments of traditional social roles — both those of science and of the Church — carried out in Europe, including Portugal, that formed the backdrop to the crisis of power faced by the religious orders in Grão-Pará.

These orders had grown wealthy thanks to the importance attributed to them in the past, when they accumulated resources to build their architectural complexes.

One of these orders, the Jesuits, builders of the first great religious architectural complex in the region, enjoyed their final years of power and wealth in Grão-Pará.

Soon afterward, however, they began to be viewed as an institution linked to an outdated political and economic moment because of their image as a militia defending the traditional thought of the Church, through which they had obtained power and wealth.

This moment — the arrival of this new phase in the History of Humanity within the Portuguese Empire and its colonies — was studied by the Brazilian historian Adilio Jorge Marques.

The results of his research were published in the book The Enlightenment in the Luso-Brazilian World.

The new mentality would not have taken root had it not corresponded to the material interests of a rising class: the bourgeoisie.

Its social importance would only be achieved through the reformulation of the old order in which the powers of the nobility and the Church predominated.

In England, for example, during that period, the results of technological development were appropriated.

Yet since the previous century, the party of the aristocracy linked to bourgeois interests had already begun to exalt religious tolerance while simultaneously minimizing issues related to the Church.

Likewise, in France, the viewpoint known as secularism had become widespread among the bourgeoisie, according to which the spheres of business and science are independent from religion.

Even among the French aristocracy, a certain indifference toward Church matters had spread.

Therefore, the clash with the religious orders that would culminate in their expulsion from Grão-Pará was not confined merely to the realm of ideas.

It went beyond that, situating itself above all within the sphere of material interests.

With the rise of the bourgeoisie and the ideas corresponding to its material interests, a social order dissolved in Portugal — and throughout Europe — within which Jesuits, Franciscans, Mercedarians, and Carmelites had grown rich by monopolizing indigenous labor.

Many times they placed themselves outside the law, since officially they were obliged to pacify the Indigenous peoples in order to distribute them among settlers and the colonial administration.

In the reorganization of Portuguese society, the way in which the metropolis managed its colonies was also altered.

In Grão-Pará, this was gradually implemented through a reform of the Fort of Belém, through control over the number of people allowed to transfer from the metropolis to the colony, and through the condemnation of the Mercedarians, who used Indigenous people as slaves on their farms and in their commercial activities.

Such interventions in the administrations of Brazil and Maranhão/Grão-Pará had originated in the need to seek resources with which Portugal could confront its economic difficulties.

These difficulties stemmed from economic agreements signed by the Portuguese in an effort to preserve their independence from Spain.

Other signs of the social changes of the period would soon reach Portugal and arrive in Grão-Pará as well.

For example, the presence in Belém in 1745 of a scientist such as the French physicist and mathematician Charles de La Condamine was one of these signs.

(Illustration: In the Brazilian historian’s work, the arrival of the Age of Enlightenment in Portugal’s colonies.)

Tags: construtores religiososDestaqueGram-Pará
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Oswaldo Coimbra

Oswaldo Coimbra

Oswaldo Coimbra é escritor, jornalista e pesquisador.

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