Petista, de 80 anos, terá Flávio Bolsonaro como principal adversário em cenário de empate técnico nas pesquisas; 1º turno será em 4 de outubro
Brasília – O Partido dos Trabalhadores oficializou neste domingo (2) a candidatura do presidente Luiz Inácio Lula da Silva à reeleição, durante a Convenção Nacional da sigla realizada no Expo Center Norte, na Vila Guilherme, zona norte de São Paulo. Aos 80 anos, o petista disputará pela oitava vez a Presidência da República em busca de um inédito quarto mandato, tendo novamente o vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB) como companheiro de chapa. A oficialização ocorre em um cenário de empate técnico com o principal adversário, o senador Flávio Bolsonaro (PL), conforme levantamentos recentes, e a menos de dois meses do primeiro turno, marcado para 4 de outubro de 2026.
O evento foi estruturado em uma reverência que beira o fanatismo à figura de Lula, em um tom que o jornalista Merval Pereira, em artigo publicado neste domingo em O Globo, intitulado “O futuro em jogo”, resume como sintoma do contexto político que o país atravessa.
Na análise, Pereira sustenta que a eleição de 2026 pode ser a última com essa característica, pois Lula, se eleito, já estará com 85 anos em 2030 e não poderá se candidatar a um quinto mandato.
Já Bolsonaro, sem a anistia que seus aliados prometem, estaria fora da disputa política e teria constatado que não basta indicar um candidato para vencer. No PT, prossegue o colunista, não há sinais de que o pós-Lula trará um líder do seu tamanho, e, assim como os partidos que Brizola liderou, o PTB e o PDT, não são forças políticas relevantes hoje, o PT pode continuar existindo, mas não terá a mesma importância política. O mesmo, observa, teria ocorrido com o PSDB, que hoje não é o mais pálido reflexo da época de Fernando Henrique Cardoso.
A convenção e a reedição da chapa vitoriosa de 2022
Dirigentes partidários, governadores e candidatos aliados ao petista compareceram ao ato no Expo Center Norte, que coroou uma semana de movimentações nos bastidores partidários. Antes da convenção, o PT promoveu uma live voltada à militância, em mais um sinal do esforço de mobilização da base em torno da candidatura. A confirmação de Lula, contudo, não trouxe surpresas, uma vez que a cúpula petista já havia marcado a oficialização para 2 de agosto desde o início de julho, conforme antecipado pelo próprio partido.
A chapa, na prática, reedita a parceria vitoriosa de 2022, quando Lula e Alckmin derrotaram o então presidente Jair Bolsonaro (PL). O PSB já havia oficializado o vice-presidente como candidato à vice-presidência na chapa petista em convenção realizada em Brasília em 29 de julho, gesto que consolidou a aliança entre as duas legendas.
A relação entre os dois, aliás, foi reforçada ao longo do mandato, com Alckmin chegando a afirmar, em abril, durante o Congresso Nacional do PT, que “Lula salvou a democracia”, em referência à vitória de 2022 sobre o bolsonarismo.
A trajetória, os recordes e o fator idade
A candidatura deste ano é a oitava de Lula à Presidência, depois das disputas de 1989, 1994, 1998, 2002, 2006, 2018 e 2022. Em 2018, o petista estava preso em Curitiba e teve a candidatura barrada pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) com base na Lei da Ficha Limpa, o que abriu caminho para a eleição de Jair Bolsonaro. Quando efetivamente disputou o cargo, Lula perdeu três eleições (1989, 1994 e 1998) e venceu outras três (2002, 2006 e 2022), números que evidenciam uma trajetória de altos e baixos marcada pela resiliência política.
Se reeleito, o petista alcançará marcas históricas. Terá 81 anos em outubro deste ano e se tornará o presidente mais velho a ocupar o cargo no Brasil, renovando o recorde que ele próprio já detém. Será também o primeiro brasileiro a vencer quatro eleições diretas para a Presidência da República. O contexto, no entanto, impõe um contraponto que atravessa a campanha, pois a idade avançada do candidato, associada à agenda de saúde pública e aos questionamentos sobre vitalidade, tende a ser explorada tanto pelos adversários quanto pela oposição.
O adversário e a nova dinâmica da polarização
O principal adversário de Lula na disputa será o senador Flávio Bolsonaro (PL), de 45 anos, filho mais velho do ex-presidente Jair Bolsonaro, a quem o petista derrotou em 2022. A candidatura do congressista reposiciona a polarização que marcou as últimas eleições, pois transfere para a nova geração da família Bolsonaro a tarefa de representar o campo conservador, diante da inelegibilidade do ex-presidente, que segue impedido de disputar cargos eletivos até 2030 por decisão do TSE.
A escolha de Flávio como principal nome da oposição, contudo, não elimina as incertezas do tabuleiro eleitoral. Pesquisas recentes também testam cenários com outros adversários, como o governador de Goiás, Ronaldo Caiado, que aparece numericamente próximo de Lula em simulações de segundo turno em alguns levantamentos, o que indica que a corrida presidencial pode reservar desdobramentos além do confronto direto entre petistas e bolsonaristas.
A maior coalizão de esquerda desde 1989
Um dos pontos centrais da estratégia petista é a amplitude da aliança. Lula terá, já no primeiro turno, o maior número de partidos de esquerda e centro-esquerda em sua coligação desde 1989, com PT, PC do B, PV, PSB, PDT, Psol e Rede compondo a chapa. Trata-se de um fato novo na política brasileira recente, pois reúne sob o mesmo guarda-chuva legendas que historicamente oscilaram entre alianças e rupturas, como o PSB e o PDT, além da federação formada por Psol e Rede.
A coalizão ampla, por um lado, fortalece a capilaridade da campanha e o tempo de propaganda eleitoral, mas, por outro, impõe desafios de governabilidade e de acomodação de interesses divergentes, especialmente em um eventual novo mandato, quando as legendas aliadas deverão cobrar espaço no Executivo e na máquina pública.
A leitura dos analistas é que a unidade em torno de Lula funciona, neste momento, como um fator de estabilização do campo progressista, mas a sustentação dessa unidade ao longo de um eventual quarto mandato permanece como incógnita.
As pesquisas e o empate técnico no segundo turno
O cenário eleitoral que o PT encontrou na convenção é de disputa acirrada. Levantamento do PoderData em parceria com a Aya, realizado entre 26 e 29 de julho, mostra Lula e Flávio Bolsonaro em empate técnico em um eventual segundo turno, com o petista registrando 46% das intenções de voto contra 43% do congressista, diferença dentro da margem de erro de 2 pontos percentuais. O resultado mantém o padrão observado desde maio, com os dois candidatos oscilando dentro da margem de erro nas simulações de confronto direto. Na simulação de primeiro turno, Lula lidera com 41%, seguido por Flávio, com 35%.
Os demais institutos apontam na mesma direção, ainda que com variações. A Atlas/Bloomberg, divulgada em 29 de julho, dá a Lula 49,2% contra 42,9% de Flávio no segundo turno, enquanto a BTG/Nexus, de 27 de julho, registra 47% a 43% no confronto direto e 42% a 33% no primeiro turno. A Genial/Quaest, por sua vez, apontou em meados de julho Lula com 45% e Flávio com 37% das intenções de voto. A convergência dos números indica que, embora o presidente lidere as simulações, a vantagem não é confortável e o segundo turno tende a ser decidido nos detalhes, o que explica a antecipação da campanha e a aposta em palanques regionais.
A aposta em São Paulo e o retorno às origens
A escolha de São Paulo como palco da convenção não foi casual. O Estado é considerado estratégico na tentativa do petista de obter o quarto mandato, pois concentra o maior colégio eleitoral do país e foi decisivo para a vitória de 2022, quando os paulistas deram 4,3 milhões de votos a mais para Lula do que Fernando Haddad, então candidato petista ao Planalto, havia obtido em 2018.O crescimento da votação petista no Estado nesse período foi apontado como fator determinante para a eleição de Lula pela terceira vez.
A campanha, aliás, começará em território simbólico para a história do petista. O pontapé inicial está marcado para 16 de agosto, às 10h, em um ato no estádio 1º de Maio, em São Bernardo do Campo, na região do ABC paulista.
O local, conhecido anteriormente como estádio da Vila Euclides, foi palco da militância de Lula no final dos anos 1970 e início dos anos 1980, quando ele atuava como sindicalista metalúrgico, e é considerado berço da grande greve dos trabalhadores do ABC, em 1979, movimento que foi fundamental para o surgimento da Central Única dos Trabalhadores (CUT) e do próprio PT. A escolha do local funciona, portanto, como um resgate das origens do petismo em um momento em que a campanha busca reavivar a base histórica do partido.
Eleição acirrada e risco do “já ganhou!”
A oficialização da candidatura de Lula em São Paulo consolida o desenho central da disputa presidencial de 2026, com o petista em busca de um mandato sem precedentes na história republicana e o bolsonarismo reorganizado em torno de Flávio Bolsonaro.
Os principais pontos da pauta, a reedição da chapa com Alckmin, a coalizão ampliada, o empate técnico nas pesquisas e a aposta no eleitorado paulista, indicam que a eleição será decidida em um cenário de alta polarização e margens estreitas.
As implicações imediatas são claras, pois um eventual quarto mandato de Lula, aos 81 anos, colocaria o país diante de novos recordes institucionais e de um teste de governabilidade com uma base aliada heterogênea, enquanto a candidatura de Flávio Bolsonaro recoloca a família Bolsonaro no centro do jogo político e mantém acesa a disputa entre os dois campos que dividem o eleitorado brasileiro desde 2018.
O primeiro turno, marcado para 4 de outubro, com eventual segundo turno em 25 de outubro, definirá não apenas o próximo presidente, mas também os rumos de uma polarização que atravessa a democracia brasileira.
* Reportagem: Val-André Mutran (Brasília-DF), especial para o Portal Ver-o-Fato.















