Lula e presidente da conferência pediram urgência na aplicação de soluções efetivas que reduzam o aquecimento global; Austrália e Turquia tentam sediar a próxima edição
A conferência do clima da ONU, que começou oficialmente nesta segunda-feira, 10 de novembro de 2025, em Belém do Pará, no coração da Amazônia, promete ser um marco histórico. E, de fato, o primeiro dia oficial entregou um mix de discursos inspiradores, bastidores caóticos, críticas ambientais e um lembrete inescapável de que o planeta não espera por formalidades.
O dia começou com pompa amazônica: rituais indígenas, tambores ecoando no Hangar das Mangueiras (o epicentro da conferência) e uma plateia inquieta, composta por integrantes de ONGs, ativistas e CEOs de multinacionais. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em seu discurso de abertura, não poupou críticas ao “negacionismo climático”. Lula pediu que o mundo redirecione os trilhões gastos em guerras para soluções climáticas, citando novamente a necessidade de um “mapa para o fim do uso do petróleo”.
Ele mencionou o tornado devastador no Paraná (entre 7 e 8 de novembro), que deixou um rastro de destruição no Sul do Brasil, como prova viva de eventos extremos que se intensificam com o aquecimento global. Logo em seguida, o embaixador André Corrêa do Lago, eleito presidente da COP30 em um “fantástico acordo” que evitou o caos inicial, assumiu o microfone com uma agenda clara: implementar acordos passados, ouvir a ciência e integrar o clima à economia.
“Esta COP precisa ser lembrada pelo avanço na adaptação, pela criação de empregos verdes e pela fusão do clima com as atividades econômicas”, declarou ele. Corrêa do Lago, um diplomata experiente, enfatizou a solidariedade global em uma síntese diária oficial da COP30, que descreveu o dia como uma “poderosa demonstração de compromisso”.
É refrescante ver um foco em “implementação” em vez de mais promessas vazias – as COPs anteriores acumularam pilhas de intenções, mas o aquecimento global não lê PDFs de acordos. O Brasil se posiciona como articulador, com propostas como o Fundo Florestas Tropicais para Sempre e o Pacto Belém 4X, que já captaram mais de US$ 5,5 bilhões em compromissos iniciais de cinco países, incluindo o anfitrião. No entanto, será que isso resiste ao ceticismo? Com emissões globais ainda subindo (apesar de um leve abrandamento), a pressão é para triplicar renováveis e desbloquear US$ 1,3 trilhão anuais para os mais vulneráveis.
Contradições brasileiras: licença da Petrobras
Enquanto os discursos ecoavam urgência, o presidente do Ibama, Rodrigo Agostinho, jogou lenha na fogueira – ironicamente, em um evento sobre fogo controlado. Ele negou qualquer pressão de Lula para liberar a licença ambiental da Petrobras na Margem Equatorial da Foz do Amazonas, uma área sensível na Amazônia profunda. “Foi uma decisão técnica; a licença estava pronta antes da COP e não fazia sentido segurá-la por repercussão política”, afirmou ele ao Broadcast/Estadão.
Com 34 condicionantes adicionais atendidas pela estatal, Agostinho enfatizou que o debate é “técnico, não ideológico”. Em um dia de críticas ao petróleo, soltar essa licença, segundo ambientalistas soa como piada de mau gosto. A exploração pode render bilhões, mas arrisca ecossistemas frágeis – e mancha a imagem do Brasil como guardião da floresta.
Ativistas já protestam nas ruas de Belém, e posts no X (antigo Twitter) viralizam vídeos de fumaça cobrindo a cidade, com hashtags como #COP30Hypocrisy, criticando a queima de árvores para uma rodovia de acesso à conferência. É o clássico: salvamos o planeta com uma mão e perfuramos com a outra.
Disputa pela COP31 e encontros inusitados
Nos corredores, a diplomacia fervia. O Brasil assumiu a mediação de uma briga de mais de um ano entre Austrália e Turquia pela sede da COP31, em 2026. O embaixador Mauricio Lyrio, ex-representante brasileiro na Austrália, foi escalado para o papel de pacificador, mas fontes indicam que o Azerbaijão (da COP29) tentou em vão.
Sem acordo até agora, a tensão paira – imagine: enquanto discutimos o fim das guerras, disputamos o palco do próximo show climático. isso revela a geopolítica nua e crua; países emergentes como a Turquia querem visibilidade, mas a Austrália aposta em sua expertise em ilhas vulneráveis ao mar. O Brasil, como mediador, ganha pontos na liderança global.
E os chefes de Estado? Histórias dignas de filme
O presidente português Marcelo Rebelo de Sousa ligou para o dono da rede Vila Galé, implorando para acelerar obras no hotel amazônico, inaugurado com pompa para a COP em Belém – e deu certo, apesar de acabamentos pendentes. Mas o destaque foi o “tapete vermelho” estendido pela comitiva do Congo para o ditador Denis Sassou N’Guesso, que ocupa a suíte presidencial desde 1997.
Lula, por sua vez, trocou cumprimentos breves com Ahmad Al-Sharaa, o novo líder sírio pós-queda de Assad, em um raro momento de interação entre “rivais” históricos. Enquanto delegados compartilham hotéis de luxo e restaurantes premiados (com desencontros hilários, como rivais esbarrando em mesas vizinhas), a crise de hospedagem foi resolvida. Até agora, parece que ninguém reclamou de não ter um canto para dormir.
Por outro lado, o temporal típico de Belém não perdoou: raios, trovoadas e uma chuva torrencial vazaram água na zona azul da COP, encharcando pavilhões. A ministra paquistanesa Maryam Nawaz, de Punjab, ficou “ilhada” tentando entrar no carro da comitiva, com assessores molhados dos pés à cabeça. Vídeos no X capturam o caos, com delegados correndo como formigas em dilúvio.
Em resumo, o primeiro dia foi um sucesso diplomático (consenso na agenda, fundo inicial robusto), mas pontuado por hipocrisias e falhas operacionais. A força da diplomacia brasileira brilhou, como notou Flora Bitancourt da World Climate Foundation, mas as críticas no X – de fumaça literal a rodovias anti-ambientais – lembram que ações falam mais alto que discursos.
O que esperar nos próximos dias
Agora, virando o olhar para o futuro: a COP30 vai até 21 de novembro, com uma agenda lotada de mais de 140 itens, dos quais três são prioritários: financiamento climático, contribuições nacionalmente determinadas (NDCs) e perda & dano. Como o dia 11, hoje, marca o segundo dia oficial, espere um foco inicial em adaptação às mudanças climáticas, com painéis sobre resiliência em ecossistemas como a Amazônia e ilhas vulneráveis.
Indígenas terão um papel inédito, com pavilhões dedicados e voz em decisões – um avanço simbólico, mas crucial, dado que comunidades como as do Xingu guardam saberes ancestrais para a conservação. Nos dias 12-13, o spotlight vira para cidades sustentáveis, debatendo urbanização verde em megacidades como São Paulo e Mumbai.
Espere anúncios sobre mobilidade elétrica e edifícios zero-carbono, mas com pressão para inclusão de nações em desenvolvimento. A partir do dia 14, entramos no alto nível, com mais líderes chegando – incluindo, possivelmente, Xi Jinping da China e emissários europeus –, focando em mitigação (redução de emissões). As novas NDCs de 113 países já cortam 12% das projeções até 2035, mas analistas cobram ambição maior da América Latina, que ainda patina em metas fracas.
Riscos? Geopolítica: com Trump de volta, os EUA podem recuar de compromissos, forçando China e UE a liderarem – e o Brasil a mediar. No X, posts alertam para protestos crescentes contra a “hipocrisia” (jatos privados poluem enquanto se discute net-zero). Positivos: pavilhões como o paquistanês (inaugurado por Maryam Nawaz) e etíope (candidato à COP32) impulsionam parcerias Sul-Sul.
No geral, espere avanços incrementais: mais US$ em fundos, mas sem “texto fundador” revolucionário – o foco é implementação, como disse Corrêa do Lago. Se Belém entregar, pode ser o “crisol de implementação” que o mundo precisa. Caso contrário, mais um ciclo de fumaça – literal e figurada.
Fique de olho: o planeta não agenda pausas.















