Executiva Nacional da legenda tem até 5 de agosto para responder ao convite do candidato do PL e definir o posicionamento do partido na disputa presidencial, que segue sem vice definida
Brasília – Em busca de uma mulher para compor a vaga de vice em sua chapa ao Palácio do Planalto, o candidato do PL, Flávio Bolsonaro, convidou na última sexta-feira (31) a presidente nacional do Podemos, Renata Abreu, para integrar a candidatura. A decisão, porém, ficou nas mãos da Executiva Nacional da legenda, que precisa responder até quarta-feira (5) sobre o aceite do convite e sobre a manutenção da neutralidade do partido na disputa presidencial. O prazo coincide com a reta final das convenções, e o presidenciável segue sem nome definido para compor a chapa.
Em convenção nacional realizada no fim de semana, Renata Abreu sinalizou que não tomará a decisão sozinha. “Essa é uma decisão coletiva. Eu sou uma pessoa de missão. Se o grupo entender que é importante para crescimento de partido, essa é uma decisão que vai ser tomada em grupo”, afirmou a presidente da legenda, candidata à reeleição na Câmara dos Deputados.
Interlocutores do Podemos avaliam, no entanto, que a tendência é que Abreu não embarque na campanha bolsonarista e preserve a neutralidade, em razão do projeto com foco no Legislativo estruturado pelo partido. O apoio à candidatura de Flávio, ressalvam dirigentes, não exige que a presidente nacional seja a vice da chapa, o que abre espaço para um desenho em que a legenda declare apoio sem ceder seus quadros à disputa majoritária.
Neutralidade do Centrão pressiona campanha de Flávio
A movimentação ocorre em um contexto delicado para a campanha do presidenciável do PL. Após as posições de neutralidade adotadas por siglas do Centrão, como MDB, União Brasil e Progressistas, além do Republicanos, mais à direita, a campanha de Flávio Bolsonaro precisa do apoio do Podemos para tentar ampliar sua fatia da propaganda eleitoral na televisão, hoje liderada por Lula.
Tradicionalmente, o tempo de rádio e TV é um dos ativos mais disputados no cálculo das alianças, e a ausência de palanque nacional das principais legendas de centro reduz a projeção da candidatura bolsonarista. Esse axioma, no entanto, caiu por terra em 2018, quando o candidato Jair Bolsonaro venceu as eleições com apenas 7 segundos de tempo de rádio e TV.
Ainda na sexta-feira, o Progressistas vetou a possibilidade de a senadora Tereza Cristina (PP-MS), considerada o nome preferido da campanha para a vice, compor a chapa presidencial de Flávio Bolsonaro. Ao reagir ao recuo, o candidato disse ter ficado “muito honrado” com o aceite anterior da ex-ministra e atribuiu a desistência a “questões internas do Progressistas”, afirmando manter opções no União Brasil, no Podemos e no Republicanos.
A busca por uma vice mulher
Sem apresentar evidências que justifiquem sua fixação pela composição de vaga de vice por uma mulher, a busca de um nome acabou se transformando em outro esforço que “drena” a energia da campanha de Flávio Bolsonaro.
A justificativa, simplista, diz que é para se aproximar do eleitorado feminino, considerado um calcanhar de Aquiles da direita. Renata Abreu é um dos nomes preferidos de Flávio Bolsonaro para compor a chapa. Advogada, ela ajudou a reestruturar o Podemos em 2017 e exerce mandato como deputada federal desde 2014.
Além de Renata, outra opção para a vice é a ex-presidente da Caixa Econômica Federal Daniella Marques, filiada ao Republicanos. Daniella tem auxiliado Flávio Bolsonaro na elaboração do plano de governo e na interlocução com o mercado financeiro, o que a credencia como ponte entre a campanha e o empresariado.
O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), avaliou publicamente que Renata Abreu seria “um ótimo nome” para a vaga, sinal de que a cúpula do Republicanos não obstrui o caminho da presidente do Podemos.
A força da ala paulista
Nos bastidores, a avaliação é que a neutralidade do Podemos beneficia sobretudo a ala paulista da sigla. Dos 27 congressistas do partido, 11 representam São Paulo, onde dirigentes veem no alinhamento ao governador Tarcísio de Freitas, sem adesão a uma candidatura ao Planalto, uma forma de potencializar o desempenho eleitoral. No domingo (2), a convenção do Podemos contou com a presença de Tarcísio, que manifestou apoio ao candidato da legenda ao Senado, o empresário Geraldo Rufino.
O raciocínio interno é duplo, manter proximidade com o governador paulista, que concentra a maior fatia do eleitorado nacional, e evitar o desgaste de uma adesão explícita a uma campanha presidencial de alta rejeição entre parcelas do eleitorado moderado. A aposta no fortalecimento das bancadas parlamentares, com foco na Câmara e no Senado, aparece como estratégia de sobrevivência e crescimento diante de um cenário nacional polarizado.
A pressão do calendário
Houve tempo mais do que suficiente para o PL definir com antecedência o nome para compor a vaga de vice. Entretanto, a campanha passa a impressão de amadorismo e resposta retardada aos obstáculos que se apresentam.
O prazo de 5 de agosto não é casual, ele coincide com o encerramento do período de convenções partidárias, que começou em 20 de julho, e com a necessidade de registro das coligações na Justiça Eleitoral. A convenção do PL, realizada em 25 de julho, oficializou a candidatura de Flávio Bolsonaro sem anunciar o nome do vice, em evento marcado por ataques ao governo Lula e ao Supremo Tribunal Federal, com apoio declarado de aliados do núcleo bolsonarista.
A reunião da Executiva Nacional do Podemos, convocada para esta segunda-feira (3), deve produzir uma sinalização definitiva sobre os dois temas, aceite e neutralidade, mas dirigentes admitem que a definição formal pode se estender até o limite do prazo legal. A pressão sobre a legenda, no entanto, é crescente, quanto mais tempo passa, mais curta fica a janela para desenhar palanques estaduais, negociar tempo de TV e estruturar a logística de campanha nos estados onde a sigla tem peso.
* Reportagem: Val-André Mutran (Brasília-DF), especial para o Portal Ver-o-Fato.















