Quando a fama entra em campo, a proposta costuma ficar em segundo plano. Como dirigentes dos partidos, avacalham a política com puxadores de votos
Brasília – A eleição de 2026 começa a ganhar contornos de espetáculo político com a intensificação da estratégia de partidos que apostam em celebridades, influenciadores, artistas e ex-atletas como candidatos, em uma dinâmica de “reality show das urnas”. A lógica já é conhecida e revela o cinismo dos dirigentes partidários: nomes populares são tratados como “puxadores de votos”, capazes de ampliar o quociente eleitoral e arrastar outros postulantes da legenda, ainda que sem trajetória consolidada na gestão pública.
Essa movimentação aparece como uma repetição de um roteiro eleitoral em que a notoriedade se sobrepõe ao programa. O caso de Tiririca é um clássico. Eleito em 2010 com o bordão “pior que tá não fica”, quando obteve mais de 1,3 milhão de votos e ajudou a eleger outros três parlamentares de seu então partido, o PR, hoje PL.
A referência funciona como parâmetro para a leitura do cenário atual: a disputa de 2026 tende a reunir nomes conhecidos do público em diferentes frentes, sob o argumento de renovação, mas com forte apelo de marketing eleitoral.
Entre os nomes já anunciados, está Antonia Fontenelle (PSDB-RJ), que oficializou entrada no partido em meio à reorganização tucana no Rio de Janeiro. Ela justifica a candidatura como reação ao “sequestro do debate público” pelos extremos e afirma priorizar o combate ao feminicídio, o enfrentamento à corrupção e a proteção infantil.
O jogador Edmundo (PSDB-RJ), ex-jogador do Vasco, que se filiou ao PSDB a convite de Luciano Vieira, presidente estadual da sigla também é pré-candidato. O ex-atleta trata a filiação como sua “primeira aventura” na política e a vincula à pauta de esporte e infância, numa profundidade programática que faz corar de inveja as piscinas de plástico vendidas em plataformas de E-commerce chinesas.
Outra figura destacada é Gracyanne Barbosa (Republicanos-RJ), influenciadora fitness e fisiculturista, que pretende disputar uma vaga no Rio de Janeiro. Ela informa que sua plataforma gira em torno do esporte como ferramenta de transformação e disciplina, e que ela afirma estar madura para “devolver” o que recebeu em sua trajetória, com foco em saúde e em valores que diz compartilhar com o partido.
No mesmo eixo de celebridades com capital digital, surge Rico Melquiades (PSDB-AL), vencedor de A Fazenda 13, que anunciou pré-candidatura à Câmara dos Deputados com propostas em tom humorístico e provocativo. O postulante a uma cadeira em Brasília cita publicações nas quais ele fala em liberar cirurgia plástica pelo SUS, alterar a CLT para permitir um “tapão” no patrão uma vez por semana e criar uma “bolsa maconha”.
A repercussão da candidatura de Rico é dividida entre humor e crítica. Parte do público reagiu com apoio irônico, enquanto outra parte comparou sua movimentação à trajetória de Tiririca.
No ano anterior, Rico foi ouvido na CPI das Bets, no Senado, quando negou envolvimento com atividades ilegais e afirmou que sua relação com empresas do setor se limitou a campanhas publicitárias.
O influencer também foi alvo da Operação Game Over 2, da Polícia Civil de Alagoas, que investiga a divulgação irregular de plataformas de jogos de azar online. O “domador de tigrinhos” entra na disputa todo enrolado na justiça.
O cardápio atende a todos os gostos e estômagos
Outros nomes sinalizam entrada na disputa. Silvia Abravanel (PSD-SP), filha de Silvio Santos e apresentadora do SBT, aparece como possível candidata à Assembleia Legislativa por São Paulo, com atuação ligada à inclusão de pessoas com deficiência, motivada pela experiência com a filha Luana.
Tayane Gandra (PSDB-RJ) é descrita como recrutada pelo partido após a visibilidade obtida como mãe de Guilherme Gandra, o “Menino Gui”, conhecido pelo amor ao Vasco e pela luta contra a epidermólise bolhosa. O PSDB pretende continuar a agenda de acessibilidade e inclusão ao lado dela.
Também figuram como pré-candidato Val Marchiori (Republicanos-SP), que enfrenta câncer de mama e diz que o diagnóstico a fez “ressignificar” sua trajetória, e até um intelectual campeão de vendas: Augusto Cury (Avante), escritor e psiquiatra que mira a Presidência da República.
O Avante defende sua filiação como tentativa de oferecer alternativa à polarização e de apresentar um projeto de desenvolvimento nacional. A sigla lembra que Cury já havia sinalizado a intenção de disputar a eleição em carta aberta publicada nas redes sociais, no início de março, antes de formalizar a filiação.

Cantor do hit “Caneta Azul” vai disputar vaga para deputado federal em SP
Intérprete do hit “Caneta Azul”, o cantor Manoel Gomes anunciou em fevereiro (6/2) que irá disputar uma vaga na Câmara dos Deputados.
O artista pretende concorrer a uma vaga na Câmara pelo partido Avante. Nas redes sociais, Manoel afirmou que, agora, “a caneta” dele vai trabalhar pelo povo.
“Meu povo, eu só estava esperando o tempo certo. Vocês me conheceram pela música, mas agora essa caneta não escreve só canções, ela vai trabalhar pelo povo. Porque eu venho de vocês e sei o que a gente vive”, declarou o artista nas redes sociais.
Manoel enfrenta hoje uma fase difícil na sua vida financeira.
O cantor ganhou projeção nacional em 2019, quando o hit “Caneta Azul” viralizou nas redes sociais e o transformou em um fenômeno da internet, garantindo shows lotados e contratos publicitários.
Agora, após perder uma fortuna milionária, ele vive de favor na casa de um assessor, em São Paulo, enquanto tenta reorganizar a vida financeira e reconstruir a carreira após uma sequência de problemas pessoais e profissionais. E a política é um trampolim perfeito para esse tipo de “virada”.
Partidos e figuras públicas convergem para uma mesma aposta: transformar popularidade em ativo eleitoral. Essa prática permite mascarar a falta de programa com exposição pública e engajamento digital.
A política se converte em vitrine — “muito rosto, pouca ideia; muito slogan, quase nenhuma proposta” — ambiente no qual o eleitor é convidado a confundir fama com capacidade de governar.
O desfecho deixa em aberto a questão central para 2026: até que ponto o eleitor aceitará esse modelo de disputa, em que a campanha se aproxima de um espetáculo e a urna vira extensão da celebridade.
Se 2026 seguirá esse roteiro, a pergunta deixa de ser quem quer ser candidato e passa a ser outra, menos charmosa: até que ponto partidos e famosos ainda acham que o eleitor aceitará, sem desconfiança, esse teatro com crachá eleitoral?
* Reportagem: Val-André Mutran (Brasília-DF), especial para o Portal Ver-o-Fato.















