“Auditores são cães de guarda, não de caça”, diz especialista em audiência sobre Master na Comissão de Assuntos Econômicos
Brasília – A Comissão de Assuntos Econômicos (CAE) do Senado Federal promoveu, nesta terça-feira (17), uma audiência pública decisiva para desvendar as engrenagens técnicas que permitiram a fraude bilionária no Banco Master.
O debate, centrado no papel das auditorias independentes e na proteção ao investidor, expôs uma lacuna crítica entre a “garantia razoável” oferecida pelos auditores e a sofisticação das práticas criminosas atribuídas ao grupo liderado por Daniel Vorcaro.
Enquanto especialistas defendem que auditores são “cães de guarda” e não “cães de caça”, parlamentares elevam o tom contra o que classificam como uma possível omissão sistêmica dos órgãos reguladores, como o Banco Central (BC) e a Comissão de Valores Mobiliários (CVM), em um cenário de crescente tensão política que já alcança os tribunais superiores.
O limite da auditoria: “cães de guarda” em ambientes criminosos
O debate técnico foi inaugurado por representantes do Ibracon (Instituto dos Auditores Independentes do Brasil) e do CFC (Conselho Federal de Contabilidade), que buscaram delimitar as responsabilidades da categoria.
Rogerio Lopes Mota, do Ibracon, enfatizou que a auditoria independente não é uma investigação policial, mas um exame baseado em testes e amostragem para fornecer asseguração sobre as demonstrações financeiras.
“A auditoria trabalha com o que está dentro da empresa; ela não tem poder de polícia para rastrear fluxos externos”, defendeu.
Essa visão foi corroborada por Antoninho Marmo Trevisan, veterano do setor, que utilizou uma metáfora contundente: “O auditor é um watchdog (cão de guarda), não um hunting dog (cão de caça)”.
Trevisan alertou que, em ambientes dominados por fraudes estruturadas ou crimes organizados, a auditoria torna-se virtualmente impossível. Ele ressaltou ainda que muitos relatórios que apontavam irregularidades ou “abstenção de opinião” no caso Master foram simplesmente ignorados pelo mercado e pelos reguladores.
Fundos estruturados e o “valor justo” na mira da CVM
Um dos pontos de maior relevância técnica foi apresentado por Fabio Pinto Coelho, da Comissão de Valores Mobiliários (CVM). Ele detalhou os riscos inerentes aos Fundos Estruturados, onde a precificação de ativos é feita sob o conceito de “Valor Justo de Nível 3” — um modelo que permite grande discricionariedade por não possuir preços observáveis em mercado ativo.
Segundo Coelho, a CVM já possui processos administrativos em curso contra o grupo Master, focados justamente na existência e precificação desses ativos. O debate sugeriu que o modelo atual de governança falhou ao não detectar a tempo as inconsistências contábeis que sustentavam a liquidez aparente da instituição, agora sob intervenção.
A reação política e o fantasma da captura regulatória
A bancada de senadores, incluindo nomes como Jorge Kajuru (PSB-GO), Izalci Lucas (PL-DF) e Esperidião Amin (PP-SC), demonstrou ceticismo quanto às justificativas técnicas.
O senador Kajuru questionou abertamente se houve “captura regulatória”, sugerindo que o Banco Central e a CVM podem ter sido induzidos à inércia por influências políticas.
A senadora Damares Alves (Republicanos-DF) reforçou a preocupação com o impacto social da fraude, que atinge diretamente poupadores e fundos de pensão vinculados ao INSS — tema que já tramita de forma turbulenta na CPMI do INSS.
A conexão entre o escândalo do Banco Master e os desdobramentos da CPI da Covid também ecoou nos corredores. Parlamentares estabelecem paralelos entre o modus operandi de grupos que atuaram na pandemia e a rede de influência de Vorcaro, que teria buscado interlocução direta com o Palácio do Planalto e ministros do STF, como Alexandre de Moraes e Dias Toffoli, para sustentar suas operações.
Reformas legislativas
A audiência na CAE sinaliza que o caso Master ultrapassou a esfera financeira para se tornar uma crise de confiança institucional. A possível delação premiada de Daniel Vorcaro, que aguarda ratificação pela PGR ou pela Polícia Federal, é vista como o “fato novo” que pode implodir a rede de operadores políticos e magistrados citada em investigações recentes.
Como desdobramento imediato, o Senado acelera a discussão do Projeto de Lei (PL 2.581/2023), que visa aumentar a proteção a informantes e criminalizar de forma mais severa fraudes corporativas, tentando fechar o cerco contra a impunidade no sistema financeiro nacional.
* Reportagem: Val-André Mutran (Brasília-DF), especial para o Portal Ver-o-Fato.















