De Alckmin e Serra em 2006 a Lula e Janja atualmente, a polêmica sobre homenagens em passarelas de samba com dinheiro público reacende, revelando um ciclo de controvérsias
Brasília – O Brasil pode assistir neste domingo (15), ao vivo e a cores, um crime eleitoral anunciado no desfile da estreante no Grupo Especial, da Escola de Samba Acadêmicos de Niterói — a primeira a desfilar —, com direito a destaque para a primeira-dama Rosângela da Silva, a Janja num carro alegórico especialmente reservado. O tema da escola é “Do alto do mulungu surge a esperança: Lula, o operário do Brasil”, uma homenagem ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva, declaradamente pré-candidato à presidência da República, em claro crime eleitoral antecipado.
Um deboche com jeito de recado ou apenas uma afronta para desmoralizar o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e deixar claro quem dá as cartas no país? Não surpreende que, o oposto do que agora ocorre foi bandeira e grito de guerra no PT, contra o então arquirrival PSDB.
Há 20 anos, o PT pediu a instalação de uma Comissão Parlamentar de Inquérito — as temidas CPIs que agora foge como o diabo da cruz —, e tentou barrar uma alegoria da Escola de Samba Leandro de Itaquera, que homenageava Alckmin, Serra e Mário Covas, então pré-candidatos do PSDB, no desfile de Carnaval de 2006, ano de eleições gerais, como agora.
Inversão de papéis: a surrada tática do PT contra seus adversários
Em um cenário político-carnavalesco que parece ecoar eventos passados, a efervescência do Sambódromo volta a ser palco de intensos debates sobre a fronteira entre a celebração cultural e a promoção político-eleitoral, especialmente quando há o uso de recursos públicos.
Se em 2006 a esquerda, liderada pelo Partido dos Trabalhadores (PT), questionava a homenagem a figuras como Geraldo Alckmin e José Serra no desfile da Escola de Samba Leandro de Itaquera, em São Paulo, o ano corrente assiste a uma inversão de papéis, com a oposição atual criticando veementemente a exaltação do presidente Lula e a participação da primeira-dama Janja no desfile da Acadêmicos de Niterói no Rio de Janeiro, levantando novamente discussões sobre campanha antecipada e o financiamento público de tais manifestações.
O Carnaval de 2006 e a polêmica tucana em São Paulo
Vinte anos antes da atual controvérsia no Rio de Janeiro, o Carnaval paulistano de 2006 foi marcado por uma polêmica semelhante, mas com os atores políticos em posições opostas. Naquele ano, o então presidente Lula (PT) buscava a reeleição em um pleito que se anunciava disputado. Em São Paulo, dois proeminentes nomes do PSDB, José Serra, prefeito, e Geraldo Alckmin, governador, despontavam como pré-candidatos ao Planalto.
A escola de samba Leandro de Itaquera, filiada ao Grupo Especial na época, desfilou com um enredo que, embora mascarado como uma celebração das “festas populares que nascem das águas”, servia como uma “vitrine eleitoral tucana”.
O tema abordava as obras de rebaixamento da calha do Rio Tietê, uma realização associada à gestão do partido. A escola, vale ressaltar, tinha uma ligação notória com o PSDB: seu fundador e comandante, Leandro Alves Martins, conhecido como “Seu Leandro”, havia sido candidato a vereador pelo partido dois anos antes e, após a vitória de Serra à prefeitura, a bateria da Leandro animou a festa da vitória.
A alegoria que gerou o centro da controvérsia foi o último carro alegórico do desfile. Ele apresentava bonecos de Alckmin e Serra, acompanhados pela representação de um tucano, símbolo do partido. Curiosamente, também incluía um busto de Mário Covas, ex-governador falecido em 2001, que havia sido tema da escola em 2002, e homens vestidos com sungas nas cores do arco-íris, um símbolo do movimento gay.
Segundo a justificativa da escola de samba na ocasião, a presença de Serra no carro se dava por sua responsabilidade, como prefeito, pelas grandes festas populares da cidade, incluindo a Parada Gay e o Carnaval. Alckmin e Covas, por sua vez, seriam homenageados pela obra no Tietê.
O carnavalesco Anderson Paulino chegou a afirmar que a escolha havia sido um “pedido” de Alckmin, uma alegação que “Seu Leandro” negava. A escola defendeu a “liberdade artística do carnavalesco” para a relação entre os fatos e as figuras representadas.
A reação do PT em 2006: ações na Justiça e tentativa de CPI
No clássico: acuse seu inimigo daquilo que você faz, o PT fez de um tudo para enquadrar o PSDB há 20 anos. A manifestação política no Sambódromo de 2006, com o uso de dinheiro público, provocou uma forte reação da esquerda, especialmente do PT.
O vereador Arselino Tatto (PT-SP), que na época já contava com nove mandatos, tomou a iniciativa de entrar com um pedido na Justiça. Sua argumentação era que a presença do carro com Alckmin e Serra na avenida configuraria “promoção pessoal de políticos e autoridades” com a utilização de recursos públicos.
A juíza Márcia Cardoso, da 11ª Vara da Fazenda Pública de São Paulo, no entanto, negou o pedido. Em sua decisão, ela sustentou que os recursos públicos recebidos pela Leandro de Itaquera eram os mesmos destinados às demais escolas de samba. Desse modo, o carro alegórico com o “trio tucano” pôde fechar o desfile.
Não satisfeita com a decisão judicial, a bancada petista na Câmara Municipal de São Paulo buscou outra via para investigar o caso. Tentou, sem sucesso, emplacar uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) para apurar um “patrocínio relâmpago” da Nossa Caixa, então banco estadual, à Liga Independente das Escolas de Samba.
O patrocínio teria sido aprovado em apenas 24 horas, e a denúncia incluía a informação de que cem funcionários da Nossa Caixa teriam desfilado na Leandro com fantasias doadas pela escola, “ajudando o desfile que homenageava o então governador Alckmin.”
Se um vereador da época, tivesse adormecido numa câmara hiperbárica e despertado neste domingo, ficaria sem entender patativas, como Geraldo Alckmin, se tornou vice-presidente da República, e lacaio de seu maior adversário.
Em termos de desdobramentos eleitorais, na época, Alckmin foi o escolhido para ser o candidato tucano à presidência em 2006, enfrentando Lula. Ele obteve 41,64% dos votos válidos no primeiro turno, avançando para o segundo, mas foi derrotado com 39,17% dos votos válidos. José Serra, por sua vez, elegeu-se governador.

O cenário atual: a homenagem a Lula e Janja no Carnaval do Rio de Janeiro
Duas décadas depois, a história se repete, mas com um novo protagonista e a troca de posições no tabuleiro político. A Acadêmicos de Niterói, escola que fará sua estreia no Grupo Especial do Rio de Janeiro, prepara um enredo explicitamente voltado para a figura do atual presidente. O tema escolhido, “Do alto do mulungu surge a esperança: Lula, o operário do Brasil”, narra a trajetória de Luiz Inácio Lula da Silva, “desde a infância em Pernambuco até o Palácio do Planalto.”
A natureza da homenagem é tão direta que a Acadêmicos de Niterói atinge o ápice da bajulação — e da ilegalidade, transformando o desfile numa campanha antecipada e descarada de Lula.
O “mulungu”, por exemplo, é destacado não apenas como uma árvore de flores vermelhas, mas também como uma alusão à cor do PT. A letra do samba-enredo reforça essa linha, com versos como “em Niterói, o amor venceu o medo”, referências numéricas (“treze noites, treze dias me guiou Santa Luzia”) e um refrão que não deixa margem para dúvidas: “olê, olê, olê, olá, Lula, Lula”. Também há menção a “mitos falsos” e “anistia”, que a senadora Damares Alves (oposição) interpreta como críticas à direita.
Engajamento governamental e controvérsias iminentes
A Advocacia-Geral da União (AGU), ciente da sensibilidade do tema em ano eleitoral, recomendou que ministros não participassem do desfile, visando evitar questionamentos da oposição na Justiça eleitoral. Ainda assim, informa que liberou ministros que assistirão ao desfile de um camarote especial, ao lado do pré-candidato Lula.
Contrariando a cautela sugerida pela Advocacia-Geral da União (CGU) para os ministros, a primeira-dama Rosângela da Silva, a Janja, confirmou sua participação no desfile da Acadêmicos de Niterói, neste domingo, no Sambódromo da Sapucaí.
A decisão de Janja foi validada pelo corpo jurídico do governo, que argumenta que ela “não ocupa cargo público formal”, tornando sua participação legítima. No entanto, a estratégia não é consensual, mesmo dentro do PT. Uma “ala do PT teme ‘exposição excessiva'”, preocupada que o “Sambódromo, ambiente aberto e imprevisível, reaja com vaias e contrarie a narrativa de popularidade que o governo busca reforçar.
Além da homenagem ao presidente, o desfile também planeja um momento de ridicularização do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), com o humorista Marcelo Adnet escalado para interpretá-lo em um “ato de campanha antecipada de Lula.”
Financiamento público e a reação da oposição
Assim como em 2006, o desfile da Acadêmicos de Niterói conta com financiamento público. A Embratur destinou R$ 12 milhões do dinheiro dos pagadores de impostos à liga de escolas de samba do Rio de Janeiro, que, por sua vez, repassou R$ 1 milhão para cada agremiação, incluindo a Niterói.
Adicionalmente, por ser de Niterói, a escola também é subsidiada pela prefeitura daquela cidade, assim como a Viradouro. Esse aporte se compara ao subsídio de R$ 300 mil (em valores de 2006) que a Prefeitura de São Paulo destinou às escolas, incluindo a Leandro de Itaquera. Teria sido mais honesto se a bufunfa fosse do fundo eleitoral do PT.
A oposição atual reagiu de forma contundente. A senadora Damares Alves e os deputados Sanderson e Capitão Alberto Neto questionam se a participação no desfile pode configurar desvio de finalidade.
O argumento central é que escolas que recebem recursos públicos “não deveriam exaltar autoridades em exercício, especialmente em período eleitoral.” A oposição já “acionou a PGR e o TCU para questionar o uso de dinheiro federal na promoção da imagem de Lula em ano eleitoral.”
Agenda presidencial durante o Carnaval
Na certeza que nada acontecerá fora do planejado, o presidente Lula tratou de aproveitar o feriado de Carnaval e traçou uma agenda que está passando por três capitais: Recife, Salvador e Rio de Janeiro.
No sábado (14), esteve em Recife ao lado de João Campos (PSB). Em seguida, seguiu para Salvador para uma agenda ligada à ministra Margareth Menezes. O roteiro se encerrará no Carnaval carioca neste domingo.
No contexto baiano, essa passagem é vista como um gesto político para reforçar a imagem do governador Jerônimo Rodrigues (PT), que, enfrenta o avanço de ACM Neto (União) nas pesquisas. A exposição no Rio é descrita como um fechamento de roteiro com exposição pública em um dos maiores eventos do país.
Vale tudo
O cenário político-carnavalesco de hoje, com a Acadêmicos de Niterói homenageando Lula, serve como um espelho invertido do que ocorreu em 2006 com a Leandro de Itaquera e a homenagem a Alckmin e Serra, e se transformou num vale tudo.
A principal constatação é a inversão de papéis: se em 2006 a esquerda e o PT foram os críticos contundentes da alegada propaganda eleitoral antecipada e do uso de verba pública para fins políticos no Carnaval, hoje é a direita e a oposição que assumem essa postura diante da exaltação de Lula.
Essa repetição de eventos sublinha uma tensão persistente na política brasileira em relação ao Carnaval. A “liberdade artística” invocada pelos carnavalescos se choca com as preocupações sobre a probidade no uso de dinheiro público e a legalidade da promoção política em período eleitoral.
Em ambos os casos, a Justiça foi acionada para arbitrar sobre a validade das manifestações, e o questionamento sobre o financiamento público dos desfiles é uma constante. A ação da bancada petista em 2006 para uma CPI sobre o patrocínio da Nossa Caixa encontra paralelo na atual iniciativa da oposição de acionar a PGR e o TCU contra o uso de verba federal.
A dinâmica revela que a bajulação por parte das escolas de samba, conhecidas pela sabujice histórica a figuras como Getúlio Vargas e Juscelino Kubitschek, permanece um traço cultural que é regularmente explorado e contestado, dependendo da conveniência política do momento.
Questões sobre figuras como “Lulinha” e a “roubalheira no INSS” em uma alusão a um verso do samba-enredo, demonstrando que a narrativa política transcende o desfile.
TSE diz que nada ou tudo pode acontecer: é o Brasil da piada pronta
A análise dos eventos de 2006 e da situação atual demonstra que o Carnaval, uma das maiores expressões culturais do Brasil, tem sido recorrentemente inserido no debate político-eleitoral, tornando-se um palco para a promoção de figuras públicas e seus projetos políticos.
Provocado, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) decidiu, por unanimidade, rejeitar os pedidos de liminar para barrar o desfile da escola de samba Acadêmicos de Niterói, que homenageia o presidente Lula no Carnaval de 2026.
A Corte entendeu que impedir a homenagem antes do evento configuraria censura prévia, algo vedado pela Constituição.
Na decisão, o TSE salientou que até o momento, os ministros avaliaram que o samba-enredo não contém pedido explícito de voto, o que descaracteriza propaganda eleitoral antecipada neste estágio, decisão que a oposição considera uma pilhéria.
A rejeição da liminar interposta por partidos da oposição não significa que o caso foi encerrado. O processo segue aberto e a Justiça Eleitoral jurou que fiscalizará o desfile para verificar se haverá abuso de poder econômico ou político durante a apresentação no Sambódromo.
A presidente do TSE, Cármen Lúcia, afirmou que o Carnaval não pode ser usado como “fresta” para crimes eleitorais e que a Corte permanecerá vigilante.
A constante utilização de recursos públicos para financiar escolas de samba, aliada à proximidade de períodos eleitorais, invariavelmente leva a questionamentos sobre a legalidade e a ética de tais homenagens.
As controvérsias apontam para um ciclo de acusações de campanha antecipada e uso indevido de verbas, com a linha que separa a manifestação cultural da exploração política permanecendo tênue e sujeita a interpretações que mudam conforme o espectro político no poder ou na oposição.
* Reportagem: Val-André Mutran (Brasília-DF), especial para o Portal Ver-o-Fato.

















