A cinco dias do 1º turno, cúpula do partido cobra contra-ataque ao PT e aponta passividade diante das armadilhas do caso Master, crise no STF e Padroeira, substituindo Lula por Flávio no noticiário negativo
Brasília -A cinco dias do primeiro turno, marcado para 4 de outubro, o Partido Liberal enfrenta um paradoxo interno: enquanto a campanha do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) intensifica a ofensiva contra o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e arma a arapuca da Fake News da Padroeira, que substitui Lula por Flávio no noticiário negativo, com propaganda eleitoral na televisão, ações no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e uma guerra digital apoiada na conexão do candidato com o banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master, parte do partido critica a candidatura do senador por reagir tardiamente e de forma reativa às “armadilhas” montadas pelo adversário.
As queixas não são novas, mas voltaram a ecoar nos bastidores do PL em meio a um cenário eleitoral de empate técnico: a pesquisa Datafolha divulgada em 24 de setembro aponta Lula com 40% das intenções de voto no primeiro turno, contra 36% de Flávio, e empate no segundo turno, com 47% a 45%. A diferença no segundo cenário está dentro da margem de erro de dois pontos percentuais, o que reforça a avaliação de aliados de que cada erro de comunicação custa votos nesta reta final.
O ponto de partida da insatisfação foi o chamado “fogo amigo” de julho, quando bolsonaristas próximos ao ex-deputado Eduardo Bolsonaro, irmão do candidato, passaram a criticar publicamente a pré-campanha. O ex-secretário de Comunicação do governo Jair Bolsonaro, Fábio Wajngarten, escreveu nas redes sociais que “a campanha de Flávio não existe”, por considerar que faltam agenda, comunicação, organização e planejamento. O comentarista Paulo Figueiredo classificou a estratégia como um “desastre de comunicação” e uma “campanha insossa”, afirmando que o senador “tem que jogar com as características do bolsonarismo”, e não “com as características de um candidato que tem 3% nas urnas”.
O influenciador Kim Paim, que tem quase um milhão de inscritos no YouTube, ampliou o coro ao criticar nominalmente a coordenação. A equipe do pré-candidato, à época, preferiu não responder publicamente às provocações, e integrantes do núcleo estratégico atribuíram, sob reserva, as manifestações a ressentimentos de quem ficou de fora da estrutura de campanha.
A pauta da crítica interna, no entanto, tem um alvo específico: o coordenador-geral da campanha, senador Rogério Marinho (PL-RN), apontado por aliados como um gestor centralizador e pouco aberto à participação de nomes de fora do núcleo decisório. O descontentamento chegou à cúpula do partido por interlocutores ligados a Eduardo Bolsonaro, e foi registrado por veículos como Folha de S.Paulo, O Globo e InfoMoney entre 8 e 10 de julho. A campanha nega que exista crise e afirma que nenhuma mudança será feita.
O movimento, contudo, produziu efeitos concretos. No fim de julho, após uma sucessão de desgastes que envolveu fogo amigo, a crise com a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro e erros de comunicação, Flávio trocou novamente o comando da campanha e passou a apostar no marqueteiro Duda Lima. Sob a nova orientação, a propaganda no rádio e na TV passou a priorizar temas que afetam a vida do eleitor, como custo de vida e segurança pública, com a promessa de apresentar o candidato como mais propositivo do que o adversário.
É justamente nesse ponto que se concentra a crítica que dá contorno à pauta: enquanto o PT opera em múltiplas frentes, a campanha de Flávio teria demorado a responder aos ataques. A propaganda petista, iniciada em 28 de agosto, abriu com acusações sobre o caso das rachadinhas no gabinete de Flávio na Assembleia Legislativa do Rio (Alerj), sobre o financiamento do filme “Dark Horse” e sobre as relações com Vorcaro, que teria repassado ao menos R$ 63,7 milhões a um fundo ligado à produção. O valor, ainda sob apuração, foi divulgado com base em reportagens e não tem confirmação judicial definitiva.
A ofensiva também passou pelo TSE. Em 23 de setembro, a campanha de Lula acionou a Corte contra Flávio por suposta interferência estrangeira na eleição, com suspeitas de atuação de estruturas externas no financiamento ou no apoio à candidatura. Uma semana antes, especialistas ouvidos pelo Valor Econômico afirmavam que a ação do PT sobre o suposto uso de “collabs” para impulsionar a campanha do senador poderia levar à suspensão de perfis nas redes sociais.
O candidato do PL, entretanto, também tem usado a via judicial. Levantamento do Poder360 publicado em 26 de setembro contabiliza 93 acionamentos ao TSE feitos pela campanha de Flávio contra Lula desde o início oficial da campanha, em 16 de agosto, com representações concentradas no caso Master. Sete ações tiveram decisões favoráveis ao senador, embora nenhuma tenha transitado em julgado. O dado funciona como contraponto direto à narrativa de passividade, e aliados o utilizam para sustentar que a campanha reage, ainda que com estratégia diferente.
O ponto de inflexão da disputa, contudo, foi a crise instalada no Supremo Tribunal Federal (STF) no início de setembro. O ministro André Mendonça, relator do caso Master e indicado por Jair Bolsonaro, afastou o delegado Andrei Passos Rodrigues do comando da Polícia Federal na terça-feira, 8 de setembro. No dia seguinte, o ministro Flávio Dino, indicado por Lula, reintegrou o delegado, e o presidente do STF, Edson Fachin, suspendeu as decisões, em um movimento interpretado pelo PL como um contra-ataque.
A cúpula do partido enxergou no episódio uma oportunidade para argumentar que o governo interfere em investigações, e passou a explorar a associação entre Lula e o ministro Alexandre de Moraes. A investigação da PF aponta mensagens entre Vorcaro e o magistrado, e o escritório da esposa de Moraes, Viviane Barci de Moraes, assinou um contrato de R$ 132 milhões com o Banco Master. Flávio classificou a decisão de Dino como uma “canetada contra os precedentes históricos do Supremo” e “uma tentativa de interferir num processo judicial”.
Na avaliação de dirigentes do PL, o ministro Mendonça “criou uma armadilha da qual não há saída fácil para Lula e aliados”: se o governo pressionar pela troca de relatoria dos casos Master e INSS, dá munição a Flávio para acusar intervenção; se mantiver Mendonça, convive com um relator alinhado à oposição. O líder do PL na Câmara, deputado Sóstenes Cavalcante (RJ), reagiu com ironia à confirmação do afastamento de Andrei pela Segunda Turma: “Só no STF do Brasil três ministros votando em colegiado valem menos do que um!”.
Há, porém, leituras cautelosas dentro do próprio partido. Uma ala reconhece que a crise do STF pode se voltar contra Flávio, que também está envolvido com Vorcaro no caso “Dark Horse”. Sem Mendonça na relatoria, amplia-se o risco de vazamentos contra o senador, que é investigado por lavagem de dinheiro, corrupção e evasão de divisas no caso das rachadinhas e sustenta que não houve ilegalidade. A Agência Pública registrou que a campanha do candidato omite deliberadamente a própria relação com o banqueiro ao associar a briga no STF a Lula, o que torna o tema uma arma de dois gumes.
A estratégia de debates também concentrou críticas. Flávio condicionou sua participação nos debates à presença de Lula, e ambos faltaram ao debate inaugural da Band, em 23 de agosto, sendo citados 73 vezes no confronto, segundo levantamento do Congresso em Foco. O senador rebateu em vídeo: “Quero debater com quem está destruindo o Brasil”. Em 27 de setembro, porém, ele confirmou presença no debate da Globo mesmo que o petista não compareça, afirmando que vai “desmascarar” o adversário. A decisão diverge da postura inicial e foi lida por aliados como resposta às cobranças de dentro do partido.
O contexto econômico adiciona densidade à disputa. Levantamento da Folha de S.Paulo mostra que o terceiro mandato de Lula acumula a menor inflação às vésperas de uma eleição desde o Plano Real, com IPCA de 17,9% entre janeiro de 2023 e agosto de 2026. O endividamento das famílias e o nível dos preços de alimentos, contudo, seguem como desafios, e estudo publicado em julho aponta que a aprovação de Lula é a mais sensível à inflação e ao desemprego em 30 anos. A campanha de Flávio capitaliza exatamente sobre esse ponto, com o slogan “a culpa é do Lula” e o foco em custo de vida e endividamento.
O petista, por sua vez, enfrenta o desgaste do noticiário sobre o filho Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, e a rejeição elevada: pesquisa Datafolha de agosto mostra que 45% rejeitam o voto no presidente e 46%, no senador. O levantamento de 3 de setembro registrou 51% de desaprovação ao governo e 45% de aprovação. Nos estados, o Datafolha de 25 de setembro aponta Flávio à frente em São Paulo, no Rio de Janeiro e no Distrito Federal, Lula em Pernambuco e empate técnico em Minas Gerais, enquanto levantamentos compilados pelo UOL indicam vantagem petista em 11 estados e bolsonarista em oito, além do DF.
A leitura mais consistente entre analistas é que a reta final será definida pelo candidato menos rejeitado, em um cenário de polarização extrema em que a margem de erro de cada movimento é mínima. As críticas internas ao PL, nesse contexto, revelam mais do que insatisfação pontual: expõem uma tensão estrutural do bolsonarismo entre a moderação buscada por Flávio para atrair o centro e a radicalização cobrada por uma base que identifica no enfrentamento direto a essência do movimento político que o sustenta.
A pergunta que resta é se o contra-ataque anunciado na reta final — com a escalada dos ataques a Lulinha, aos escândalos do PT e à crise do STF, conforme antecipou a CNN Brasil — chega a tempo de conter a operação de desgaste petista. Os números sugerem que a campanha segue viva, mas o tempo é curto, e a história recente mostra que, neste embate, armadilhas são montadas dos dois lados, nem sempre com a precisão que os estrategistas gostariam de admitir.
Val-André Mutran é repórter especial do Portal Ver-o-Fato e está sediado em Brasília.














