Zema pede prisão e Flávio exige renúncia de Moraes; Cury voltou a propor o fim da vitaliciedade dos ministros da Corte
Brasília – A relação entre o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), e o banqueiro Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master, tornou-se nesta terça-feira, 1º de setembro, o principal combustível da disputa presidencial, com pelo menos três candidatos se manifestando publicamente sobre o caso.
Flávio Bolsonaro (PL) defendeu a renúncia do magistrado, Romeu Zema (Novo) pediu sua prisão e Augusto Cury (Avante) voltou a propor o fim da vitaliciedade dos ministros da Corte, enquanto os demais presidenciáveis ainda não se posicionaram.
As declarações ocorrem em meio a novas revelações de que Moraes teria editado um contrato de R$ 131 milhões firmado entre o escritório de sua esposa, a advogada Viviane Barci de Moraes, e o Banco Master, além de um repasse adicional de US$ 1,6 milhão feito por Vorcaro para financiar um filme sobre a vida do ex-presidente Jair Bolsonaro.
A escalada começou com a publicação de reportagens que trouxeram à tona detalhes inéditos sobre a proximidade entre o ministro e o banqueiro. Segundo apurações baseadas em metadados extraídos do celular de Vorcaro, Moraes teria aberto e editado a última versão do contrato de R$ 131,2 milhões firmado entre o escritório de advocacia de sua mulher e o Banco Master.
A edição atribuída ao ministro teria ocorrido às 23h04 do dia 15 de janeiro de 2024, cerca de uma hora e quarenta minutos após Vorcaro devolver o documento a Viviane Barci de Moraes. O magistrado e a advogada confirmaram ter acesso ao documento, mas negaram qualquer ilegalidade, e o escritório afirmou que consultou o ministro sobre eventuais impedimentos legais antes de fechar o acordo.
Em paralelo, um relatório do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) identificou um novo pagamento de US$ 1,6 milhão feito por Vorcaro ao fundo Havengate Development, responsável por administrar recursos utilizados na produção do longa-metragem “Dark Horse”, sobre a vida de Jair Bolsonaro. A transferência teria ocorrido em 16 de setembro de 2025, oito dias depois de Flávio Bolsonaro cobrar o banqueiro por parcelas que estavam atrasadas. O dado contrasta com a declaração anterior do senador, segundo a qual o último pagamento do banqueiro ao filme havia sido realizado em maio daquele ano, o que levou críticos a apontar uma contradição na versão apresentada pelo presidenciável.
Foi nesse contexto que Flávio Bolsonaro, ao chegar ao Senado para presidir uma sessão da Comissão de Segurança Pública, afirmou que Moraes não teria condições de permanecer na Corte. “O Alexandre de Moraes tinha de renunciar ao Supremo Tribunal Federal. Não tem menor condição dele continuar sendo ministro do Supremo”, declarou a jornalistas. Questionado sobre o novo repasse, o senador disse que não acompanha diretamente a movimentação financeira relacionada à produção do filme e atribuiu à produtora a responsabilidade por prestar esclarecimentos.
A reação mais dura veio de Romeu Zema, governador de Minas Gerais e candidato do Novo. Em publicação no X, o presidenciável afirmou que “esse projetinho de ditador nunca me enganou” e sustentou que a Polícia Federal teria demonstrado que Moraes editou o contrato do escritório da esposa com o Master “às 23h04, no mesmo sistema que ele usa pra despachar processo”.
Zema acrescentou que Moraes teria pedido proteção para Vorcaro diretamente ao procurador-geral da República e ao diretor da PF, e lembrou que, ainda como governador, protocolou em março deste ano um pedido de impeachment contra o ministro. “Impeachment é pouco. Ele merece é cadeia. Chega de intocável enriquecendo às custas do povo. Prisão pra ele e que devolva todo o dinheiro”, finalizou.
Já Augusto Cury, candidato do Avante, aproveitou o episódio para reforçar uma bandeira que já defendia antes da crise. Durante visita à Expointer, feira agropecuária realizada em Esteio, na Região Metropolitana de Porto Alegre, o presidenciável voltou a defender o fim da vitaliciedade para os cargos dos ministros do STF e propôs mandato de oito anos. “Temos de romper com isso. Eu tenho o respeito de vários ministros do Supremo, mas sou o único que fala isso”, afirmou a jornalistas.
O caso, no entanto, não se limita ao campo eleitoral e já produz desdobramentos dentro da própria Corte. O ministro André Mendonça, relator das investigações sobre o Banco Master no STF, encaminhou à Procuradoria-Geral da República um relatório com supostas mensagens trocadas entre Vorcaro e Moraes, nas quais o banqueiro mencionaria a necessidade de “proteção” do procurador-geral da República, Paulo Gonet, e do diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues.
Em uma das conversas, Vorcaro teria perguntado ao ministro se deveria deixar o Brasil antes de a PF deflagrar a operação que o prendeu, ocorrida em março de 2026 no âmbito da Operação Compliance Zero. Mendonça, que teria tido uma discussão tensa com Moraes sobre o caso, decidiu consultar o presidente do STF, Edson Fachin, antes de deliberar sobre um pedido de investigação contra o colega, e deu à PGR prazo de cinco dias para se manifestar.
As revelações também reacenderam o debate sobre a suspeição de Moraes para julgar processos ligados ao Banco Master e ao clã Bolsonaro. Em junho, Fachin já havia decidido que Mendonça, e não Moraes, seria o relator do caso “Dark Horse”, seguindo a área técnica da Corte, e Flávio Bolsonaro chegou a pedir que o ministro fosse declarado suspeito para julgar a apuração. A investigação ainda revelou a existência de um segundo contrato, de R$ 50 milhões, que teria tornado Viviane Barci de Moraes sócia de aeronaves de Vorcaro, conforme diálogos apreendidos pela Polícia Federal.
O episódio expõe, portanto, uma crise institucional que ultrapassa a esfera pessoal dos envolvidos, ao colocar em xeque a imparcialidade de um dos ministros mais influentes do STF e transformar o caso em arma de campanha na corrida presidencial. Enquanto a PGR analisa as mensagens e Mendonça decide sobre a abertura de investigação, a Corte enfrenta o desafio de preservar sua credibilidade diante de acusações que envolvem contratos milionários, supostos pedidos de proteção a autoridades e a relação entre um magistrado e um banqueiro preso, em um cenário que promete seguir dominando o noticiário político nas próximas semanas.
Atualizada às 17:24
Nikolas Ferreira anuncia pedido de investigação contra Moraes no STF e cita risco de fuga
O deputado Nikolas Ferreira (PL-MG), primeiro vice-líder da minoria na Câmara, afirmou nesta terça-feira (1º) que vai encaminhar ao Supremo Tribunal Federal (STF) um pedido de abertura de investigação sobre conversas atribuídas ao ministro Alexandre de Moraes com o controlador do Banco Master, Daniel Vorcaro. A petição, segundo o parlamentar, também deve incluir solicitações de afastamento cautelar e de prisão preventiva do magistrado.
A iniciativa ocorre em meio ao avanço do caso no STF. O ministro-relator do processo envolvendo o Banco Master, André Mendonça, solicitou à Procuradoria-Geral da República (PGR) um parecer sobre o relatório preliminar da Polícia Federal, que reúne mensagens extraídas do celular de Vorcaro e encaminhadas a autoridades judiciais.
Em nota, a assessoria de imprensa de Nikolas informou que “a medida será apresentada ao STF com o objetivo de apurar supostas irregularidades atribuídas ao ministro”.
Nas redes sociais, o deputado comparou a situação ao caso de Filipe Martins, ex-assessor de política internacional de Jair Bolsonaro, preso preventivamente em 2024. À época, a prisão foi fundamentada, entre outros pontos, no risco de fuga, após a investigação apontar indícios de que ele teria deixado ilegalmente o país durante o período investigado no inquérito sobre a tentativa de golpe de Estado.
“De acordo com critério aplicado ao caso Filipe G. Martins, Moraes deve ser preso preventivamente ainda hoje. Não há apenas um indício claro de prevaricação, mas há risco de fuga. Inclusive, Vorcaro pede que Moraes o ajude a fugir”, declarou Nikolas.














